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Crítica de Lilia Schwarcz sobre álbum visual de Beyoncé é rebatida por militantes negros

Texto: Guilherme Soares Dias | Imagem: Divulgação

O texto que a historiadora e antropóloga branca Lilia Schwarcz publicou na Folha de S.Paulo com uma crítica ao álbum visual Black is King causou fúria dos militantes do movimento negro. O título “Filme de Beyoncé erra ao glamorizar negritude com estampa de oncinha” e o resumo do que os leitores encontrarão no artigo “Diva pop precisa entender que a luta antirracista não se faz só com pompa, artifício hollywoodiano, brilho e cristal” ajudam a explicar. Mas como lembra a própria #lilia, que se tornou um dos assuntos mais comentados no Twitter no domingo (2), em seu pedido de desculpas, é preciso ler o texto completo.

O erro, segundo a jornalista e influenciadora digital Maira Azevedo, a Tia Má, é uma mulher branca acreditar que pode dizer a uma mulher preta como ela pode contar a história e narrar a sua ancestralidade. “A branquitude acostumou a ter a negritude como objeto de estudo e segue crendo que pode nos dizer o que falar sobre nossas narrativas e trajetórias. Lilia é uma historiadora, pesquisa sobre escravidão, mas está longe de sentir na pele o que é ser uma mulher preta. @beyonce do alto da sua realeza no mundo pop nunca deixar de ser negra, mesmo sentada no trono em sua sala de estar”, escreve em post, fazendo referência ao texto da historiadora.

Maira continua lembrando que a branquitude acredita que pode ensinar as pessoas negras a contar a própria história. “Enquanto todas as pessoas negras se emocionam, se reconhecem e se identificam, a branca aliada diz que #beyonce deixa a desejar! É isso! No final nós por nós e falando por nós!”, ressalta, lembrando o provérbio africano que diz: “enquanto os leões não contarem suas próprias histórias, os caçadores seguirão sendo vistos como heróis”.

Releitura de Hamlet

O doutor em linguística, escritor e cientista Gabriel Nascimento lembra Lilia Schwarcz que a cantora Beyouncé “não precisa entender nada” que “resiste ao racismo com a própria vida”. Nascimento ressalva que “não curte ressignificações da literatura anglófona”, mas ressalta que “o Hamlet africanizado não é puramente a transposição das personagens de um escritor popular inglês para aquele mundo de forma bobinha, mas o que Henry Louis Gates, intelectual negro americano, ousou chamar de “signifyin (g)”, ou seja, a necessidade de reinventar as imposições brancas para que as pessoas negras continuem a viver”, escreve em post.

O escritor lembra que Hamlet se passa na idade média e questiona porque sua ressignificação não pode se passar na África pré-colonial. Gabriel Nascimento também pergunta: “Qual o problema da relação de natureza e corpo pra você, Lilian? Os povos africanos, mesmo os pós-coloniais, continuam lidando com essa relação sem necessariamente verem o mundo moderno como a narrativa única (essa sim!) que você apresenta em seu artigo”.

A responsabilização da branquitude pela manutenção desse arquétipo moderno que o pop da diva “reifica, zomba e ressignifica” também é questionado. “Por que julgar que se trata de desconhecimento?”. E conclui: “É lamentável que você não tenha perdido a oportunidade de se perder nessa análise que, assim como você imagina ser na narrativa de Beyoncé, é puramente essencialista da forma como uma intelectual branca vê os povos que estuda, os negros brasileiros”.

Zero defeitos

Já o jornalista Marco Lucas Valentim lembra em post, com uma camisa com estampa de oncinha, que “o primeiro erro é juntar as palavras “Beyoncé” e “erra” na mesma frase” e ressalta “parem, pois nós devemos estar no comando das nossas próprias narrativas”.

Falta de representatividade na mídia

A falta de representatividade de pessoas negras na imprensa é ressaltada pelo produtor cultural Romário Almeida. “Se tivéssemos diversidade na comunicação, certamente haveria uma coluna assinada por pessoa preta com uma crítica técnica e sensível sobre Black is King. Como não temos, saiu um texto de alguém que estuda tanto as pessoas negras que até ‘se esqueceu’que não é. Esse lugar de tema/objeto de estudo já não nos serve, sabemos escrever e estamos escrevendo as nossas próprias histórias (com glamour e estampa de oncinha, rs).”, afirmou em post.

