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No dia 21 de Março, ativistas antirracistas de todo o mundo recordam o Massacre de Shaperville, intitulado como o Dia Internacional contra a Discriminação Racial ; Alma Preta fez entrevista com Zukiswa White, pan-africanista, queer feminista e integrante do movimento que liderou os atos em 1960

Texto / Pedro Borges I Imagem / Divulgação

No dia 21 de Março de 1960, 69 pessoas foram assassinadas e 186 ficaram feridas na África do Sul, momento da história que ficou conhecido como o Massacre de Shaperville. No mesmo dia, 3 pessoas foram executadas e 26 ficaram feridas em Langa, distrito da Cidade do Cabo. Desde 1966, a data é recordada como o Dia Internacional contra a Discriminação Racial, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).

“O dia é uma oportunidade para nós de refletir e reviver a nossa luta, que continua contra a dominação branca e em busca da nossa independência econômica, material, espiritual”, afirma Zukiswa White, panafricanista, queer feminista e integrante do Congresso Pan-Africanista (CPA) de Azânia.

O massacre foi uma resposta ao protesto organizado pelo Congresso Pan-Africanista (CPA), em 1960, contra a Lei do Passe, uma espécie de passaporte que deveria ser carregado por toda pessoa negra com a permissão para circular em determinados pontos da cidade. Sem o documento, a pessoa poderia ser presa.

O Congresso Pan-Africanista havia surgido há menos de um ano, fruto de um racha com o Congresso Nacional Africano (CNA), liderado por Nelson Mandela. O CPA surge com a dirigência de Robert Subukwe, que em 1960, convocou as manifestações contra a Lei do Passe em 21 de Março, 10 dias antes do que planejava Mandela.

O local decidido foi Shaperville, na província de Gauteng, quando entre 5 e 7 mil pessoas marcharam para um distrito policial. Cerca de 130 homens foram acionados, com a presença de tanques, motos e aviões caça. Desarmados, os manifestantes responderam com pedras contra os agentes de segurança.

Os policiais abriram fogo contra a multidão e assassinaram 69 pessoas e deixaram outras 186 feridas. O governo sul-africano se utilizou de caminhões para retirar os corpos e nenhum policial foi condenado ou preso. Em Langa, distrito da Cidade do Cabo, no mesmo dia, a polícia também atacou os manifestantes. O resultado foram 3 mortes e 26 pessoas feridas.

“O dia 21 de Março para as pessoas negras é um momento de recordar a vida dos nossos camaradas que arriscaram a vida deles no serviço da questão nacional e pela libertação negra”, conta Zukiswa White.

Desde 1994, quando Nelson Mandela se tornou o primeiro presidente negro da África do Sul, o dia 21 de Março é recordado como o Dia dos Direitos Humanos. No site do governo sul-africano, há uma chamada para a data em 2020, como o “ano da unidade, renovação socioeconômica e construção da nação”.

Zukiswa White crítica a ideia de trazer a data como o dia dos direitos humanos e não como o dia do Massacre de Shaperville e Langa.

“Nós perguntamos quem é considerado humano? A supremacia branca não nos tem como seres humanos. Como vamos recordar os direitos humanos, senão temos direitos a terra dos nossos ancestrais? Qual o significado de celebrar os direitos humanos nas condições da nossa falta de liberdade? Nós vivemos em um país em que a pobreza carrega o rosto de uma pessoa negra, assim como a violência de gênero, o desemprego e a falta de moradia”, explica.

“Nos pediram para perdoar pessoas que não pediram para serem perdoadas. Parece que nós deveríamos acordar em um novo país, mas a maneira como o Apartheid desumaniza as nossas vidas não se alterou”, completa.

Confira a entrevista na íntegra.

Alma Preta: Qual o significado do dia 21 de Março para os sul-africanos, em especial os negros?

Zukiswa White: Dentro dos círculos da consciência negra a data é recordada como o Dia de Shaperville e Langa. É uma oportunidade para nós de refletir e reviver a nossa luta, que continua contra a dominação branca e pela nossa independência econômica, material e espiritual.

