A doutora em literaturas africanas e pós doutoranda em filosofia africana Aza Njeri escreveu para o Alma Preta uma crítica sobre o espetáculo “Solano, o vento forte africano”, em cartaz no país

Texto / Aza Njeri | Imagem / Divulgação

Em 2019, o poeta afro-brasileiro Solano Trindade faria 111 anos e, não à toa, é o homenageado deste ano na FLUP (Festa Literária das Periferias) e, também, tema da peça “Solano, o vento forte africano”, dirigida por Geovana Pires, que assina a dramaturgia junto à Elisa Lucinda.

Atualmente em turnê pelo país, o espetáculo esteve em cartaz em setembro no icônico Teatro Dulcina, no Rio de Janeiro. Sua estreia oficial ocorreu em Embu das Artes, cidade paulista que acrescentou ao seu nome a locução adjetiva “das artes”, em reivindicação ao lugar de pertencimento das artes populares na sociedade brasileira e graças à militância desta relevante figura chamada Solano Trindade.

Solano significa vento forte que personifica, de certa forma, sua passagem no aiyê (terra), das brisas amorosas com sua companheira Margarida às tempestades das perseguições ideológicas sofridas por ele enquanto homem negro, artista e comunista.

A partir do papel arteducador, aprendemos que Solano Trindade além de poeta, ator, dramaturgo e militante das artes, participou da criação da Frente Negra Pernambucana e do Teatro Popular Brasileiro. Ele era um homem com olhar perspicaz sobre o seu tempo e se relacionava com as pessoas, a política e as artes de forma lírica.

É, por meio deste lirismo, que o ator Val Perré incorpora um Solano bonito e sensual, imponente como um rei e forte como o vento quente africano, deixando sua marca dramatúrgica no personagem em “Solano, o vento forte africano”.

Eu tive a oportunidade de presenciar duas apresentações: na estreia com Elisa Lucinda como esposa de Solano, Margarida, e duas semanas depois, na estreia de Valéria Monã na interpretação da mesma personagem. Valéria Monã, inclusive, assinou a belíssima direção de movimento do espetáculo. Chamo de oportunidade porque uma das maravilhas que o teatro proporciona é o ineditismo de cada apresentação, o que permite ver a obra enquanto um corpo vivo, crescente, fluido e modificante.

Assim, se na estreia tive a impressão de que ainda havia arestas a serem aparadas, duas semanas depois, encontrei um espetáculo em evolução, com cenas e personagens novos e com a estética popular, em uma espécie de metapoema, mais trabalhada e viva. O nervosismo da estreia também desapareceu, trazendo mais confiança aos atores que foram se agregando à obra em uma espécie de espiral construtiva, como foi relatado na conversa com a trupe pós espetáculo.

A escolha pela estética popular é, sem dúvida, um ponto alto, pois estabeleceu-se uma relação de proximidade entre obra e público, ao mesmo tempo em que pleiteia para o poeta, o seu lugar na tradição do teatro, a partir da referência direta ao teatro mambembe, isto é, o teatro de trupe/saltimbanco, de origem popular europeia do século XII. Para fugir da repressão da igreja católica, naquela época atores, cantores e artistas circense passaram a integrar caravanas apresentando seus espetáculos de forma itinerante.

Este ato subversivo, que eu entendo mais como ato político-poético de sobrevivência desses artistas, rapidamente é semantizado pela tradição clássica ocidental como de menor valia ao ponto de, em língua portuguesa, ser utilizada a palavra ‘mambembe’, de origem banto (sim! é mais um caso do pretuguês como categoriza Lélia Gonzalez) para nomear esse tipo de arte:

“Mambembe s.m.(1) Lugar ermo, afastado. (2) Grupo teatral volante ou de má qualidade. (3) Casa de espetáculos, grupo teatral, ator ou atriz de má qualidade. / adj. 2 gên. (4) Medíocre, ordinário, inferior. Muito provavelmente originado do quioco (tchokwe) mbembèmbe, termo expressivo que transmite a ideia de fraqueza, frouxidão, ausência de forças (...) considere-se também o bundo mbumbe, abandono, desamparo; desprotegido, pobre, seguido do sufixo iterativo mbe: mbumbe + bem.” (LOPES, 2012, p.157)

Portanto, a escolha pelo diálogo com essa tradição também questiona a verdade de mediocridade desta arte imposta pelo universal ocidental, isto é, se reflete em cena a verdade sobre o “bom teatro” como branco, nobre e clássico, excludente do não-branco, plebeu e popular. A performance de sapateado dos atores Rozan e Nando Rodrigues reclama para o popular negro a origem desta dança e critica o seu embranquecimento.

