Texto e Entrevista: Semayat Oliveira, para o Nós, Mulheres da PeriferiaEdição de Imagens: Vinicius Martins

Marcela Nogueira dos Reis, 18, estudante da escola estadual Godofredo Furtado, localizada em Pinheiros (zona oeste da cidade de São Paulo). Desde novembro, ela se tornou também uma das jovens que protagonizaram os atos contra o fechamento das escolas paulistas e, com isso, mudaram o curso de nossa juventude. Marcela parou o trânsito, enfrentou a violência policial, promoveu articulações entre escolas e continua resistindo.

No último sábado (5/12), escolas se uniram para uma manifestação que passou pela Av. Paulista, Consolação, Ipiranga e terminou em frente à Secretaria da Educação, no centro da cidade. A suspensão – anunciada pelo governador Gerando Alckmin na última sexta-feira (4/12) – assim como a revogação, demonstra que a “reorganização educacional” ainda estará em pauta em 2016, o que não satisfaz os estudantes. O grito de guerra diz que “Não tem arrego! A luta só acaba quando a conquista for completa!”.

Presente no ato, Marcela topou conversar com o Nós, mulheres da periferia. Antes mesmo de entrar nessa reivindicação, a estudante já estava envolta à luta pelos direitos das mulheres e aponta como é resistir, diariamente, à desigualdade. “Eu luto exatamente para mudar a minha condição, a condição do meu povo”.

Para ela, que critica a falta de discussões sobre o racismo nas escolas, daqui em diante, os estudantes terão voz para apontar os conteúdos que realmente fazem sentido a eles, já que experimentaram nas ocupações momentos nunca oferecidos anteriormente: troca cultural com comunidades indígenas, aulas sobre memória e até de forró. “Eu queria saber mais sobre a história do meu povo. É uma coisa que eu não ouço na escola e faz falta. É uma forma de alienar as pessoas pra não saberem o que aconteceu e o que ainda acontece”.

Questionada sobre a importância da juventude negra nessa luta, Marcela aponta que a ‘a juventude negra tem que colar’ e que não estamos sozinhos. “Não podemos aceitar a desigualdade que está rolando com a gente. Eu já sofri racismo em loja, em outros lugares e essas coisas que acontecem me dão mais força pra lutar. Eu vejo as desigualdades, vejo a minha mãe trabalhando dia e noite e não tendo condições de pagar uma prova de R$ 130,00 reais pra mim, eu me vejo entrando numa loja e o segurança me seguindo. Essas situações dão mais força mesmo e a juventude negra tem que colar! A gente é forte, a gente consegue! Galera da periferia, mano, vamo! Vamos juntos que a gente não tá sozinho!” 

Confira abaixo a entrevista na íntegra.

Nós, mulheres da periferia – O que te levou a fazer parte dessa luta?

Marcela – Há algum tempo eu venho fazendo parte das manifestações, não só dos estudantes, mas pelos direitos das mulheres e essas coisas. O que me levou a participar das manifestações, dos atos e das reuniões, eu acho que é meio óbvio, é a desigualdade que rola no nosso país e no mundo. E eu não aceito essa desigualdade. Eu sofro essa desigualdade e eu luto exatamente para mudar a minha condição, a condição do meu povo. Então eu não vou ficar quieta, não tem arrego. Pode me prender, pode me bater que eu vou continuar lutando pelo meu povo e pelo direito das pessoas.

Nós, mulheres da periferia – O que você acha que vai mudar daqui pra frente em relação à educação? 

Marcela – Nossa! Eu acho que não vai ser a mesma coisa. “Cara”, os estudantes estão acordando, sabe? Estão percebendo o quanto somos prejudicados e que o governo quer mesmo privatizar a educação. E agora os alunos têm voz. As coisas dentro da escola vão mudar. Os alunos vão escolher o tipo de aula que a gente quer ter, o tipo de aula que a gente realmente aprende e que é importante.

Nós, mulheres da periferia – Que discussão você acha que faz falta na escola hoje?

Marcela – Olha, uma coisa muito legal que aconteceu na ocupação foi a ida dos índios lá pra conversarem com a gente. Esse tipo de aula a gente não teria na escola normal. A gente tem conversado sobre tudo. Nós também tivemos uma aula sobre memória. Sobre memória!(Ela enfatizou com os olhos brilhando). É o tipo de aula que a gente não teria na escola. Tivemos aula de forró, de capoeira. Aulas culturais mesmo e que a gente nunca teve antes e tem sido super legal.

Nós, mulheres da periferia – Você sente falta de discussões sobre a questão racial na escola?

