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Mesmo descrito como um “monstro”, Babu é um dos sujeitos mais humanos, sensíveis e gentis do Big Brother Brasil 2020

Texto / Pedro Borges I Edição / Simone Freire I Imagem / Reprodução

Desde menino, me vejo como um homem preto e, desde muito pequeno, idolatro outras pessoas como eu. Primeiro, como não podia ser diferente, eram os jogadores de futebol. Amava ver Alex, Rivaldo, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, todos marcados pela genialidade, drible, inteligência.

Mas não me encantava só pelos craques dos gramados. Lembro de na escola fazer um trabalho sobre Martin Luther King e de me emocionar ao ler seus discursos. Lembro de me encantar com Malcolm X, um homem preto que não abaixava a cabeça para o supremacismo branco.

Confesso que quando pequeno não me incomodava, pelo menos de uma maneira consciente, com a ausência de algumas figuras paternas pretas nas famílias do meu entorno ou mesmo as periféricas de modo geral, nem mesmo as mancadas desses caras com as mulheres. É assim que a gente cresce, né? Conforme o tempo foi passando e comecei a entender que ser preto não é uma condição apenas biológica, mas principalmente social, passei a rever muitas coisas.

Fico chateado quando vejo um homem preto reproduzindo, de maneira grosseira, alguma violência, sobretudo contra a nossa comunidade. Fico chateado quando percebo ou me apontam que cometi, mesmo sem saber, alguma violência, em especial contra nosso povo.

Por isso, passei a idolatrar cada vez mais figuras pretas masculinas que são brilhantes no que fazem, esporte, política, economia, e são cuidadosas no plano ético e cotidiano.

Não acredito e nem existe qualquer homem que não reproduza em algum momento o machismo, ou mesmo que exista aquela figura do “desconstruídão”. Tô fora dessa! Nem cabe para nós, homens pretos. Mas admiro quem se permite ouvir, aprender e tentar melhorar.

Por tudo isso, me encantei pelo artista Babu Santana. Homem preto e gordo, Babu, um sujeito extremamente animalizado por parte das companhias masculinas e femininas do Big Brother Brasil 2020, é repleto de humanidade. A verdade é que precisa ser bastante racista para não enxergar a delicadeza e o afeto no artista, morador do Vidigal, favela do Rio de Janeiro.

O sentimento de parceria com o ator só aumenta por saber que, apesar de muito talentoso, está desempregado. Essa, infelizmente, é a realidade de muitos de nós!

Quando jovem, Babu desempenhou papéis de assaltante, criminoso, e por aí vai. E o que faz um homem preto gordo depois dos quarenta anos de idade? Qual papel nos cabe na sociedade e no mundo do mercado de trabalho? Acredito que a resposta é o desemprego.

O Big Brother Brasil parece ser um retrato, mesmo manipulado e cheio de remendos, da realidade. E é nesse fragmento de realidade que Babu Santana é constantemente humilhado e animalizado.

Babu “precisa” agradecer por não ser indicado a um paredão. Babu é um “monstro”, uma pessoa que parece que vai “gritar”, alguém que só pensa em comida, e é um completo estúpido. O cabelo de Babu também é motivo de piada e riso.

Apesar de tudo isso, o ator chora em diversas circunstâncias, se mostra extremamente leal aos seus princípios e valores, se oferece para cozinhar ou mesmo preparar um bolo para a amiga, Rafa, entre outras coisas.

Quando escuto que Babu é um “macho”, e que como todos os demais homens deve sair, sempre me recordo de Franz Fanon, autor das obras “Peles Negras Máscaras Brancas” e “Os Condenados da Terra”. É dele a frase de que “O negro não é um homem”. Para muitos e muitas, realmente não é.

Mesmo com toda a rasgação de seda, não pinto Babu como um sujeito de outro planeta. O ator tem as suas contradições e defeitos. Eu só queria mesmo compartilhar a minha alegria de ver uma pessoa igual a mim, que continua tão humana e sensível, apesar da violência cotidiana dentro e fora do BBB. E queria aproveitar para dizer que existem muitos, muitos mesmo, "Babus" entre o nosso povo.

Obrigado, Babu, você já é o campeão!

Aproveitem e votem pela permanência de Thelminha e Babu! Fora Gabi! E antes do paredão, teremos um texto sobre a Thelminha também <3

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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