O pedagogo e gestor de Recursos Humanos, Geovani Nascimento, escreveu para o Alma Preta sobre como o ambiente escolar é violento para crianças gays

Texto: Geovani Nascimento | Imagem: Pexels

Esse texto surgiu de inquietações e questionamentos que tenho enfrentado na minha rotina desde que decidi realizar a graduação em Pedagogia no Instituto Singularidades – uma renomada universidade localizada em Pinheiros, na cidade São Paulo.

Quando nós da comunidade LGBT, especificamente gays, somos crianças e entramos na educação básica, somos renegados pelos simples fato de existirmos. Mesmo ainda não sabendo se somos gays ou não, vivemos uma rotina de terror em todos os espaços da escola.

A educação infantil deveria ser um espaço de acolhimento, mas em vez disso, é um lugar de violência dos nossos corpos, costumes, falas e vestimentas. Já na fase da juventude, alguns de nós decidimos contribuir para diminuir um pouco as violências que vivenciamos na pele. Porém, em uma posição diferente, como professor dos filhos daqueles que nos discriminam.

Fazer parte da educação básica como professor pensando que irá ser diferente, não é. Os desafios são notórios como quando algum membro da família de nossos estudantes, principalmente o pai, vem nos cumprimentar com nojo, com receio, sem afeto nenhum ou, até mesmo, se nega a dirigir a palavra.

Por isso, gostaria de dedicar esse texto à todas as escolas privadas de São Paulo que me pediram em determinada fase do processo seletivo para “mudar o jeitinho”, pois só assim seria possível me contratar.

Entre idas e vindas nas escolas privadas, mesmo tendo todos méritos e habilidades requisitadas, a não contratação se dava por uma devolutiva que era “mudar o jeito”. Que jeito? Como posso deixar de ser eu mesmo no meu ambiente trabalho? Perguntas que ficam latentes até hoje na minha mente.

Com isso, estudei o currículo nacional da educação infantil brasileira, que é a base para construção de projetos pedagógicos dentro das escolas. Busquei compreender como funcionava, como era na prática, entre outros. Assim, por meio de pesquisas, notei que o currículo deve ser percebido como algo que nunca é neutro, sendo um “aparelho ideológico”, com distintas finalidades e clara intencionalidade.

Se por um lado houve (e ainda há) propostas pedagógicas sobre a base de currículos voltados a ajustar crianças e jovens à economia, de outro, diversas outras teorias buscaram trazer à tona visões que por vezes consideraram o projeto pedagógico como política cultural, como reprodução cultural, ou tratando-o como possibilidade de desenvolver as diferenças e identidades, as relações de gênero e a pedagogia feminista, como narrativa étnica e racial.

A realidade é mais do que aparenta ser e o projeto político pedagógico de diversas escolas privadas se torna um processo industrial, uma burocracia descolada da realidade – não a realidade imaginada, mas a vivida, experimentada. Diante disso, não são desenvolvidas questões emocionais e de identidade dentro dos espaços escolares e sim o que as famílias querem ver, o que for lucro para os donos das escolas.

Quando falamos em plano político pedagógico, trata-se, em vez de preparação para uma inovação de mercado, de realizar uma observação profunda da realidade antes de que se construa (idealize) a realidade pela base do currículo nacional. Isso significa que antes de pensar nas questões inovadoras, a questão central passa a ser: quais cidadãos eu quero desenvolver?

A construção de um projeto pedagógico, se almejamos uma sociedade democrática, deve ouvir a sociedade e os anseios dos alunos antes de determinar o que é bom para eles/para si.

A reflexão sobre o plano político pedagógico deve ser tecida com os alunos e sociedade e não para a economia. Deve ser para a sociedade levando em conta a realidade da comunidade em que estão inseridos e não realidades distorcidas que supomos existir.

Entretanto, percebo que nos dias de hoje, as escolas se deparam cada vez mais com a questão da orientação sexual entre os estudantes em sala de aula, mas infelizmente nem todas as escolas demonstram real interesse em desenvolver políticas e atividades com práticas em suas rotinas para lidar com tais questões, estigmas e preconceitos da sociedade brasileira, reforçando-os em suas práticas escolares.

Ainda que o trabalho com a orientação sexual seja uma importante estratégia para formar de maneira integral algumas instituições escolares, quando trabalham com esta temática a utilizam como conteúdo de aprendizagem e não valorizam sua real importância, equívoco similar a não considerar a potência das atividades.

É essencial que o trabalho que envolva questões de orientação sexual seja desenvolvido em sala de aula como conteúdo, mas também como uma forma de valorizar a diversidade e o respeito, forma esta que pode potencializar a construção da autoestima positiva e o resgate das identidades dos estudantes presentes no ambiente escolar.

As atividades relacionadas às questões de identidade de gênero, segundo as orientações oficiais, têm objetivos didáticos e sociais, ou seja, são estratégias de aprendizagem que permitem ao professor (a) observar e compreender o desenvolvimento sociointerativo e sociocultural de seus estudantes.

Acredito que abordar esse tema na sala de aula nós faz refletir e levantar hipóteses de que é possível trabalhar com a garantia dos direitos de aprendizagem e desenvolvimento de crianças pequenas utilizando a orientação sexual e descontruindo estereótipos.

Além de que propiciar uma identificação positiva com suas próprias características, valorizando a diversidade e fortalecendo relações mais respeitosas – sem normalizar o tratamento preconceituoso e homofóbico de algum pai com o professor do seu filho (a) – é uma forma de combater esses estigmas.

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