Em artigo, o jornalista Pedro Borges relata sua experiência durante o primeiro encontro internacional da organização, que aconteceu de 28 e 30 de novembro, em São Paulo (SP)

Texto / Pedro Borges | Edição / Simone Freire | Imagem / Zalika Produções

Pode ser cedo ou mesmo precipitado, mas vou correr esse risco: o 1º Encontro Internacional da Coalizão Negra por Direitos representa o amadurecimento de um projeto político com imenso potencial para marcar a história de luta do povo negro brasileiro.

Em conversa com pessoas com longa trajetória no movimento negro nacional, havia uma afirmação unânime durante o encontro realizado entre os dias 28 e 30 de novembro: “fazia muito tempo que a luta antirracista no país não fazia um encontro como esse”.

Apesar de jovem, não sou ingênuo e sei quando estou diante de algo grande e poderoso. Durante um final de semana todos presenciaram a reunião de mais de 60 organizações de movimento negro no Brasil com a companhia de outras inúmeras entidades da América Latina, EUA e África do Sul.

A tarefa era árdua: a de construir um pacto entre as organizações de movimento negro do Brasil para enfrentar o genocídio negro e o momento de retrocessos que se anuncia no país.

No dia 28, quinta-feira, conseguiu-se algo difícil: a construção coletiva de um documento que será assinado por todas as organizações presentes. O material é um anúncio da Coalizão Negra por Direitos e uma demarcação dos princípios da recém frente.

As entidades também compactuaram uma agenda política para o ano de 2020. Os detalhes, contudo, não cabem ao público e serão apresentados conforme o momento político exigir. A certeza é de que momentos grandes e importantes ações para o povo negro se anunciam.

Nos dias 29 e 30, a atividade foi aberta ao público. Na mesa de abertura fomos brindados com a inteligência e a sabedoria de todas as pessoas que a compunha. É necessário, contudo, demarcar a aula dada por Sueli Carneiro, do Geledés, e Edson Cardoso, do Irohin. Difícil conversar com alguém que não se arrepiou com os posicionamentos de ambos, que apresentaram os desafios para a Coalizão diante da atual conjuntura.

Nos demais debates, lideranças nacionais e internacionais saudaram e debateram com o público, que participou de maneira massiva. Foram aproximadamente mil inscritos durante a atividade, que ocorreu na Ocupação 9 de Julho, espaço de referência na luta por direitos na cidade de São Paulo (SP).

O espaço também foi escolhido a dedo e deu forças para todos concluírem os objetivos e as missões postas. Mesmo sem a presença de Carmen Ferreira e Preta Ferreira, impedidas pela Justiça de frequentarem a Ocupação, o ambiente e a presença destacada de lideranças negras femininas do próprio local encheram todos com a inspiração exigida para a grandeza da tarefa.

Ao fim, concluiu-se o encontro com o sentimento de missão cumprida, apesar de discordâncias e tensionamentos, típicos de qualquer encontro político. Construiu-se e fortaleceu-se uma frente de organizações do movimento negro que lutará de maneira conjunta para pautas cotidianas do povo negro e por aquelas apresentadas pela conjuntura.

A ação e o fortalecimento em 2019

São as mais de 60 organizações integrantes da Coalizão que se posicionaram ao longo de 2019 e que vão continuar a demarcar território contra os ataques orquestrados pelo governo Bolsonaro e os governos estaduais no país.

A atuação em 2019 pode ser apresentada em duas principais frentes: na denúncia do pacote de segurança pública de Sergio Moro e no combate ao acordo assinado por Donald Trump (EUA) e Jair Bolsonaro para a ampliação da base de Alcântara.

No primeiro caso, apesar da luta ainda seguir, é possível afirmar que ao menos Sergio Moro sentiu e viu seu projeto ser aprovado no dia 5 de dezembro sem os pontos mais sensíveis ao povo negro, como a ampliação do excludente de licitude e o chamado plea bargain.

Em Alcântara, as ações não conseguiram barrar a ampliação do acordo, mas permitiram apresentar com mais qualidade para a sociedade os possíveis retrocessos com a aprovação do acordo. Toda essa esfera pública construída servirá para o fechamento dos detalhes da ação e do acompanhamento da aplicação do projeto.

Reunir dezenas de organizações antirracistas para atuar de maneira conjunta para enfrentar projetos genocidas, construir unidade para ações em nível internacional, como na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e na ONU, são demonstrações na prática de que é possível e necessário atuar em conjunto. No final de semana, selamos, com êxito esse pacto.

A história pode me cobrar, apontar uma precipitação, mas vou correr esse risco. A Coalizão Negra por Direitos talvez seja uma das demonstrações de força e poder de articulação do povo negro mais importantes dos últimos anos.

A resposta, contudo, virá na prática e no poder de mobilização e luta para o período que se anuncia. Estarei, ao lado de inúmeros e inúmeras, nessa luta e escrevendo essa história que já começou linda e potente.

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