Marcela – Sim! Eu não sei como é nas outras escolas, mas na minha e nas escolas que eu estudei nunca teve esse debate. O que eu vejo nos livros é falando sobre os portugueses, sempre. Eu nunca vi ninguém falando ou estudando sobre a escravidão, por exemplo. Só falam meio por cima.

Nós, mulheres da periferia – Você como uma jovem negra o que você queria aprender na escola?

Marcela – Quando a gente teve a aula dos índios eles disseram que esse negócio de “descobrir o Brasil” é uma mentira e que, na verdade, foi uma invasão. Eu queria estudar mais sobre isso, eu queria aprender mais sobre isso e saber o que realmente aconteceu, sabe? Eu sinto falta! Eu queria saber mais sobre a história do meu povo. É uma coisa que eu não ouço na escola e faz falta. É uma forma de alienar as pessoas pra não saberem o que aconteceu e o que ainda acontece. Agora a galera que está começando a reagir mesmo.

Nós, mulheres da periferia – Você tinha ideia da força que vocês têm?

Marcela – Não! Eu achei que a gente ia sair, apanhando, no primeiro dia. E ai a luta foi crescendo, crescendo e tá sendo incrível! Tá sendo emocionante! A galera chora, chora mesmo nos atos e é de emoção, de felicidade. Porque é uma luta linda. Você ver uma senhora de idade descendo do ônibus pra apoiar é lindo! A galera fica emocionada. Eu me emociono toda vez que eu falo (os olhos dela marejaram nessa hora) e é mais lindo ainda quando a família apoia, né? A minha mãe tem medo, mas ela me apoia. Minha tia me apoia também. Tá lindo, tá incrível. É uma revolução que estamos fazendo e ninguém esperava.

Nós, mulheres da periferia – E na sua visão, qual é a importância das escolas da periferia nessa articulação?

Marcela – Minha escola fica em Pinheiros, mas a escola da periferia estar aqui é incrível. No começo nós ficamos preocupados, por que algumas escolas foram invadidas e os alunos foram retirados. Mas a periferia tem uma força e estão sendo o máximo! E é muito importante porque é o que eles não querem: ver a periferia no centro. Eles querem privatizar mesmo. E as escolas da periferia são as que realmente têm que lutar, tem que estar aqui mesmo!

Nós, mulheres da periferia – O que você espera para o ano que vem?

Marcela – Eu estou no 3º ano. Ano que vem não estarei mais na escola, mas pra galera que ainda estará eu desejo muita força. Não será mais a mesma coisa, vai ter muita mobilização dos alunos. Agora a gente luta não só contra o fechamento das escolas, é por uma educação melhor.

(Antes da entrevista, Marcela parecia receosa em falar. Por isso a pergunta abaixo)

Nós, mulheres da periferia – E do que você está sentindo medo?
Marcela – Eu to com medo por que os policiais ficam me gravando pela câmera do celular deles, tinha um cara que trabalha em uma delegacia comentando minhas coisas no Facebook e eu tive que bloquear. Algumas pessoas estão me dizendo pra tomar cuidado e eu já não ando sozinha na rua. Eu tenho medo de acontecer alguma coisa comigo. Eu sou pobre, sou mulher, sou negra. Então, é como se tudo estivesse contra mim.

Nós, mulheres da periferia – O que você acha da postura da polícia?

Marcela – É ridícula! Por que vem um exército de polícias contra alunos que não oferecem perigo nenhum contra a sociedade? É o contrário! Os policiais falaram: “vocês são um perigo pra sociedade!” Como assim? Acho que a minha única arma é a caneta. Eles partem pra cima mesmo, não estão nem ai. Eu só fico me perguntando como eles conseguem dormir à noite depois de bater em criança.

Nós, mulheres da periferia – A sua consciência política mudou nos últimos dias?

Marcela – Mudou muito! Eu sabia que política era difícil, mas é muito mais do que eu pensava. É muito complicado. Esse negócio de partido, de organização. É muito complicado. Mas nas escolas não rolou isso de “organização”, pelo menos nas ocupações que não foram invadidas por alguma organização. São só os estudantes lutando pela educação. E essa independência é importante porque, de alguma maneira, essas instituições podem influenciar. E não é o que a gente quer, queremos um debate com os alunos, ver a opinião dos alunos e a gente tomar uma decisão sobre o que fazer.

Nós, mulheres da periferia – Hoje vimos poucos jovens negros e negras nessa manifestação. O que você diria pra essa juventude?

