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Texto: Dagoberto Fonseca* / Ilustração: Vinicius Martins


Os estudos recentes sobre o processo de escravidão e o tráfico de grandes contingentes populacionais de africanos para diversas partes do mundo, demonstram que não houve uma escravidão, mas distintos processos de expropriação sistemática de um homem sobre outro e de uma sociedade sobre outras. É um equivoco considerarmos a escravidão como um processo social único e como um modelo exclusivo que atingiu a todos os africanos. Houve escravidões intensas e multiformes que atingiram o continente africano, conduzidas por alianças construídas comercialmente, mas principalmente a ferro (espada) e a fogo (pólvora), entre grupos autóctones e estrangeiros.

Estas escravidões tiveram processos distintos, mesmo que consideremos a institucionalização desta prática sociocultural e econômica pelas autoridades assentadas nas Igrejas, Parlamentos, Coroas e Universidades da Europa ocidental.

As conseqüências trágicas do tráfico escravista foram imensas para o continente africano, como é sobejamente sabido. A conquista territorial européia, após as últimas décadas do século XIX, fez com que o negro africano, independente da posição que ocupara antes em seu grupo, conhecesse os valores negadores da sua existência enquanto indivíduo, sujeito de direitos e de ser soberano do seu destino. A imposição chegou ao ponto dos conceitos ideológicos adotados pelo colonialismo e pelo neocolonialismo atribuírem ao africano as marcas da inferioridade, da infantilidade e da incapacidade de gerir a própria existência social, política, econômica, cultural, mediados pela paz e não pelos conflitos antigos.

Os intelectuais do colonialismo e do neocolonialismo (séculos XIX e XX) não apenas dividiram a África, mas fragmentaram o africano e suas nações de modo complexo e contínuo. A imposição a milhões de pessoas de uma educação, política e economia, destruiu valores antigos e criou novas identidades coletivas, geradoras de negociações inéditas e de guerras intestinas impulsionadas pelo amor, pelo ódio e pela impotência de afastar o conquistador estrangeiro, geralmente branco.

*Prof. Dr. Dagoberto José Fonseca, docente da Faculdade de Ciências e Letras, Campus de Araraquara, UNESP. Coordenador do Centro de Culturas e Línguas Africanas e da Diáspora Negra (CLADIN) e do Laboratório de Estudos Africanos, Afro-Brasileiros e da Diversidade (LEAD), Supervisor do Grupo de Trabalho do Núcleo Negro da UNESP para Pesquisa e Extensão (NUPE) da mesma faculdade.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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