Doutorando sobre imigração africana explica que desconsiderar o potencial de crescimento dos países africanos é um equívoco estratégico para qualquer nação que queira ter um papel de destaque no cenário internacional

Texto / Aline Bernardes e Pedro Borges
Imagem / Adriano Machado / Reuters

As relações políticas, econômicas e diplomáticas entre o Brasil e os países do continente africano ainda são incertas, de acordo com Márcio Farias, doutorando pela PUC-SP sobre imigração africana.

“O governo Bolsonaro é incerto e aponta algumas mudanças na política internacional. Tratará de assuntos extra econômicos com o continente africano de maneira que, se não for cuidada, acarretará em uma série de contradições sociais”.

Uma das poucas referências do governo eleito à região aconteceu durante entrevista concedida ao Roda Viva, programa da TV Cultura, em 30 de Julho, onde responsabilizou os próprios africanos pelo escravismo.

“O português nem pisou na África. Foram os próprios negros que entregavam os escravos”, disse.

As colocações marcam um novo tom na política externa brasileira para o continente. O ex-presidente Lula inaugurou uma aproximação em grau inédito com a África, com a abertura de embaixadas, viagens e o fortalecimento de trocas econômicas.

De acordo com Márcio Farias, há uma tendência de mudança com relação a esse período.

“África, a princípio, não será uma prioridade, ainda que nenhum país em expansão possa desconsiderar o potencial africano no que diz respeito ao consumo”, afirma.

Outro ponto sensível dessa relação diz respeito aos países árabes, que compõem o continente africano.

As propostas de Jair Bolsonaro de alinhar a política externa brasileira a do presidente norte-americano Donald Trump e transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel-Aviv para Jerusalém podem impactar nas relações diplomáticas e econômicas com as nações árabes, países importantes para a balança comercial brasileira.

Brasil e a África

O Brasil mantém relações históricas com o continente africano por conta do tráfico de seres humanos durante o período colonial e imperial. Clóvis Moura, autor da obra “Dialética Radical do Brasil Negro”, estima que cerca de 10 milhões de pessoas vieram para cá de maneira forçada para trabalhar nas mais diversas áreas, e em especial no campo, na colheita de cana de açúcar e café.

As relações externas e diplomáticas, apesar do passado em comum, sempre foram tímidas. A maior mudança vem com o ex-presidente Luíz Inácio Lula da Silva, cuja gestão durou de 2003 a 2010, responsável por aumentar o número de embaixadas, consulados e viagens para o continente.

Até 2003, o Brasil contava com 18 embaixadas e 1 consulado no território africano. Após dez anos o país havia ampliado esse número para 37 embaixadas e 2 consulados. Na esfera diplomática, Lula fez 33 viagens ao continente, Celso Amorim, então Ministro das Relações Exteriores, fez 67 visitas oficiais a 34 países africanos, e o Brasil também recebeu 47 visitas de reis, presidentes e primeiros-ministros de 27 nações do continente.

Em matéria publicada no Jornal de Angola, na abertura de um encontro com chefes de Estado africanos, que ocorreu em Sirte, na Líbia, Lula explicou a sua proposta para a região.

“O Brasil não vem à África para expiar a culpa de um passado colonial. Tampouco vemos África como uma imensa reserva de riquezas naturais a serem exploradas. O Brasil deseja ser parceiro em projetos de desenvolvimento”.

Apesar dessa aproximação, Márcio Farias entende que se por um lado o governo Lula expandiu as trocas Sul-Sul qualificando uma relação histórica do Brasil com o continente africano, por outro, caiu em grande contradição ao também expandir o raio de influência da burguesia nacional, indo de encontro ao que prometera de não exploração.

“Quem foi à África objetivamente não foi a população negra ou o movimento negro. Quem foi à África foi a burguesia nacional”, explica.

Independente do formato, o pesquisador da PUC-SP acredita, porém, que esvaziar as relações com a África é um erro estratégico, devido ao potencial de consumo, a demanda por tecnologia e os recursos naturais presentes na região.

“São países em desenvolvimento, que precisam da importação de tecnologias, com recursos naturais invejáveis. Qualquer país que queira ter um papel estratégico no mundo não pode desconsiderar”.

Frear a relação existente com os países africanos pode ser também um equívoco do ponto de vista diplomático.

Pesquisador sobre os novos fluxos imigratórios do continente africano para o Brasil, Márcio Farias acredita que pode haver problemas diplomáticos entre algumas nações com o país, como ocorreu com Cuba e a saída dos profissionais do programa Mais Médicos.

“Pode estremecer a presença de africanos no Brasil como aconteceu com os cubanos há poucos dias”, disse.

Segundo dados da Polícia Federal, entre 2006 e 2016, o Brasil registrou um crescimento de 160% no número de imigrantes. Em 2015, foram cerca de 120 mil novos estrangeiros no país. A pesquisa de Marcio Farias, no entanto, afirma que esse número não é exato, pois há também um contingente de pessoas na ilegalidade.

Dados de 2016 da casa Missão Paz, especializada no atendimento ao imigrante na cidade de São Paulo, mostram uma diversidade de países de origem dos imigrantes africanos na capital. São pelo menos 28 países diferentes, a maioria do Congo e de Angola. No total, a organização tem em conta 64 países diferentes em seus dados. Dos 6.929 imigrantes atendidos pela casa, a maioria é de haitianos e bolivianos.

Palestina e Israel

Em declarações públicas, Bolsonaro manifestou o interesse em seguir a linha de Donald Trump, aproximar-se de Israel e alterar a embaixada brasileira de Tel-Aviv para Jerusalém. Na mesma medida, revelou não reconhecer a Palestina como um país.

Mesmo fora do continente africano, a disputa entre as duas nações se reflete na diplomacia com África, em especial com relação aos países do norte do continente, adeptos ao islamismo e com aversão às políticas de Israel para a região.

As declarações do presidente eleito impactaram a relação do Brasil com nações como o Egito e o Irã, que investiram na compra de produtos brasileiros em 2017 e tem uma balança comercial favorável ao Brasil.

O primeiro, responsável pela compra de US$ 2,42 bilhões em produtos brasileiros, decidiu adiar visita oficial ao país. O segundo, com o gasto de US$ 2,5 bilhões em produtos brasileiros, também demonstrou insatisfação com os depoimentos dados pelo novo chefe do executivo.

Israel gastou menos com produtos brasileiros, US$ 460 milhões, e tem uma balança comercial desfavorável ao Brasil.

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