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Setores da sociedade toleraram e defenderam Bolsonaro enquanto algumas medidas precisavam ser tomadas, como a reforma da previdência, e outras batalhas precisavam ser travadas, como derrotar o PT

Texto / Pedro Borges I Edição / Simone Freire I Foto / José Cruz/Agência Brasil

Bolsonaro não é mais necessário. A mesma sociedade, redes sociais, interesses de mercado que constroem uma figura, a desmontam quando convém. E parece que o tempo de Bolsonaro chegou ao fim.

O atual presidente da República sempre flertou com atitudes extremamente autoritárias. Desde Collor, por exemplo, é o presidente que mais adotou decretos nos primeiros seis meses de gestão como forma de governar e quem mais tensionou uma relação de conflito com os poderes Legislativo e Judiciário.

Bolsonaro sempre foi uma afronta ao chamado Estado Democrático de Direito, ao funcionamento das instituições, ao equilíbrio de poderes, como diz a receita democrática no plano liberal.

Mas, nas eleições de 2018, havia um objetivo maior. Era preciso enfrentar o Partido dos Trabalhadores (PT) e o projeto já minguado de desenvolvimento nacional desde a gestão de Michel Temer (MDB), de participação do Estado na economia e iniciativas de inclusão social.

O candidato preferido, Geraldo Alckmin (PSDB), com amplo tempo de televisão, não emplacou. Com a força e a articulação das redes sociais, Bolsonaro foi quem conseguiu rivalizar com o PT e chegar ao 2° turno.

Com esses projetos em voga, aceitou-se o risco de escolher um candidato que já vociferava ódio à imprensa, havia anunciado que fecharia o Congresso Nacional e que uma guerra civil seria necessária, com a morte de pelo menos 30 mil pessoas. Isso sem contar os inúmeros posicionamentos abertamente racistas, LGBTfóbicos, sexistas.

O mercado, contudo, queria reformas e mais reformas. As de Michel Temer (MDB), como o teto dos gastos públicos (EC 95) e a trabalhista, não pareciam suficientes. Era preciso desmontar todo e qualquer vestígio de direito social presente na Constituição de 1988.

A escolha e a aproximação com Paulo Guedes, atual ministro da Economia, foram o sinal verde ao mercado. Podia-se apoiar Bolsonaro, mesmo com todos os receios e ressalvas ao então candidato.

Depois de eleitos, Paulo Guedes avançou com a reforma da Previdência, mesmo que essa não fosse a prioridade de Bolsonaro. Essa agenda quem articulou com o ministro da Economia foi o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia.

Os erros políticos, as falas absurdas, as medidas antidemocráticas de tentar governar por meio de decretos, com pouco diálogo com o Poder Legislativo, foram isolando o presidente. Bolsonaro percebeu que governar o país não é o mesmo que gerir contas de redes sociais, onde se pode publicar o que quiser, quando se quer, até mesmo mentir.

O estopim disso veio com a pandemia da Covid-19. Bolsonaro cometeu erros quando foi contra as orientações da da Organização Mundial da Saúde (OMS), opondo-se ao ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e fez falas desastrosas sobre a pandemia, que já matou centenas de milhares de pessoas no mundo.

Os erros também aumentaram a tensão com o Poder Legislativo, presidido por Rodrigo Maia, na Câmara, e Davi Alcolumbre, no Senado. Um dos episódios mais marcantes foi a convocação de manifestações no dia 15 de março, que se posicionavam de maneira contrária ao Supremo Tribunal Federal (STF) e o Poder Legislativo, os outros dois pilares da democracia liberal.

Bolsonaro foi então se isolando, isolando e, quando encurralado, apelou para a única arma que tem, o autoritarismo. O chefe do Poder Executivo demitiu o em meio a uma pandemia o ministro da Saúde, Mandetta, e participou de manifestações, no dia 19 de abril, que pediam o fechamento do Congresso e do STF.

A essa altura, Bolsonaro já estava só, com apenas seu clã familiar e cercado de um exército de robôs nas redes sociais. O golpe fatal veio com o pedido de demissão do então Ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, figura muito popular entre os setores de direita, e as graves denúncias que ele fez contra Jair Bolsonaro. O presidente da República ainda terá muita dor de cabeça nas próximas semanas para driblar as acusações.

Sem poder de mobilização, com pouca força política no Congresso, Bolsonaro se tornou peça descartável. Não que o mercado esteja satisfeito apenas com a reforma da Previdência. Mas o capital e os setores conservadores se mobilizam para construir novas figuras que permitam a continuidade de uma agenda liberal e que tornem os ricos mais ricos e os pobres mais pobres.

As fichas já estão lançadas. Ao que tudo indica, o próximo rosto da direta deve ser mais “técnico”, menos “militante”. Nesse cenário, duas figuras despontam, e com amplo caráter popular: Sergio Moro e João Dória.

Se seguir nesse ritmo, Bolsonaro deve se desidratar cada vez mais, perder capital político para as próximas eleições e talvez nem consiga concluir o mandato de quatro anos para o qual foi eleito. A economia, que poderia sustentar as suas atrocidades, deve entrar em forte período de recessão e tornar a gestão ainda mais impopular.

As eleições municipais, ainda sem total confirmação, serão um ótimo termômetro da força do bolsonarismo e de uma possível nova cara da direita. Isso se Bolsonaro estiver no cargo até lá, ou se ainda estivermos em um regime democrático.

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