Discurso racista

A influenciadora digital e apresentadora da GNT Stephanie Ribeiro questionou: “Agora precisamos pedir licença para falar da nossa negritude? Aparentemente sim, ao tecer uma crítica sobre o novo trabalho de Beyoncé uma intelectual brasileira ignorou que Beyonce é negra, sua equipe é majoritariamente negra, sua vida inteira foi sendo uma mulher negra e numa audácia comum no Brasil tentou ensinar como ela deveria ser negra, inclusive fazendo uso da ideia que ela ‘deve sair da sala’”, afirmou em post. Mesmo se tratando da Beyoncé, Stephanie considera que a fala “é colonial e racista vinda de uma pessoa branca para alguém negro. Como se quisesse ensinar como devemos ser e agir e até mesmo tutelar como e onde devemos estar”.

O texto, segundo Ribeiro, não será lido pela cantora norte-americana, mas por negros e negras brasileiras que se inspiram nela. “É um claro recado pra que a gente se coloque no nosso lugar e só fale quando somos convidados e da forma que acreditam que devemos falar sobre os assuntos que nós mesmo vivenciamos. Mais uma vez colocados como espectadores da nossa própria história e objetos de estudo”, salienta. A ativista afirma ainda que a historiadora não tem conhecimento sobre afrofurismo, nem sobre cada profissional negro e/ou africano envolvido no projeto que classifica como “gigante”. “Uma pessoa branca escreveu nas entrelinhas que Beyoncé e consequentemente todos estes profissionais não sabem ser negros sem ser pasme glamourizadores da própria negritude”.

De branco para branco

A relações públicas Mari Lemos considera “Black is King” uma obra prima. “Trabalho rico, primoroso e talentoso de um grupo de artistas e outros profissionais negros pesquisadores da cultura e subsequente estética africana e afrodiaspórica”, afirma em post. Branca, Mari afirma que a branquitude que esteve representada pela figura da antropóloga e escritora Lilia Schwarcz no debate, “deve urgentemente entender que seu papel ‘antirracista’, limitando-se a construir crítica sobre seu próprio povo, os brancos”.

Ela ressalta que ainda que houvesse críticas ao novo trabalho de Beyoncé, elas não deveriam vir de uma antropóloga branca. “Mesmo profunda estudiosa das teias nefastas do racismo, não está no lugar de determinar a decodificação dos símbolos e códigos, a releitura e ressignificação de uma ancestralidade que não herda”.

Mari é categórica ao dizer que Lilia errou e lembra que há “erros nos processos de reaprendizagem da branquitude em relação ao seu papel histórico de opressor”. “Seu texto não apenas ofende, mas desrepeita a ancestralidade negra, a contemporaneidade negra e suas múltiplas possibilidades de impacto a partir do lugar ocupado por Beyoncé, a cultura pop. Reconhecer quando erramos é o mínimo, sobretudo de uma formadora de opinião popular que propõe a prática antirracista dos seus”, escreve.

Mea culpa

Lilia faz apenas um mea culpa sobre o artigo e escreveu em rede social: “Respeito muito o trabalho de Beyoncé. Peço que leiam o texto todo que é muito mais elogioso que crítico. Todo texto pode ter muitas leituras. Me desculpo, porém, diante daqueles que ofendi. Não foi minha intenção. Respeito muito o diálogo e aprendo com ele”.

Na África, a foco do debate é outro

A colunista do jornal O Globo Ana Paula Lisboa, brasileira que vive em Angola, ressaltou: “Vocês celebrando Beyoncé e em Angola estão discutindo apropriação cultural”. Ela lembrou que esse tipo de questionamento é antigo e que as pessoas negras da diáspora “ficam tão emocionadas com a ‘ancestralidade’ que às vezes perde o freio” e indica: “tem que pisar devagarinho nesse chão e lembrar que os africanos estão vivos e podem falar por eles mesmos. Não foi todo mundo que foi no navio não…”.

Texto publicado originalmente em Guia Negro.

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