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O poeta Akins Kintê apresenta a minissérie “Um Sol entre as Sombras de um Natal”, com textos sobre a festividade e relações afetivas; confira a segunda história

Texto: Akins Kintê | Ilustração: Marcos Z.X

Tô em choque, ela vai passar o Natal aqui mesmo, malandro tô em choque. O P.H me aconselhou: - “Fica suave, seja mais você, seja você mesmo maloca”. -“Obrigado xará, puta conselho viu”.

Tô em choque, isso sim, propus pra ela passar Natal, Ano Novo, Carnaval, Páscoa, tudo no povo dela. - “Tá doido! Natal na sua, Ano Novo na minha, e no Carnaval eu e você por aí, em respeito a sua avó... Páscoa lá, mas nem ligo”.

Fodeu! Tô com medo, minha mágoa fez raiz e me deixou confortável em um lugar que não sei de mim. Hiberno como se o inverno fosse eu todo. Não morro, mas consigo passar invisível. Ela passando o Natal comigo, vou ter que dá um jeito de mover a montanha rochosa que meu coração vem construindo esse tempo todo.

Tô em choque porque conheço meus pânicos esmagando de tempo em tempo, emparedando e me pondo em labirinto. Se eu me atrapalho, minha autoestima se esvai, varro pra debaixo da realidade e estrago tudo.

O P.H carrega suas mágoas também, mas lida melhor com o peso da angústia. Eu sou assim mais agitado, ele anda muito feliz com a barbearia. Tá podendo cuidar dos filhos, se pá vai conseguir por os dois em uma escolinha particular, sonho da mãe dos seus meninos.

- “Meu parça, eu tô em choque porque é mó gatona. A boca dela é o bang memo, que boca aqueles lábião que contorno... Quando ela ri, cê é louco, nóis pode tá na neurose que fô, ela traz sol, desmanchando mágoa, tristeza, seja lá o que fô”.

- “Nunca te vi assim malandro, vai viver essa fita. Nossa cara gostar também, e se a mina tá com você, qual a treta?”. - “A treta é que tô em choque P.H. Não estava nos meus planos um lance de amor. Natal é um dia que bagunça meu malandro”.

Ela foi fazer a unha numa prima e me mandou uma foto pra ver o que eu achava: -“Ficou da hora mô, trampo lindo, essa cor forte na sua mão pretona tá foda, linda memo”.  - “Valeu pretão, amanhã tô aí. Tô numa felicidade muito grande de conhecer sua família. Te amo”.

Mó da hora ouvir o áudio dela, mas tô em choque. Esse jet pode dar tudo errado, mas bora viver.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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