Assassinato por uma patrulha do exército, Evaldo não se transformará em mártir da violência porque é negro e não pode ser o cidadão de bem; Evaldo também não será o último, pois em uma semana, ou em menos tempo, teremos de lamentar o extermínio de outro preto

Texto / Pedro Borges
Imagem / Divulgação

“Tudo indica que houve o fuzilamento do veículo de uma família de bem indo para um chá de bebê. Uma ação totalmente desproporcional e sem justificativa", afirmou o delegado Leonardo Salgado, oficial da polícia civil que acompanhou a perícia do caso de Evaldo dos Santos, assassinado em 7 de abril, domingo, em Guadalupe, zona norte do Rio de Janeiro, com mais de 80 tiros de fuzil.

Evaldo era um homem, estava com a família, com uma filha pequena, em direção a um chá de bebê antes de ser assassinado. Evaldo trabalhava, ora como músico, ora como segurança. Ele tinha quase tudo para ser um cidadão de bem. Quase.

Franz Fanon logo diria que Evaldo, porém, não é um homem. Evaldo dos Santos é um homem negro. Morador de periferia e circulando por um território criminalizado, Evaldo é um sujeito considerado sem humanidade, mesmo carregando consigo outros símbolos de uma sociedade conservadora como a nossa.

Esses símbolos, como a paternidade e a família, estão tão presentes entre nós, que foram inclusive utilizados como argumento pela tia da vítima, como forma de salvar a vida do trabalhador. Insuficiente. O racismo é muito mais poderoso.

"Quando eles [militares] começaram a atirar, minha tia pegou meu primo no colo e mostrou que era carro de família, mas mesmo assim eles não pararam de dar tiros", disse um dos sobrinhos de Evaldo ao jornal Extra.

Evaldo corpo 1 e 2

Carro de Evaldo, depois de receber mais de 80 tiros de fuzil (Foto: Divulgação)

A paternidade ou a descrição de “homem de família”, “cidadão de bem” não foram suficientes para mobilizar o país, porque não é disso que se trata. O homem de bem não é bom, é branco. Se for preto, não é bom, deve morrer e, se possível, da maneira mais cruel.

Apesar de não conseguir imaginar um homem branco de classe média, junto da família, ser assassinado dessa maneira, reflitam o que aconteceria depois do crime? Lamento de inúmeros políticos, figuras públicas, chefes de Estado, campanhas nas redes sociais tomariam o debate na sociedade.

O homem negro, a família e o imaginário social

Essa imagem do homem negro solitário, destituído de humanidade, contudo, não é recente e está no histórico da sociedade brasileira.

Negro não tem família. Uma das técnicas de dominação utilizadas pela coroa portuguesa foi inclusive a de desmembrar esse grupo, separar familiares, afastar pessoas que se comunicassem para enfraquecer qualquer tentativa de resistência.

Na literatura e mídia nacional, o negro também é o sujeito único, que está separado de outros negros. Me lembro da obra “O Cortiço”, da personagem Bertoleza, que mesmo alforriada, com trinta anos, estava sozinha no mundo. Pior, estava próxima de João Romão, quem apenas a explorava. Recordo-me também de Firmo, o homem negro capoeira, sambista, assassinado por Jerônimo. Firmo era outro sozinho no mundo.

A nossa representação é solitária, desmembrada, oposta à branca, recordada no cotidiano pelo símbolo da “família Doriana”. Quando a Boticário fez uma campanha para o dia dos pais com o destaque para um homem negro, o retorno da sociedade foi terrível e violento. Homem negro não pode ser pai, não pode ser retratado como “de bem”.

O que cabe a Evaldo e ao povo negro é o estigma de suspeito e criminoso.

Discurso dos militares, e em primeiro momento inclusive sustentado pelo Comando Militar do Leste, diz que dois criminosos atiraram contra os agentes federais, que reagiram. Mesmo que a perícia tenha desmentido a versão, como é fácil assassinar um homem negro e justificar o crime o descrevendo como traficante ou assaltante.

A revolta com relação ao caso, ainda muito restrita a uma sociedade civil negra organizada, está também relacionada ao modo como Evaldo foi assassinado: 80 tiros de fuzil. É possível imaginar o que acontece com um corpo depois de ser alvejado 80 vezes por um fuzil? A minha imaginação não consegue visualizar tamanha barbárie.

Infelizmente, Evaldo é mais um entre os milhares de assassinados no país. Se os militares tivessem apenas o executado, como a polícia militar está acostumada a fazer, talvez Evaldo nem notícia fosse. Assim como outras e outros, que foram assassinados depois dele, não foram e nem serão.

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