fbpx
 

Rede social da mãe do garoto que caiu de prédio de luxo no Recife há um mês foi invadida; inquérito policial indiciou Sari Corte Real por abandono de incapaz

Texto: Lenne Ferreira | Edição: Nataly Simões | Imagem: Carlos Ezequiel Vannoni

Na timeline de Mirtes Souza, Miguel sempre foi o protagonista. Ele virou seu grande companheiro desde que veio ao mundo, às 7h42 de uma manhã de novembro, há cinco anos, na cidade de Orobó, Agreste de Pernambuco. O sorriso e a alegria do menino, que caiu do nono andar de um edifício de luxo do Recife há exatamente um mês, saltava aos olhos dos amigos que seguiam o perfil do Instagram da empregada doméstica. O passeio na praia e no clube, a fantasia do último carnaval, as festas de aniversário e os momentos com amigos e familiares como a avó Marta estavam registrados lá, no álbum virtual que deixou de existir depois que a conta de Mirtes foi hackeada na última semana.

“A maioria das fotos, eu só tinha lá mesmo”, conta a mãe de Miguel, que há 30 dias iniciou uma batalha para ver na prisão a ex-patroa, Sari Corte Real, que no momento do acidente era a responsável por Miguel, a quem chamou de “tinhoso” diante do corpo da criança, segundo depoimento de uma das testemunhas do inquérito policial que indiciou a empresária por abandono de incapaz seguido de morte.

O hackeamento do perfil de Mirtes é muito simbólico em um país que promove o apagamento de corpos negros e silencia as dores de mulheres como ela. Um recado habita o gesto de deletar o perfil de Mirtes: a evidente vontade de calá-la negando-a, inclusive, o direito à memória do seu filho. Afinal, a quem interessaria a remoção de imagens-lembranças de uma mãe em estado de luto?

mosaico

Foto: Acervo Pessoal

Mirtes não teve tempo de pensar sobre essa resposta porque segue em busca de outras mais urgentes. Algumas, ela foi obter pessoalmente, na última segunda-feira (29), vigésimo oitavo dia sem Miguel, dia de depoimento de Sari Corte Real. A doméstica fez plantão do lado de fora da delegacia que investiga o caso, com o delegado Ramon Teixeira à frente. “Eu sabia que ela ia prestar depoimento, mas não sabia o horário exato. Soube pela TV que Sari estava lá e fui correndo porque eu precisava dizer umas coisas para ela”, diz Mirtes, que chegou ao local antes das 7h. A empresária, que é esposa do prefeito de Tamandaré, Sérgio Hacker, já estava na delegacia.

A pedido dos advogados de defesa de Sari, o delegado abriu uma concessão para iniciar a colhida do depoimento duas horas antes do expediente normal da delegacia. O intuito, segundo a defesa, era “garantir a integridade física” da acusada. O mesmo delegado que aceitou a fiança de R$ 20 mil e dispensou Sari para responder o processo em liberdade, no conforto do seu lar. Privilégios que, como disse a própria Mirtes, não seriam possíveis a ela, que nem teria essa quantia de dinheiro para pagar e que também não receberia qualquer tratamento especial caso fosse ela a responsável pela morte do filho da patroa. Ao mesmo tempo em que confessa não vê ligação entre racismo e a tragédia, Mirtes percebe os privilégios da elite branca pernambucana, que reproduzem, como bem pontuou a jornalista Fabiana Moaes, doutora em Sociologia e professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o comportamento da Casa Grande Senzala no texto “Miguel, Sari e Gilberto se encontram no elevador”.

Na unidade policial, Mirtes esperou cinco horas até entrar e encontrar Sari, que estava acompanhada de três advogados, além do marido e o sogro. “Eu falei tudo o que queria, mas, em nenhum momento, ela pediu desculpas ou demonstrou arrependimento”, contou a doméstica ao sair da delegacia. No local, havia uma aglomeração de apoiadores, profissionais da imprensa e agentes da polícia. Já passava das 13 horas quando Mirtes deixou o local. Dona Marta foi ao seu encontro assim como outros familiares, que não contiveram a revolta ao ver Sari sair escoltada pela polícia. As imagens das câmeras de TV que estavam ao vivo do local mostraram o momento em que a tia de Miguel, Erilourdes Souza, enfrentou a viatura e esbravejou sua indignação. “Assassina. Assassina”, gritava ela com a máscara de proteção contra a Covid-19 sobre o queixo antes de ser afastada por um policial. Hacker nenhum tem como apagar a revolta da família.

sariporcarlosezequielvannoni

Foto: Carlos Ezequiel Vannoni

A reação de Erilourdes, a dor de Mirtes e de sua família se justificam. São 30 dias da ausência de um dos mais novos e radiantes integrantes do clã Souza. Desde aquele fatídico 2 de junho, quando as imagens do elevador onde o garoto foi abandonado vieram à tona, a luta e necessidade por justiça têm tomado todas as horas do dia e da noite da mãe, tia e avó. A ajuda voluntária dos advogados Rodrigo Almeida, Daniela Bezerra, Rafaela Carrilho e Karla Cavalcanti também têm sido fundamental. “Eu fico com muitas dúvidas, mas eles me explicam tudo direitinho e tenho visto o esforço e empenho de toda equipe. Estou confiante”, comenta Mirtes, que segue a orientação dos advogados de não passar muitas informações sobre o processo que, agora, segue para o Ministério Público de Pernambuco (MP-PE).

