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O poeta Akins Kintê apresenta a minissérie “Um Sol entre as Sombras de um Natal”, com textos sobre a festividade e relações afetivas; confira a terceira história

Texto: Akins Kintê | Ilustração: Marcos Z.X

Meia-dia em ponto olho na cara do sol, depois do velho stress no mercado, vou de banda, cumpro o prometido e paro no primeiro boteco. - ”Uma gelada façavô, tem o que aí pra beliscar?” .

Bebi foi duas, eu tô leve, uma felicidade sem tamanho no coração, hoje promete, me demorei um pouco, porque dois tiozão começaram lembrar uns carnavais antigos, batendo na mesa cantaram uns sambas de enredo lindo.

No relógio quatorze horas em ponto, vou de quintal em quintal, preciso dá um beijão na Tia Nega, aí tenho que me esforçar pra ser coisa rápida, tem onda pra curtir ainda. Vou beliscando um petisco aqui, pegando uma breja ali, já tem algo assando na churrasqueira acolá e nossa presença graças ao bom Deus é bem vinda.

Dezoito horas em ponto. - “Só dá um talento no black façavô pai”. E o P.H cheio de cliente, posso comprometer seu trampo a rapa tem a paciência porque não vou cortar, se não era debate.

- “Senta aí, caraí”. Garfo, secador, Laquê e thum... A mágica tá feita, segundo ele se ninguém tocar na carapinha o laquê segura até amanhã. Aff tô lindo mesmo.

Vinte horas em ponto, tô tentando ir pra casa, só que os amigos tá animado cantarolando um samba, do um raspa e beberico a penúltima, tem uns caras que é dali pra cama, desandaram. Tenho que ir, tenho responsa, antes canto aquele samba do Fundo - “Fantástico é saber curtir a vida...”. Porra, é nossa cara, finalizei a latinha e fui.

Vinte e três horas em ponto, o Uber deixou ela no meu portão, eu tô emocionado, quase sem acreditar que essa mina tá aqui no meu barraco, que vestido pelamô, tecido africano salmão, algumas flores de estampa, sua pele noite e o brilho do riso faz uma paisagem noturna, o coração acelera, algo ainda desconhecido batuca em meu peito. Depois do beijo então não sinto vontade de não ser ou fugir, agora é ficar, se fôr ver mesmo também merece esse encontro.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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