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Áurea Santa Izabel escreveu para o Alma Preta sobre os cuidados da alimentação para o enfrentamento do genocídio negro no Brasil

Texto / Áurea Santa Izabel I Imagem / Paula Froes/GOVBA

Autonomia alimentar é sobre ter acesso a informações dos alimentos e pleno poder de escolha entre eles. Em um Estado genocida, trabalhar para democratizar o acesso a comida saudável apresenta-se como uma forma de retomar parte de nossa autonomia alimentar e garantir nossa sobrevivência.

Sabe-se que a discussão referente a alimentação precisa e deve ir além do que diz respeito a ordem biológica (nutrir). Pesquisando variados aspectos que envolvem essa questão, passei a refletir sobre como levar este debate e conscientização para os moradores das periferias urbanas, cujo acesso a uma comida dita saudável é totalmente limitada e imposta pela indústria, pode ser pautada a partir de heranças comportamentais que ultrapassam o tempo e as gerações.

Há uma transição nutricional que vem ocorrendo principalmente nos últimos 50 anos, onde se observa alterações nos padrões alimentares sob a influência de um crescente processo de urbanização, industrialização e outros fatores cotidianos como o aumento do consumo de alimentos ultra processados, e uma significativa mudança no perfil nutricional dos brasileiros influenciados pelo estilo de vida que prioriza a economia, a rapidez e a praticidade.

A dificuldade no acesso a alimentos saudáveis associado aos novos padrões comportamentais evidenciam o aumento das desigualdades, onde uma parte das pessoas moradoras de favelas e periferias consomem cada vez mais alimentos ricos em gorduras e açúcares, e outra sofre com a fome e desnutrição pela escassez de alimentos de boa qualidade nutricional. Como consequência, é possível ver mudanças também no aspecto epidemiológico com aumento nos índices de sobrepeso/obesidade que, de acordo com a pesquisa Vigitel, apresentou crescimento de 67,8% no Brasil entre 2006 e 2018, e aumento de diversas outras doenças causadas pela má alimentação.

É urgente que tenhamos o controle daquilo que está em nosso prato diariamente. Reconhecer e associar bons alimentos à nossa saúde traz muito mais do que o conceito puramente nutricional pois comer é um ato social e a história da alimentação perpassa pontos importantes como sua produção, distribuição, preparo e consumo. Enquanto pessoas com melhor renda consomem cada vez mais alimentos orgânicos, nós, os mais pobres, ficamos a mercê de alimentos com baixo valor nutricional que são mais baratos e acessíveis, e quando consumimos alimentos in natura estes estão repletos de agrotóxicos.

A má alimentação já é considerada a principal causa de mortes em todo o mundo, sendo responsável por um em cada cinco óbitos registrados no planeta, segundo pesquisa publicada na revista médica The Lancet. O principal problema, segundo os pesquisadores, é que as pessoas estão comendo quantidades excessivas de açúcar e sódio, enquanto consomem cereais, grãos, frutas e legumes em quantidade insuficiente.

Os dados da pesquisa ‘Vigitel 2018 — População Negra” informam que o consumo regular de frutas e hortaliças é 33% menor na população negra brasileira em relação à branca. E enquanto 39% dos brancos consomem esses alimentos ao menos cinco dias na semana, o percentual cai para 29% na população negra. A pesquisa também revelou que a diferença no consumo recomendado de frutas e hortaliças foi menor entre homens (16%) do que entre mulheres (24%).
Para ir na contramão dessa realidade, devemos levar em consideração diversos princípios que se colocam como transversais e norteadores das ações de segurança alimentar e nutricional, como a equidade, a sustentabilidade, a participação, a cultura, etc.

“A comida não só nutre, mas também significa.” (FISCHLER, 1990)

A alimentação como cultura material é um dos aspectos mais importantes de uma estrutura de vida cotidiana. O respeito e o resgate de hábitos praticados por nossos antepassados vem contribuindo de forma significativa para que se restabeleçam as conexões com o alimento e com tudo de bom que podemos extrair dele. Hortas caseiras e comunitárias, apoio a processos produtivos e aquisição de produtos de pequenos produtores, ações de promoção do desenvolvimento local sustentável de forma a garantir a preservação das culturas tradicionais.

As atividades e práticas de educação alimentar e nutricional e o incentivo a ampliação da economia local, reforçam a integração e socialização dos indivíduos membros de sua comunidade, fortalecendo vínculos e cuidados entre as famílias. Em um contexto de extrema vulnerabilidade social, é importante prover conhecimento e autonomia visando contribuir para a mudança na gama dos alimentos, seus modos de preparo e a maneira de consumi-los.

O população negra precisa romper com a artificialidade da alimentação e se reconciliar com as práticas ancestrais, tornando-se consciente do seu passado cultural, livre para suas escolhas alimentares de forma a diminuir e quem sabe até reverter os índices de doenças causadas pela má alimentação, garantindo uma vida longa e saudável, ao contrário do que esperam de nós.

Áurea Santa Izabel é nutricionista em formação, pesquisadora na área de Segurança Alimentar e Nutricional para Populações em Vulnerabilidade Social.

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