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É preciso compreender o que leva uma pessoa branca que, segundo seus padrões linguísticos, fala mal a própria língua, a ter o cinismo de criticar uma jornalista cuja dedicação linguística é absolutamente regular entre seus pares

Texto / Gabriel Nascimento | Imagem / Reprodução

Quando, em uma reunião da Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal, o atual super ministro da Justiça, Sergio Moro, homem branco e cheio de privilégios do sul do país, disse “conge” ao invés de “cônjuge”, isoladas foram as manifestações sobre o “português” “errado” do ministro. Uma ou outra matéria em blogs alternativos e só.

No Programa Conversa com Bial, de 9 de abril de 2019, ele, inclusive, usou a justificativa plausível que todas as pessoas brancas usam para os contextos em que elas falham às regras gramaticais difusas que defendem: “Foi uma longa sessão, de cinco horas. Respondendo por cinco horas, eventualmente se comete, pelo cansaço, não digo nem gafe verbal porque eu sei que ‘cônjuge’ é ‘cônjuge’.

Ora, o problema do super ministro está longe de ser um “atropelo” no léxico. Suas sentenças judiciais sempre foram edições de pouquíssimo zelo em termos de clareza, além de suas explicações verbais serem profundamente amarrotadas de unidades de sentido inacabadas, todas protegidas pelo privilégio de ser branco, com diploma universitário e do sul.

Essa situação de Sergio Moro me chama atenção para falar das críticas que o diretor de TV, Rodrigo Branco, ousou fazer à jornalista Maju Coutinho durante transmissão ao vivo no Instagram de Ju de Paulla, DJ e influencer. Naquela ocasião, o diretor de TV branco disse: “A Maju Coutinho, ELA é péssima, ELA é horrível, ELA fala tudo errado só tá lá por causa da cor”. Antes de falar de Maju Coutinho, cabe ressaltar que o próprio padrão de “falar certo” do diretor branco parece ser corrompido por ele quando da ofensa racista. Vou ajudar, por piedade e conhecimento, a cara branca de Rodrigo: “Maju Coutinho NÃO é péssima, NÃO é horrível”, sem um uso exagerado de anáforas que tornam sua fala cansativa e enfadonha.

Não, Rodrigo, eu não vou bancar o corretor de “português” do seu celular. Eu sou linguista de formação. Mais do que isso, eu tenho devotado minha trajetória para entender como pessoas brancas são produtoras de um racismo que se perpetua na língua e na linguagem de maneira a repreender qualquer diferença de língua/linguagem de pessoas negras enquanto pessoas brancas como você podem “desviar” o próprio padrão gramatical obsoleto que defendem.

Vamos por partes. Línguas não existem enquanto realidades materiais. Línguas são regimes de interação e poder que passam a preponderar nos territórios e comunidades. Na modernidade, as línguas europeias foram as responsáveis pela conformação do termo “negro”, cuja terminologia é criação genuína dos brancos e sua branquitude.

Nesses regimes, as pessoas falam a partir de suas comunidades. Não é por acaso que as mais de 108 milhões de pessoas negras no território brasileiro falam um vernáculo brasileiro tão potente e cheio de corporeidade, mas porque muitos dos falares complexamente elaborados do falar brasileiro vieram da resistência negra criativa durante a escravidão. Duplas negações que você próprio produz em sua fala habitual, Rodrigo, como é o caso de “ela não vai não” não vieram dos seus antepassados escravocratas, mas da criatividade dos povos que aqui chegaram escravizados.

A dicção de Maju Coutinho, ao contrário da sua, que é repleta de repetições cansativas (“Ela é, ela é, ela é”, em que as anáforas mostram como você é pobre mesmo naquilo que supostamente diz dominar) é perfeita. Muitos de nós, no que me incluo, têm a língua presa. A jornalista Maíra Azevedo (Tia Má), por exemplo, brinca com sua língua presa no espetáculo Tia Má com a Língua Solta.

É preciso, portanto, compreender o que leva uma pessoa branca que, segundo seus padrões linguísticos, fala mal a própria língua, a ter o cinismo de criticar uma jornalista cuja dedicação linguística é absolutamente regular entre seus pares.

Não há outro nome senão racismo linguístico. Rodrigo não é o primeiro. Maju foi frontalmente atacada por blogs de TV e colegas jornalistas no Twitter. Dentre elas, gente cujo sotaque supostamente neutro no ar sempre entregava uma pontinha dos traços linguísticos falados na famosa Zona Sul do Rio de Janeiro, não é, Carla Vilhena? O branco é uma identidade linguística particular muito caricata.

Não existe “falar certo” ou “falar errado” na língua. Por óbvio, quando Marcos Bagno (autor de “Preconceito linguístico, o que é, como se faz”- Parábola Editorial) disse isso há mais de uma década, foi um susto enorme e um soco no senso comum da mídia. Os consultores gramatiqueiros de plantão, que nada têm de formação séria em estudos linguísticos, foram logo convocados a rebater o óbvio. É óbvio para nós que o que é falar certo ou errado não existe na língua porque, ao reproduzir a fala de seus ancestrais, brancos escravocratas ou negros, as pessoas sempre falam dentro de normas linguísticas.

A pessoa que fala “chicrete” existe e fala dentro de sua norma linguística. Por que, ora bolas, isso seria considerado um erro? Porque quem diz que isso é errado não usa uma análise linguística, mas uma análise racial e política. A mesma linha que divide os negros da vida e elimina jovens negros nas periferias como se fossem baratas é aquela que define que o falar de uma classe média branca portadora de diploma universitário e moradora dos bairros nobres das grandes cidades é o “correto”.

O que está sendo dito é que essas pessoas são o “correto” enquanto as demais são o “errado”. O que está sendo dito é racismo. Ou seja, a língua é um pretexto para produzir racismos de toda ordem contra as pessoas que portam traços fenotípicos mais negroides.
A tal língua “errada” de Maju Coutinho não precisa responder a essa pegadinha branca dos escravocratas. Na língua, quando se diz “Maria é preta, mas é bonita”, tentar corrigir o posto não nega o pressuposto. “Não, ser negro não é ser feio” só alimenta o desejo do branco genocida de que se repita mil vezes o pressuposto de que o branco pode continuar tutelando a vida e a língua dos negros por milhões de anos. Façamos como eles em sua sanha e continuemos exatamente a mostrar variedade epistêmica e grandeza nas palavras. Vá em frente, Maju!

Gabriel Nascimento é professor da Universidade Federal do Sul da Bahia e autor do livro “Racismo linguístico: os subterrâneos da linguagem e do racismo”. Doutor em Letras pela USP, foi Visiting Scholar na University of Pennsylvania, Estados Unidos.

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