Morta na segunda-feira (2), a ativista, que se tornou símbolo da luta contra o apartheid e da libertação do povo negro ao redor do mundo, tem imagem histórica menor do que a sua trajetória merece

Texto / Amauri Eugênio Jr.
Foto / AFP

De acordo com o senso comum, Winnie Madikizela-Mandela, 81, ícone da luta contra o apartheid e pela conquista de direitos civis para negros na África do Sul, morta na segunda-feira (2), entrou para a história como ex-esposa de Nelson Mandela. Mas condicionar o seu legado à relação de 37 anos com o eterno líder sul-africano é reduzir de modo questionável a sua história.

É inegável que a diminuição de sua importância política deve-se, ao menos em parte, a fatores relacionados ao gênero – ou machismo mesmo. “É difícil reconhecer, historicamente, o legado de mulheres em temática de luta, como na luta contra o apartheid e pelos direitos civis [de pessoas negras]. Mesmo elas tendo protagonismo, os nomes dos homens aparecem em primeiro plano”, contextualiza explica Jacqueline Moraes Teixeira, docente da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo) e Pesquisadora do Laboratório do Núcleo de Antropologia Urbana, da USP (Universidade de São Paulo), sobre a memória relacionada a Madikizela-Mandela.

Além disso, equiparar as importâncias que Nelson e Winnie Mandela tiveram dentro do CNA (Congresso Nacional Africano), até mesmo pelos respectivos papéis que ambos desempenharam dentro do movimento político.

“As condições que foram colocadas para [Nelson] Mandela, até por causa da prisão e por ele ser líder do processo político, diziam respeito a pensar em estratégias e em negociação [política]. Já no caso de Winnie Mandela, o ativismo se deu na trincheira e na rua, por meio da organização de passeatas e em manifestações”, destaca Dennis de Oliveira, professor de jornalismo da ECA-USP e integrante da Rede Antirracista Quilombação, sobre as dinâmicas diferentes das atuações de ambos e por que chega a ser reducionista dizer que Mandela era pacifista, enquanto Madikizela-Mandela tinha essência beligerante.

Pesa também dentro desse contexto a série de opressões e penas brutais às quais Madikizela-Mandela foi submetida – ela também teve de criar os filhos sozinha, em virtude do cárcere privado de Madiba.

 

Nelson e Winnie Mandela (Ulli Michel / Reuters)

Vida = luta

Quando se fala em Winnie Mandela, vem ao imaginário que sua militância política coincide com a relação entre ela e Nelson Mandela. Contudo, a trajetória dela vem de muito antes – desde a infância, quando presenciou episódios flagrantes de racismo em decorrência do apartheid.

Além disso, a vida acadêmica dela, por meio da formação em serviço social em Joanesburgo, mostrava o ethos lutador dela. Considerada a melhor aluna da instituição onde estudava, ela recebeu oferta para ter bolsa de estudo nos EUA, mas preferiu ficar na África do Sul e somar forças à luta pela libertação do povo negro no país. Isso sem contar que a relação com Madiba começou em 1957 – ela havia se graduado um ano antes.

Para alguns, os homens do CNA estão à frente na história, mas eles têm status de mártires graças ao trabalho de base feito pelas mulheres do movimento. E, claro, isso diz respeito à atuação de Madikizela-Mandela.

“A participação e protagonismo da mulher negra foram fundamentais [para a luta antirracista]. Winnie foi símbolo disso. Os homen foram muito importantes na articulação do CNA e no fim do apartheid, mas não dá para esquecer do papel fundamental das mulheres”, pontua Dennis de Oliveira, sobre o fato de elas terem de lidar com desafios diversos, como a perseguição brutal do governo, a prisão dos cônjuges e, em inúmeros casos, a criação solo dos filhos. “Elas ainda tiveram a questão da militância. [Winnie Mandela] é símbolo do papel central da mulher negra da luta contra o racismo e é um símbolo da luta contra o apartheid.”


Antes de mãe, ser humano

Em pronunciamento feito após a morte de Winnie Madikizela-Mandela, o atual presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, referiu-se a ela como “Mama Winnie”.

Por um, lado a líder da resistência antirracista era vista como “mãe” do movimento e, por outro, episódios controversos macularam a sua imagem. Alguns dos mais notórios são a condenação em 1991 pela morte do jovem Stompie Seipei, cuja vida foi ceifada por um guarda-costas da militante; e a demissão em 1995 do governo de Nelson Mandela enquanto ela era ministra-adjunta de Artes, Cultura, Ciência e Tecnologia.

Outros membros do CNA foram condenados por atos de corrupção com o passar do tempo - vide o caso do ex-presidente Jacob Zuma, que renunciou ao mandato no início de 2018. Mesmo assim, tais fatos são usados para minimizar a importância de Madikizela-Mandela. Parte desse fato vem da atribuição dada a ela do papel de “mãe” do movimento contra o apartheid. A partir do momento em que tais contradições vieram à tona, as críticas dirigidas a ela intensificaram-se nesse contexto, em particular.

Desse modo, apesar de tais fatos causarem manchas justificadas à sua reputação, é impossível apagar o legado de Winnie Mandela.

“Ela ocupou posição central nesse processo na África do Sul, inclusive lugares superimportantes, e construiu muita coisa. Não tem como desconsiderar a importância e protagonismo dela”, ressalta Jacqueline de Moraes Teixeira, sobre a importância de compreender limitações históricas que tornam mais difícil colocar mulheres em posição de protagonismo de movimentos como o apartheid.

“A trajetória dela é interessante para entendermos como os papéis de gêneros põem biografias de determinadas mulheres em posições mais vulneráveis, colocando em xeque o protagonismo delas na história”, finaliza, sobre o legado histórico de Winnie Madikizela-Mandela

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