Marcela –  Não podemos aceitar a desigualdade que está rolando com a gente. Eu já sofri racismo em loja, em outros lugares e essas coisas que acontecem me dão mais força pra lutar. Eu vejo as desigualdades, vejo a minha mãe trabalhando dia e noite e não tendo condições de pagar uma prova de R$ 130,00 reais pra mim, eu me vejo entrando numa loja e o segurança me seguindo. Essas situações dão mais força mesmo e a juventude negra tem que colar! A gente é forte, a gente consegue! Galera da periferia, mano, vamo! Vamos juntos que a gente não ta sozinho!

Texto: Thiago Borges, para Periferia em MovimentoFoto: Thiago Borges / Edição de Imagem: Vinicius de Araújo

Encurralados, exterminados, silenciados e com inquéritos arquivados. Apesar da ditadura militar ter acabado há 30 anos, a violência estatal segue firme na democracia brasileira. Haja visto o recorde de mortes praticadas pela Polícia Militar de São Paulo em 2014, com 801 vítimas no estado – alta de mais de 80% em comparação ao ano anterior, segundo a Ouvidoria da PM.

“A democraria por uma lado nega direitos sociais e, por outro, coloca seu braço armado para reprimir. Saúde, educação e lazer não tem. Porém, não falta coturno, farda limpa, viatura nova, armamento e bala”, diz o professor e militante Douglas Belchior, da UneAFRO.

Um passo importante para visibilizar e conter esse massacre foi dado no dia 20 de fevereiro, quando entidades da sociedade civil instalaram na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) a Comissão da Verdade da Democracia Mães de Maio.

Nos mesmos moldes da Comissão Nacional da Verdade (CNV), que apurou casos de tortura, mortes e desaparecimentos forçados pelo Estado durante a ditadura militar, o grupo pretende examinar e esclarecer violações de direitos humanos praticadas por agentes estatais após a redemocratização do País em 1985.

“Eles vêm matando desde a ditadura, hoje estão aposentados, mas a ditadura não acabou. O Brasil fabrica 50 mil mães de maio por ano. Somos pobres, pretos, periféricos, não criminosos”, diz Debora Maria da Silva, fundadora do movimento Mães de Maio, que dá nome à Comissão.

Natural do município de São Vicente (SP), Debora perdeu o filho um dia após o dia das mães de 2006. Com 29 anos na época, o gari negro Edson Rogério da Silva desapareceu após ser abordado por policiais militares (PM) da Baixada Santista enquanto abastecia a motocicleta em um posto de combustível. Dias depois, o corpo de Edson foi encontrado jogado em uma vala. Registrada como “resistência seguida de morte”, a versão oficial é de que ele confrontou a PM.

Os chamados “Crimes de Maio de 2006” resultaram em pelo menos 493 mortos pela PM paulista em represália aos ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC). Mas os casos de vítimas não reconhecidos pela Secretaria de Segurança Pública (SSP) do estado de São Paulo passam de 100, e cerca de 30 pessoas continuariam desaparecidas.

“Sabemos que nossos filhos morreram e não voltam mais, mas precisamos de uma resposta do Estado. Os assassinos de nossos filhos têm nome, sobrenome e profissão. Eles não são invisíveis”, ressalta Débora.

Além dos Crimes de Maio, o grupo vai examinar casos como o massacre do Carandiru (1992); o massacre de moradores de rua na Praça da Sé, em 2004; os crimes praticados no final de 2012 e início de 2013 nas periferias paulistanas, incluindo a chacina do Jardim Rosana; entre outros.

Outra comissão foi criada na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) e, a princípio, as investigações devem se restringir aos dois estados.

“Estamos criando esta comissão e vamos lutar para criar uma nacional, com força de lei, como a Comissão Nacional da Verdade”, aponta Rafael Schincariol, coordenador-geral da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.

Herança da ditadura

Dois analistas da Comissão de Anistia, José de Jesus Filho e Maria Pia Guerra, trabalham para obter dados sobre esses casos. Entre outros levantamentos, está prevista a execução de uma pesquisa sobre a violência policial como herança da ditadura.

“Na Constituição de 1988, as vozes da segurança pública não foram ouvidas e essa estrutura permanece praticamente inalterada. A repressão que existia contra militantes políticos se voltou à população pobre”, explica Maria Pia Guerra.

Para Dario de Negreiros, membro da Comissão da Anistia, a instalação desse grupo fortalece inclusive a apuração dos crimes da ditadura. “Isso porque o acontecimento mais importante da história presente brasileira é o massacre da população preta, pobre e periférica”, destaca Negreiros,

Debora, das Mães de Maio, lembra que o grupo trabalha pela memória, verdade, justiça e reparação desses crimes. “Estamos aqui para mostrar que nossos mortos têm voz”, conclui.

