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A luta pela representatividade deve ser vista como um dos caminhos para o combate ao racismo estrutural, mas exige cuidado com as armadilhas existentes e não reforçarmos o sistema excludente

Texto: Ricardo Corrêa | Imagem: Fizkes/Getty Images/iStockphoto

“Os homens negros devem ajudar um ao outro a entender que estão sendo levados pela dinâmica da supremacia branca a causar danos extremos sobre si mesmos, uns aos outros e, finalmente, à raça negra” - Dra. Frances Cress Welsing

O debate sobre a representatividade da população negra nos espaços midiáticos, publicitários e políticos têm conquistado um número maior de opiniões que convergem na compreensão de que é importante o aumento do número de negros, em todos os espaços sociais, como protagonistas. Quem é negro sabe muito bem o quanto somos atingidos, emocionalmente, nas poucas vezes que vemos pessoas negras ocupando cargos de relevância social.

São momentos que projetamos nossos sonhos, e acreditamos na possibilidade de conseguir alguma posição que não seja marginal na sociedade. Daí a importância da representatividade na luta antirracista, por lidar na dimensão subjetiva de negros e brancos, possibilitando a desconstrução de estigmas e estereótipos que afetam a visão de mundo no contexto das relações sociais, como ensinou a psicanalista Maria Lúcia da Silva:

“É necessário saber que as relações entre brancos e negros estão permeadas por representações que precisam sair do plano latente e vir para o plano da consciência. Isto também significa que ações envolvendo a dimensão subjetiva do racismo precisam ser introduzidas na pauta do Movimento Negro, descortinando o impacto da imagem que brancos e negros têm de si e do outro.”

Mas reconhecemos que não podemos viver somente de sonhos. O racismo estrutural impõe uma sobrevivência desumana aos negros. Por essa razão, o empreendimento no aumento da representatividade não pode ser dissociado de ações políticas amplas, pois as conquistas devem sair do campo simbólico e atingir o coletivo. É fundamental medidas como as cotas raciais, que são exemplos importantes na redução da desigualdade racial. Com elas, vimos o aumento significativo da população negra nas instituições de ensino superior nos últimos anos.

Recentemente, a Magazine Luiza informou que priorizará candidatos negros no processo de seleção para o cargo de trainee. De acordo com a empresa, 53% da equipe são negros, mas apenas 16% ocupam cargos de liderança. Essa ação é outro exemplo no combate ao racismo estrutural. Aliás, a disseminação de medidas dessa natureza, no mercado de trabalho, ajudará a minar o privilégio racial que sempre beneficiou os brancos, ainda que os negros apresentassem melhores qualificações.

Pretos no topo

Nas redes sociais, diversas pessoas escrevem em suas postagens a frase “pretos no topo” que é referência aos negros em ascensão, ou que alcançaram lugares historicamente ocupados por brancos − condição que remete a inspiração mencionada no início desse texto. Além do orgulho em testemunhar a história desses negros, existe a esperança de que eles contribuirão para que outros alcancem os mesmos espaços.

Esse sentimento tem relação com a Consciência Negra que, segundo Steve Biko, significa “a percepção pelo homem negro da necessidade de juntar forças com seus irmãos em torno da causa de sua atuação – a negritude de sua pele – e de agir como um grupo, a fim de se libertarem das correntes que os prendem em uma servidão perpétua”.

Mas, não podemos perder de vista de que estamos inseridos dentro de um sistema capitalista que corrompe o pensamento de muitas pessoas, diante das experiências oferecidas, e cria a falsa impressão de que o esforço individual é determinante para o destino do próprio indivíduo. Por essa razão, é comum que parcela dos negros, em ascensão, assuma o discurso da meritocracia ou não se manifestem diante da realidade marginal da maioria dos semelhantes. Eles não percebem que, ao se colocarem como exemplos de superação, estão servindo de instrumento do racismo; com o mesmo efeito quando não usam os espaços para denunciarem nossas mazelas.

Em outro ponto de vista, a escritora Michelle Alexander chama a atenção para o discurso da diversidade que é comum nesse debate da representatividade. Da maneira praticada, a diversidade tem potencial em conduzir à inação, devido ao nosso contentamento indireto ao observarmos uma minúscula parcela dos negros ocupando posições de relevância social. “Como resultado, a diversidade cosmética, que se concentra em oferecer oportunidades a membros individuais de grupos sub-representados, tem o duplo efeito de diminuir a possibilidade de que regras injustas sejam combatidas e de legitimar todo o sistema”.

E levando em consideração esses aspectos, o ideal de uma sociedade igualitária e sem privilégios está distante. Há inúmeros abismos sociais de complexa superação. A luta pela representatividade deve ser vista como um dos caminhos para o combate ao racismo estrutural, mas exige cuidado com as armadilhas existentes e não reforçarmos o sistema excludente. Devemos fortalecer os negros que estão em ascensão ou no topo, desde que tenham compromisso político com a população negra. Isso é uma condição que considero inegociável.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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