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Tenham em mente que a potência do combate ao racismo no futuro depende da semente que plantarmos no presente; conversemos com as crianças e jovens negros para que resistam e compreendam o mundo

Texto: Ricardo Corrêa | Imagem: Danilo Verpa/Folhapress

“Temos que ensinar às crianças negras a história negra; contar sobre nossos heróis negros, nossa cultura negra” - Steve Biko

Eu nasci na periferia de São Paulo, em meados da década de 70. Nessa época, o debate racial era incomum e quem ousasse discutir estava sujeito a ouvir um descabido “somos todos iguais”. Algumas décadas se passaram e o discurso ainda é usado por muitos contrários a emancipação da população negra, mas os negros não renunciam ao confronto de ideias. Nós continuamos denunciando o sistema racista e reivindicando direitos sociais, políticos e econômicos.

Lembro que os meus pais não esclareciam o motivo de as nossas vidas estarem sujeitas a tanta miséria e sofrimento, apenas insinuavam que faltava mais esforços da parte deles (a crença na meritocracia é antiga). Mas na minha cabeça persistiam algumas dúvidas: por que a maioria dos pobres que moravam na vizinhança eram pessoas negras? Será que não se esforçavam o suficiente?

Devido à ausência de respostas, a minha maneira de relacionar-se com o mundo foi comprometida. Eu não conseguia identificar o racismo na vida dos negros, sendo que ele estava por trás dos xingamentos, do menosprezo das pessoas, nos olhares enviesados, na ausência de representatividade nos programas de TV. Aos poucos, essas situações violentavam a minha saúde mental. E a única resistência que eu esboçava eram lágrimas, solidão e sentimento de culpa.

Nesse ponto, há tempos tenho conversado com pessoas negras que, na maioria das vezes, relatam sentimentos semelhantes; até o desejo de ser branco, em momentos de desespero, nos acometeu − uma autêntica demonstração de auto-ódio. A pergunta de Malcolm X, no discurso em 1962, encontra uma resposta nos meus apontamentos: “Quem te ensinou a odiar a cor da sua pele a ponto de você se clarear para parecer como um homem branco?”.

Outra questão pertinente é a existência da crença de que a escola, como espaço de socialização e construção do conhecimento, consegue formar cidadãos que repudiam a desumanização das pessoas e contribuam para a harmonia nas relações sociais, mas nada disso tem se confirmado na prática. Notamos que a escola participa da manutenção do racismo e outras formas de intolerância. Silvio Almeida, filósofo e doutor em Teoria Geral do Direito, observou que “se não fosse a educação, o racismo não teria como se reproduzir”.

No ambiente escolar, a superficialidade das discussões sobre as questões raciais, a inobservância das práticas discriminatórias que acontecem no seu interior e o não cumprimento das leis que determinam o ensino da cultura africana e afro-brasileira, coopera para a dificuldade no combate ao racismo. Esses pontos, aliados a ausência da discussão familiar, impactam negativamente a vida das pessoas negras, pois as deixam indefesas quando expostas ao racismo e limitam os comportamentos. No prefácio da obra “Tornar-se Negro” (1990), da psicanalista Neusa Santos Souza, há uma reflexão a respeito disso:

“A violência racista subtrai do sujeito a possibilidade de explorar e extrair do pensamento todo o infinito potencial de criatividade, beleza e prazer que ele é capaz de produzir. O pensamento do sujeito negro é um pensamento que se auto-restringe. Que delimita fronteiras mesquinhas à sua área de expansão e abrangência, em virtude do bloqueio imposto pela dor e refletir sobre a própria identidade.”

No filme “O Ódio que você semeia” (2018) tem uma cena que demonstra um dos caminhos do diálogo que defendo neste texto. Logo no início, a personagem Starr (Amandla Stenberg) e os irmãos recebem orientação do pai (Russell Hornsby) sobre como se comportarem quando forem abordados pela polícia. Para algumas pessoas a cena do filme pode soar como absurdo, pois são crianças recebendo a orientação. Mas os negros sabem que o genocídio do nosso povo acontece em todas as faixas etárias, portanto, a conversa é muito necessária.

Diante das colocações, convido as pessoas negras a dialogarem sobre o racismo no espaço familiar para desconstruir os mitos, estereótipos e estigmas racistas que as pessoas internalizam e reproduzem de geração em geração. Tenham em mente que a potência do combate ao racismo no futuro depende da semente que plantarmos no presente; conversemos com as crianças e jovens negros para que resistam e compreendam o mundo. Um mundo que irá mirá-los com divertido desprezo e piedade, assim diria W.E.B. Du Bois, na obra “As Almas da Gente Negra” (1999).

Ricardo Corrêa é especialista em Educação Superior pelo Instituto Federal de São Paulo.

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