No dia 21 de Março de 1960, o Congresso Pan-Africanista organizou uma marcha para mobilizar as pessoas para rejeitar a lei do passe. Isso foi uma ação apenas 9 meses depois da organização estar formalizada, da ruptura com o Congresso Nacional Africano (CNA). Alguns ativistas perceberam que a CNA tinha traído a luta pela libertação abandonando a questão nacional, que estava centrada na terra.

Depois de romper, eles reuniram cerca de 7 mil pessoas em Shaperville, que foram liderados pelo CPA e por Robert Sobukwe para marchar na direção da delegacia de polícia e reclamar sobre os passaporte. A polícia atirou na multidão e 69 pessoas foram assassinadas.

Em resumo, o dia 21 de Março para as pessoas negras é um momento de recordar a vida dos nossos camaradas que arriscaram a vida deles no serviço da questão nacional e pela libertação negra.

Os brancos sul-africanos consideram o 21 de Março como o dia dos direitos humanos. Nós consideramos uma traição para o significado da data. É mais honesto considerar como o Dia de Shaperville e Langa. Nós recordamos as vidas perdidas, ressaltamos a consciência negra em todo o país, e em todo o mundo, onde irmãs e irmãos continuam a resistir.

Para mim, como uma ativista negra, o dia 21 de Março é uma data para se recordar, mas também renovar as energias, para manter a luta por autodeterminação, o que inclui ter de volta as nossas terras ancestrais.

AP: O movimento negro costuma organizar protestos no dia 21 de Março? Quais são os principais pontos reivindicados?

ZW: No dia 21 de Março é comum o movimento negro apresentar um programa, e fazer um protesto em Langa, na parte leste da Cidade do Cabo, ou em Shaperville, que eram as duas cidades onde os protestos foram predominantes no fatídico dia em que os ativistas negros foram assassinados diante das lutas por autodeterminação e pelos seus direitos.

Nesse ano, diante do Coronavírus, o CPA cancelou todos os protestos e eventos para recordar o dia de Shaperville e Langa.

Acho que o nosso grande desafio é o ato de repolitizar a nossa luta. É preciso trazer para o espaço público os sérios desafios de continuar com as posições do CPA, de questionar a falsa liberdade que conseguimos em 1994.

O questionamento também do que significa celebrar os Direitos Humanos nesse dia, o que na primeira instância nos faz perguntar quem é considerado humano. A supremacia branca não nos tem como seres humanos.

Como vamos recordar os direitos humanos, senão temos direitos a terra ancestrais? Qual o significado de celebrar os direitos humanos nas condições da nossa falta de liberdade? Nós vivemos em um país em que a pobreza carrega o rosto de uma pessoa negra, assim como a violência de gênero, o desemprego e a falta de moradia.

AP: O que continua e o que foi superado acerca do problema racial na África do Sul desde o Massacre de Shaperville?

ZW: Na África do Sul, você não pode falar sobre sobre capitalismo sem falar sobre as questões de raça. Você não pode falar sobre patriarcado sem falar sobre as questões raciais. Você não pode falar sobre nenhum problema social sem falar sobre as questões raciais, porque raça estrutura a sociedade africana, do ponto de vista econômico e social.

Shaperville é uma recordação dolorosa. Nós ainda vivemos em um país em que nossa vida é determinada pelo fato da nossa raça. Como uma mulher negra, homem negro, pessoas negras pobres, raça predominantemente estrutura nossa vida econômica, social e política.

A questão racial não foi resolvida desde Shaperville. A principal razão para isso é que a questão nacional, que é a questão da terra, não foi resolvida. Tudo o que estrutura a sociedade africana não mudou nada desde os tempos do Apartheid, porque o ponto de contenção não foi resolvido.

Nos pediram para perdoar pessoas que não pediram para serem perdoadas. Parece que nós deveríamos acordar em um novo país, mas a maneira como o Apartheid desumaniza as nossas vidas não se alterou.

AP: Qual a importância de se protestar em todo o mundo no dia 21 de Março?

ZW: É absolutamente crucial para as pessoas negras e ativistas negros ao redor do mundo de ter qualquer oportunidade de construir solidariedade e de caminhar no sentido de uma causa comum.

Um dia internacional contra o racismo se torna significativo por conta desses dois motivos. Cabe a nós continuar o caminho para um internacionalismo e para o fortalecimento da nossa luta enquanto povo negro.

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