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Capital do Mato Grosso do Sul completa 121 anos e ainda precisa conhecer e reconhecer a história de Tia Eva, a verdadeira fundadora

Texto: Guilherme Soares Dias | Edição: Nataly Simões | Imagem: Heitor Salatiel

Neste 26 de agosto, Campo Grande, a capital do Mato Grosso do Sul, completa 121 anos. A cidade tem o apelido de “cidade morena” por conta da cor da sua terra: vermelha. Dom Bosco, que foi bispo da cidade, dizia que no fim da tarde as casas ficavam “morenas”. O apelido pegou de tal ponto que a população preta e parda é identificada apenas como “morena”. A formação da cidade é recente e muitos dos moradores não nasceram na capital.

Isso faz com que cada aniversário tenha exaltação aos povos que formaram a cidade: árabes, japoneses, paraguaios, além de estados brasileiros como mineiros, paulistas e gaúchos. Há uma invisibilidade da história e presença negra e indígena da cidade. Campo Grande tem quilombo e aldeias urbanas, mas não se vê como a cidade preta e vermelha que é. Afinal, 49% da população se declara preta ou parda e outros 2% indígena.

A fundação da cidade é emblemática para trazer à tona a história de Eva Maria de Jesus, conhecida como Tia Eva. Historiadores contam que quando o mineiro José Antônio Pereira dos Santos chegou ao local já havia a instalação de um quilombo, onde hoje fica a Comunidade Tia Eva. O homem branco, no entanto, é considerado o fundador da cidade e ganha museu comemorativo na avenida principal, escultura em frente ao Horto Florestal, escola e rua no centro da cidade. Já Tia Eva tem um pequeno busto e é nome de rua e escola apenas na comunidade que formou. Seu nome e história não se projetam para o centro e nem mesmo são lembrados nas datas comemorativas da cidade.

Liberta, Tia Eva chegou a Campo Grande com uma imagem de São Benedito (santo negro) e com uma ferida na perna. Ela sabia ler e era rezadeira. Fez uma promessa que se a ferida se curasse construiria uma capela para o santo. Foi o que aconteceu. A primeira construção foi em 1912 e substituída pela atual de 1919.

Naquele mesmo ano, Eva passou a fazer uma festa para São Sebastião. A cada mês de maio são nove dias de festa, sempre com doações. Apesar de centenária, a festa não faz parte do calendário oficial da cidade e nem recebe apoio de marcas ou divulgação dos governos municipal e estadual.

A igreja que é a mais antiga da cidade é tombada pelo patrimônio histórico. E a comunidade, que tinha originalmente oito hectares, foi envolvida pela cidade. Não há reconhecimento de área de quilombo, luta antiga dos descendentes. Além de Tia Eva, a cidade abriga ainda as comunidades quilombolas de São João Batista e Chácara Do Buriti, além de Furnas de Dionísio, que fica no município vizinho de Jaraguari, e recebe turistas para conhecer cachoeiras e a história da comunidade.

Romilda Pizani, coordenadora do Fórum Permanente das Entidades do Movimento Negro de Mato Grosso do Sul, ressalta que há um mito de que na região não tem negros. “Isso está muito relacionado à miscigenação. Como estamos na região Centro-Oeste/Sul e há uma mistura com a população não-negra, o que faz com que a população negra não tenha essa visibilidade. Isso é um dos resultados do racismo”, considera.

Saiba mais sobre a história da Tia Eva e de Campo Grande:

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