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Mulher negra foi escravizada por uma família branca de Minas Gerais desde os oito anos de idade; sua liberdade resultou de uma recente ação da Polícia Federal

Texto: Henrique Oliveira | Imagem: Reprodução/Instagram

Depois de 38 anos vivendo como uma escrava, Madalena Gordiano, de 47 anos, ganhou a sua primeira boneca. Em fotos divulgadas no perfil “Expondo caso escravo”, no Instagram, usado para publicizar a história da mulher e exigir justiça, é possível vê-la sorrir enquanto segura uma boneca de cor negra e como foi o Natal com a família que a acolheu após sua liberdade. A ação da Polícia Federal foi noticiada pelo Fantástico, programa exibido pela TV Globo.

Madalena começou a ser escravizada aos oito anos de idade, quando bateu na porta de Maria das Graças Milagres Rigueira, na cidade de Patos de Minas (MG) para pedir comida. Em vez de alimentá-la, a mulher disse que iria adotá-la.

Na casa de Maria das Graças, Madalena passou 24 anos trabalhando como empregada doméstica, impedida de estudar, de sair da casa e nunca recebeu nenhum tipo de pagamento ou férias.

Como se fosse uma escrava do século 19, época em que pessoas negras sequestradas de países do continente africano eram doadas para os filhos quando eles se casavam ou eram deixados como herança nos testamentos, Madalena foi “dada” para Dalton Cesar Milagres Rigueira, filho de Maria das Graças. Dalton, que é professor universitário, nega que Madalena tenha sido sua empregada e diz que ela era uma pessoa “da família”.

O velho argumento costuma ser usado para negar as relações de exploração trabalhista, já que se tratando de um membro da família não é necessário pagar por esse trabalho e seguir a legislação trabalhista, No Brasil, inclusive, as empregadas domésticas só passaram a ter direitos previstos na legislação a partir de 2011, a menos de 10 anos.

O caso de Madalena Gordiano demonstra como o trabalho doméstico no Brasil é considerado uma relação social que visa a continuidade dos elementos culturais e simbólicos da escravidão, seja pelo seu caráter de exploração, de desvalorização por ser realizado por mulheres negras, ou pela manutenção das hierarquias raciais, a fim de reafirmar status social e a garantia do ócio das pessoas brancas nas atividades domésticas.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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