“O nosso interesse, como o de todos, é a revelação da verdade com riqueza de detalhes e aplicação da pena à culpada”, pontua Almeida, que quase teve seu Instagram hackeado se não fossem as medidas de segurança. Casos recentes mostram que ciberpiratas ou hackers tentam impedir o avanço do movimento antirracista no Brasil e no mundo por meio da invasão de contas com grande visibilidade nas redes sociais.

Em laudo, o Instituto de Criminalística (IC) de Pernambuco, reafirma o entendimento preliminar do dia do crime de que a morte de Miguel foi acidental, sem que uma terceira pessoa pudesse estar presente para facilitar ou jogar a criança do alto do prédio. Afirma ainda que Sari apertou o botão da cobertura - fato negado repetidamente por ela e sua defesa. Mas, segundo o delegado Ramon, o botão da cobertura torna-se irrelevante de ser considerado porque a mulher permitiu o fechamento do elevador e admitiu que não monitorou o andamento da criança pelo prédio. “Independente da conduta de pressionar ou não a tecla da cobertura, houve a conduta omissiva de permitir o fechamento da porta. Isso, sim, tem valor jurídico penal bastante relevante, inclusive para responsabilização penal da investigada”, afirmou Ramon.

Em entrevista a um programa de notícias local, o advogado Pedro Avelino disse que “via com preocupação o levante e a condenação popular” sem o veredicto da justiça. Para os movimentos negros, que seguem mobilizados em torno do caso, é só o começo de uma longa peleja judicial. “Estamos atuando no acompanhamento do caso através de advogados/as negros/as e ativistas, no sentido de fazer um controle social sobre a condução do caso. Sabemos que o sistema de justiça é profundamente perpassado pelo racismo institucional e estamos atentos para que esse fator não determine a condução e as conclusões do processo. Estamos executando diferentes ações de comunicação, para confrontar a narrativa da mídia tradicional que tem buscado inocentar Sari. Enquanto mulheres negras, estamos irmanadas com Mirtes em sua luta por Justiça por Miguel, porque essa luta é de todas nós”, declara Mônica Oliveira, ativista da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco, da Articulação Negra de Pernambuco e da Coalizão Negra por Direitos.

avó com mirtes e miguel

Foto: Acervo Pessoal

Mirtes e Dona Marta também entraram ao vivo na TV para comentar o resultado do inquérito. Uma ao lado da outra como tem sido todos os dias. “Quando eu fico fraca, ela me fortalece”. Ambas trabalhavam para Sari, que não as liberou durante a pandemia, nem mesmo quando foram infectadas pela Covid-19. Na casa onde moram, que também foi escolhida por Miguel, o luto pela morte precoce de um membro da família já mostrou sua face antes. Mirtes perdeu um irmão, morto por engano, mas que não teve o crime investigado porque a família sofreu ameaças. “Dessa vez, não vamos nos calar, vou lutar até o fim”, garante a empregada doméstica que ainda não teve tempo nem ânimo para pensar no futuro sem o filho, para quem ela já programava a festa de formatura do ABC, em 2021.

“Durante o dia, tem sempre movimento por aqui. É alguém que chega, uma vizinha que chama para conversar. Mas, à noite, que era a hora que eu sempre estava com ele, a saudade aperta. Para mim, a casa só estava arrumada com os brinquedos dele espalhados”, conta Mirtes, por telefone, ao mesmo tempo em que tenta dar conta das inúmeras mensagens e notificações. Ter acesso a alguns trechos dos depoimentos de testemunhas a feriu e a revolta ainda mais. “Será que Miguel quebrou alguma coisa no Hall?”, foi a primeira preocupação de Sari, segundo a manicure que estava na casa no momento, quando ouviu o barulho do corpo de Miguel se chocando ao chão.

“Ela se preocupou primeiro com o bem material e não com o bem estar do meu filho, mas vida vale mais do que coisas”, analisa Mirtes. Na delegacia, ela pôde dizer essa e outras coisas para a ex-patroa monossilábica. Estava com a foto de Miguel no quadro de moldura verde água para mostrar que ele tem rosto, nome e família. É o filho de Mirtes e Paulo, o neto de Marta e sobrinho de Erilourdes. Isso nenhum hacker poderá apagar. Assim como também não vai tirar do ar os vídeos que evidenciam o desleixo da patroa com o filho da empregada. Não há como deletar a curta história de vida de Miguel, que será lembrada pelos familiares, vizinhos, professores e amigos do futebol.

Uma missa no bairro do Barro, Zona Oeste do Recife, onde a família mora, marca o primeiro mês da morte do menino batizado com o nome de um arcanjo católico. Miguel, que simboliza cura e é considerado protetor e “líder do exército de Deus contra o mal” foi o nome escolhido por Mirtes, que acredita mais na justiça divina, mas é categórica: “A maior homenagem que podem fazer ao meu filho é a condenação e prisão de Sari”. Mirtes, sua voz firme, e significativa parcela da população pernambucana, com quem ela conta para que o caso não seja esquecido, seguem vigilantes para que a justiça dos homens também não seja hackeada.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

Apoie o Alma Preta e nos ajude a continuar contando todas essas histórias.

Vamos fazer jornalismo na raça!

Sobre o Alma Preta

O Alma Preta é uma agência de jornalismo especializado na temática racial do Brasil. Em nosso conteúdo você encontra reportagens, coberturas, colunas, análises, produções audiovisuais, ilustrações e divulgação de eventos da comunidade afro-brasileira. Nosso objetivo é construir um novo formato de gestão de processos, pessoas e recursos através do jornalismo qualificado e independente.

Contato

E-mail
jornalismoalmapreta(@)gmail.com