Pela arte do povo se conta a vida e a obra de um poeta negro do povo em um espetáculo potente de poesia e lirismo, construtor de cenas metapoéticas como a que Solano declama, com um alto-falante em punho, os dramas do trabalhador negro. A sensibilidade lírica desta montagem faz com que encontremos um entremeamento de uma peça que reflete os dramas coletivos ressaltados pela escrita e militância de Solano Trindade, ao menos tempo em que se desvela em lirismo dos afetos da vida deste homem negro, neto de escravos, que escolheu se dedicar a olhar agudamente para o mundo com os óculos das artes populares.

Com esta ótica, a plateia é recebida pelos atores com músicas populares brasileiras como sambas, pagodes, lundus e jongos, estabelecendo, já ali, pactos de solidariedade que contribuem para a fruição da experiência artística. Tais pactos são também transterritoriais e trazem para a cena o poema “Quero ser tambor” do moçambicano José Craveirinha com seus versos ritmados do ser-tambor, declamados em uma performance fruitiva e bela que dialogando com o emi-okan (alma-coração) aciona a bantitude dos afro-brasileiros.

O figurino de Joana Seibel é característico do teatro negro e teatro popular, com a escolha pelos tecidos africanos e crus; a cenografia de Iléa Ferraz é criativa, objetiva e dinâmica, materializando a ludicidade do teatro de trupe, em que diluição das paredes revelam a coxia, retirando a perspectiva de palco italiano e reproduzindo uma perspectiva de teatro de rua; e a direção musical de Beá potencializa as performances percussivas de Regina Café, Rozan e Damiana Inês. A ludicidade é uma característica do teatro popular e é o fio condutor desta obra, com pontos altos nos alívios cômicos das personagens de Nando Rodrigues e Geovana Pires, que passa a integrar a peça na segunda apresentação que assisti.

Mais uma vez os orixás são encenados para marcar a ancestralidade, com Oyá, podendo ser entendida como protetora do poeta, representando sua força, Yemonjá a maternidade e Oxalá a velhice. Destaque para a plasticidade e estética do envelhecimento de Solano Trindade, prenhe de sensibilidade ao revelar em cena a passagem do tempo junto à caminhada de Oxalá. Há força estética na performance “ondinha branca” referenciando às Yabás.

Um dos momentos mais bonitos para mim é a homenagem à Dona Ruth de Souza, não apenas porque tive a oportunidade de conhecê-la em vida, mas sobretudo pela poeticidade da cena que reivindica para a matriarca do teatro brasileiro o seu lugar de honrarias. Interessante observar a reação diversa da plateia neste momento de homenagem: na estreia, a casa estava majoritariamente enegrecida, sendo perceptível a emoção coletiva despertada pela cena; na segunda apresentação em que estive, a presença negra estava bastante reduzida – a partir do meu dataolhômetro, acredito que menos da metade do público, o que se refletiu na ausência de qualquer expressão emotiva com a mesma cena, o que me faz especular que ou o público presente não estava ciente da importância de Dona Ruth ou sofrimento racista impingido sobre sua trajetória tivesse estabelecido um pacto solidário que comovesse o espectador.

A peça também inova ao dar destaque à Margarida, companheira de vida de Solano Trindade, retirando-a do lugar de apoio ao marido e mostrando a sua independência e autonomia de mulher negra, mãe e militante que também atua na luta antimanicomial.

Os versos de Solano são declamados aos longo da peça, fazendo com que mergulhemos na poética do “poeta do povo”, presenteando-nos com performances como “tem gente com fome”, cuja sensibilidade é esteticamente bela. “Solano, vento forte africano” é uma peça que educa, emociona, movimenta e faz com que entremos em estado de arte nos dando mais fôlego para continuar de pé lutando como o poeta lutou.

Aza Njeri é doutora em literaturas africanas e pós doutoranda em filosofia africana. É crítica de teatro e literatura, poeta, pesquisadora, professora e mãe. Para conhecer mais sobre o seu trabalho, acesse o canal no YouTube.

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