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Cássio dos Santos, estudante de psicologia, e Tamiris Pereira, doutoranda em educação, escreveram uma crítica afrofuturista do filme “Bacurau”, em exibição nos cinemas brasileiros

Texto / Cássio dos Santos e Tamiris Pereira | Imagem / Divulgação

[CONTÉM SPOILERS]

Bacurau é pássaro. De asas longas, o filho da noite e da escuridão tem voo curto e certeiro. A trama colonial que anseia lhe podar as asas não lhe permite vacilações. Nascido no sertão pernambucano, foi gestado em serra de herança quilombola e nomeado na etimologia indígena.

Bacurau gorjeia, corveja e charlea gritando as feridas e os traumas coloniais sem deixar de cantar um novo futuro. Resolvemos piar por aqui uma resenha a partir de uma interpretação afrofuturista do filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.

Afrofuturismo é o movimento de recriar o passado que nos foi negado, transformar o presente que nos é imposto e projetar um novo futuro através da nossa própria ótica.

O violeiro sentado à soleira da porta vigia Bacurau, com vestes dissonantes dos demais da comunidade e carregando evidente mistério e lábia, mais parece ter vindo de Olorum.

Remete-nos a Exu com um tridente em forma de viola, dotado de língua afiada a comunicar, atiçar e movimentar as encruzilhadas das personagens diante do faroeste do sertão. Tira sarro com o colonizador e menospreza seu dinheiro; diverte a si e aos outros "só de gaiato" porque ali ele pode e faz poder.

Essa construção do poder marca o filme em diversos momentos. Bacurau não precisa de ninguém, além de si, para se legitimar. Tem o seu próprio mapa. Não come na mão de prefeito ou submete-se a autoridade alguma que não encarne em si a própria comunidade. Coletiva, diversa e mutuamente, se gere e se gera, no respeito às tradições que fazem sentido, aos mais velhos e à força da coletividade.

Não há afrofuturismo sem descolonização. Descolonização do corpo, da mente, da percepção, das subjetividades e do espírito. A experiência colonial forja um processo distópico que cinde fronteiras e interpenetra as temporalidades e percepções sobre passado, presente e futuro das populações colonizadas. Mais que uma alegoria, o conceito de Sankofa (Adinkra do povo Akan) é um método para o afrofuturismo: "Não há nada de errado em voltar atrás para buscar o que se esqueceu".

Abandonando a concepção linear de tempo do colonizador, Sankofa está no museu da cidade, na sabedoria dos mais velhos, na capoeira e nas referências ao Cangaço.

O passado se presentifica e projeta-se para o futuro, da mesma forma que o futuro – que pode muito bem ser representado pela escola e pelas crianças da cidade – projeta-se para o passado, na perpetuação de uma determinada narrativa.

Nossos deuses e deusas não são heróis do passado. Assumem postos fundamentais no campo de batalha. É o violeiro que guarda a estrada, são os corpos das nossas matriarcas fluindo como águas para fecundar a terra em que pisamos.

Iemanjá e Ossain convergem, na forma de "forte psicotrópico", em uma percepção outra da realidade, uma forma de ver o mundo que transcende a força de verdade do olhar, como as das forças colonizadoras da europa (oyewumi oyeronke, visualizando o corpo).

A visão colonial não dá conta de experienciar o mundo como os povos originários e tradicionais o fazem. O colonizador não sente o gosto, o cheiro e não vibra em comunhão com o restante da natureza como a gente de bacurau, ele conta: tiros disparados e corpos no chão.

Por outras formas de percepção do mundo, é possível estabelecer outras relações com o silêncio, o vento, a água, a vida e a morte. Assim, "Você quer viver ou morrer?" não representa uma simples piedade ao colonizador, mas uma outra concepção da vida.

Bacurau só pode ser tido como "apologia à violência" e "alimento para o ódio e a polarização" por quem não entende que, do lado colonizado, encontramos em nossas favelas e subúrbios uma chacina na Fazenda Tarairu por dia, há mais de 500 anos.

Se o futurismo, normalmente, se vale de uma concepção pós-apocalíptica do futuro. O afrofuturismo entende que sequestro, humilhação, escravização, genocídio e epistemicídio (ou a Maafa) são o nosso apocalipse, e nosso exercício afrofuturista é o de imaginar um futuro que ultrapasse os violentos limites impostos. É nos permitir imaginar e criar um futuro para além do dia seguinte. Um futuro que seja bom, que seja nosso. E para ser nosso, há que ser por inteiro.

A experiência estética do filme corporifica esse salto. A todo momento, o enredo, a fotografia e a trilha sonora trabalham com elementos de saturação, contraste, anacronia e intuem o expectador a não fechar um julgamento sobre a trama e os sujeitos de Bacurau. 

É como se dissessem: respeitem-os, eles estão criando seu próprio futuro! Desmascaram, então, a partir de 54 personagens com fala no filme a noção de um povoado nordestino de sujeitos “simples”, inessenciais, marcados pela miséria.

Vimos emergir a riqueza em gentes complexas, dúbias, desejosas, cuja marca principal é a abundância da essência individual e coletiva. Não é possível ler os movimentos de idas e vindas de Pacote (Thomas Aquino), Teresa (Bárbara Colen) e Lunga (Silvero Pereira) se não percebermos que tornar-se sujeito significa reconhecer esse movimento de colheita que faz a roda viva da luta pela libertação girar implicando os indivíduos. Quem nasce em Bacurau é gente porque só se é se formos nós (ubuntu).

O ritmo próprio e linguagem particular desta gente tenciona as incisivas dos colonizadores estrangeiros e nativos. Dominam as tecnologias, sem por elas serem consumidos. Não há silêncio no cosmos do colonizador.

A parafernália sonora do prefeito, o ronco das motocicletas, os zunidos de seus discos voadores, o frenesi da escuta auditiva permanente e o estopim de suas pistolas não são capazes de calar as misérias e frustrações interiores que se veem aturdidas diante da sinfonia silenciosa do cosmos bacuraense.

No pique esconde com o opressor sabem que segredo é arma. E é no jogo da cultura que vão tecendo os elos de cumplicidade que permite a eles se movimentar, manterem-se vivos e sonhando, mesmo sem ponto eletrônico na hora que a bala come.

Estivemos hoje, estamos amanhã e estaremos ontem e, enquanto for necessário, usando a tecnologia ancestral nos aquilombando dentro de escolas, subvertendo e empunhando nossa própria história – jogada para debaixo do tapete – como arma de museu vivo e confabulando, de corpos nus e sem pudores, quais serão os ingredientes do guisado a ser servido no jantar.

A nudez só é temida por aqueles que, em face da realidade, nos devem até o banquete da reparação do espírito. Sigamos, então, cavando a cova de nossos opressores: criando, sonhando e lutando em revoada na rota de nosso afrofuturo!

Cássio é organizador da Roda de Reis, 90% psicólogo e integrante do Coletivo Preto Virgínia Leone Bicudo de estudantes pretxs do curso de psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Tamiris é doutoranda em Educação em Ciências e Saúde (UFRJ) e integra o Núcleo de Estudo Afro-Brasileiro e Indígena da Cidade Universitária de Macaé.

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