O Alma Preta separou depoimentos relacionados às diversas formas de demonstração e sensação de afetividade da população negra. Neste texto, Jhow Carvalho fala sobre afetividade em contextos variados

Texto / Jhow Carvalho
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Ao pesquisarmos textos que abordem afetividade e negritude, que consiste em processo político de se entender e se aceitar enquanto pessoa negra, em nosso caso enquanto afro-brasileiros, frequentemente nos deparamos com o clássico ensaio de Bell Hooks “Vivendo de Amor”, em que a autora aborda como o processo de escravização influenciou e influencia a forma de amar das pessoas pretas.

Este ensaio inspirou o projeto “Dos Desmanches aos Sonhos”, da CIA Os Crespos, importante Companhia de teatro negro da cidade de São Paulo criado entre 2005 e 2006 por estudantes pretas(os) da EAD/USP (Escola de Arte Dramática, da Universidade de São Paulo). Este grupo criou os espetáculos “Além do Ponto”, em que o público auxilia a CIA a encontrar formas para que um casal cisheterossexual afrocentrado não se separe. 

“Engravidei, pari cavalos e aprendi a voar sem asas”, que aborda profundamente as questões das mulheres pretas em relação à afetividade, e “Cartas à Madame Satã”, em que bichas pretas se correspondiam com a figura mítica de Madame Satã para contar-lhe sobre a construíram de suas afetividades. De algum modo, o projeto afrohomoafetividade, que resultou na criação do último espetáculo citado, influenciou a criação do tumblr Bicha Nagô, por Ézio Rosa, em 2015.

A nossa afetividade

Para falar sobre afetividade e negritude, é sempre necessário lembrar que a escravidão foi o mais cruel atentado aos direitos humanos da história, tanto que a ONU (Organização das Nações Unidas) institui o período de 2015 a 2024 como a “Década Internacional dos Afrodescendentes”, com o intuito de fomentar iniciativas que contribuam com extinção das desigualdades raciais.

Durante a escravidão, nossas(os) ancestrais não podiam amar e os sentimentos precisavam ser reprimidos. Afinal, um(a) escravizado(a) era considerado(a) como objeto. Como objetos não têm sentimentos, o amor era um luxo que, como estratégia de sobrevivência, as pessoas pretas não podiam se dar, pois a qualquer momento um(a) filha(o) podia ser vendida(o) para uma fazenda distante, ou um casal poderia ver o outro sendo torturado ou morto. Afinal, as vidas das pessoas escravizadas eram descartáveis. Para evitar essas dores insuportáveis foi necessário tentar não construir vínculos afetivos. Será que esse modo de (não) amar nos impacta nos dias de hoje?

Infelizmente, sei que muitas(os) de nós apanhamos de nossas mães na infância, que muitas de nossas mães apanharam de nossos pais e que muitos de nós nem mesmo sabemos quem são os nossos pais. Esse talvez seja o começo das nossas feridas sobre a autoestima. As surras eram uma tentativa bem intencionada de nos educar e disciplinar, mas eram, sobretudo, uma reprodução inconsciente das violências que sofridas. Bell Hooks faz uma relação desses castigos físicos com o que as(os) escravizadas(os) recebiam dos(as) brancos(as).

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Autoestima e cuidado

Quem de nós, ao tirar boas notas, já não ouviu “não fez mais de sua obrigação”? Nossas mães e pais foram e são tão violentadas(os) e feridas(os) pela estrutura racista da sociedade, que sem perceber, ferem nossa autoestima e nós, sem perceber, podemos ferir a autoestima das pessoas com quem nos relacionamos.

Falo de autoestima porque acredito que seja ela o primeiro passo para cultivar o que Bell Hooks chama de amor interior - a autora prefere utilizar esse termo ao invés de amor próprio. Precisamos desenvolver estratégias para desenvolver nossa autoestima e, assim, cultivar nosso amor interior.

Relacionamentos

Sei disso por experiência própria, que para nós, pessoas pretas, isso é muito difícil, mas não impossível. Quando nos amamos, entendemos que também merecemos ser amadas(os). Bell Hooks diz que em sua trajetória, muitas mulheres negras lhe deram amor e isso a fez entender que ela merecia ser amada. Quando recebemos amor aprendemos a nos amar e assim a amar as(os) outras(os). 

Isso faz que nós criemos repertórios para não entrarmos em relacionamentos abusivos, porque isso nos faz saber que não merecemos migalhas de afeto.

Quando uma relação desestrutura nossa mente ao ponto de não sabermos mais quem somos, isso não tem nada a ver com o amor. Antes de tentar amar qualquer outra pessoa, tente amar a si mesma(o). Esta tarefa, suficientemente difícil, não é mais complicada e arriscada do que tentar amar alguém sem saber se amar.

Percebo que estamos tentando nos curar e estamos tentando nos amar, apesar de errarmos e sabermos que ainda erraremos muito no caminho. Mas é importante começar a caminhada que já iniciamos com tentativas como o amor afrocentrado, por exemplo, que de forma alguma será uma resolução mágica de nossos problemas afetivos.

Infelizmente, nenhuma pessoa preta é perfeita apenas por ser preta e um relacionamento por ser afrocentrado, seja hetero, homo ou bissexual, não está isento de ser abusivo.

No entanto, as expectativas que jogamos neste tipo de relação mostra como estamos ansiosas(os) para desfrutar plenamente de nosso direito a ter relações saudáveis. Quando aprendermos a nos amar, mesmo com todas as feridas que nossa vivência nos causou e causa, passamos a ser mais criteriosas(os) em relação à escolha de nossas(os) companheiras(os), pois não aceitamos situações de abuso e conseguimos viver relações em que o amor seja um lugar de vida e descanso, não mais uma das guerras que temos que travar para viver.

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