Com informações da Agência Brasil

Texto: Aganju Shakur*, para o Favela Vencerá / Imagens: Divulgação


Você cria um ódio, você cria uma carga emocional e vai juntando marcas no corpo por conta das agressões dos policiais nas abordagens violentas, cicatrizes de tiros e o medo, o pânico, o assombro, o alcoolismo, o abuso de drogas, doenças próprias de quem vive em guerra.

Dr. Hamilton Borges Walê

No último dia 30 de novembro, o governador das chacinas, Rui Costa (PT), anunciou um projeto de lei para aumentar o Pagamento de Premio de Desempenho Policial (PDP), segundo o governador: “isso significa, de forma clara e objetiva, prioridade na Segurança Pública, compreendendo que o papel dos polícias civis e militares é fundamental para a redução da violência no nosso estado”. (http://glo.bo/1Svrjf6)

Na prática, um eufemismo para gratificação faroeste. Ou seja, prêmio em dinheiro para o batalhão que mais mata pretos durante o semestre. Serão cerca de R$ 42 milhões investidos através do Pacto Pela Vida em mais um novo dispositivo de massacre racial, que tem como objetivo incentivar financeiramente, moralmente e institucionalmente, os batalhões. Sobretudo, as Companhias Independentes a empreender um padrão operacional policial centrado em chacinas e massacres de negros/as.

Há mais de 10 anos a Campanha Reaja ou Será Morta/o vem organizando um movimento intracomunitário negro, centrado em uma ação estratégica de enfrentamento ao Genocídio do Povo Negro, especificamente em suas formas mais diretas: o assassinato em massa de jovens negros e o encarceramento em massa do nosso povo. Nossa organização tem batido de frente com a política de segurança pública da Bahia, evidenciando sua estrutura supremacista branca, seus dispositivos operacionais de massacre racial e a institucionalização das chacinas comomodus operandi formal na ação policial.

Há uma guerra racial de alta intensidade em curso que tem trazido terror às comunidades negras na Bahia. Cabe a nós, a linha de defesa do nosso povo, construirmos estratégias de sobrevivência, recrudescermos nossas tecnologias de autodefesa comunitária e desvendarmos as manobras militares do inimigo.

A guerra racial em curso contra os negros na Bahia, nada mais é que uma das dimensões do conjunto de dispositivos estatais e paraestatais que constituem o processo de Genocídio que o Povo Negro está submetido no Brasil. Nesses termos a análise que segue é, sobretudo, ou tão somente, a tentativa de codificar três aspectos centrais na política de segurança pública genocida protagonizada pela Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA) nos últimos 12 anos: a política de subnotificação dos dados de homicídios de negros/as na Bahia como tática para invisibilizar o Genocídio em curso, incorporação das Chacinas com modus operandipúblico-institucional da corporação policial, a perseguição política e conluios planejados pela SSP-BA para assassinar militantes de nossa organização.

No dia 15 de outubro, foi divulgado pela Secretaria Nacional de Segurança Pública dados do relatório Diagnósticos no Brasil: Subsídios para o Pacto Nacional pela Redução de Homicídios. Segundo o relatório, a região com a maior taxa de homicídios dolosos do país é o Nordeste (33,76), acompanhada da região Norte (31,09) e do Centro-Oeste (26,26). As regiões Sudeste e Sul apresentam taxas menores, 16,91 e 14,36 respectivamente.  Ainda, segundo o mesmo documento, a Bahia tem o maior numero de homicídios do país e apenas em 2014 cerca de 5.450 baianos foram assassinados.

Esses dados podem ser novidade para mídia de rapina, entretanto, já no ano de 2014 a própria SSP-BA, tornou público, mesmo que de maneira pouco divulgada, os dados de morte na guerra racial na Bahia. Segundo a SSP-BA (2014), apenas em Salvador 1.320 pessoas foram assassinadas no ano de 2014 e 450 pessoas assassinadas ao somarmos os números de óbitos por assassinato em regiões metropolitanas como Lauro de Freitas e Simões Filho. Mais adentro no sertão a governabilidade da morte negra se recrudesce, como no caso de cidades como Feira de Santana (430 assassinatos), Itaberaba (35) e Vitória da Conquista (161).

Sabemos que o montante de corpos negros abatidos na Bahia é ainda mais catastrófico, por não dimensionar os óbitos ocasionados pelos grupos de extermínio, esquadrões da morte e milícias que espalham terror nas comunidades negras, na capital e no interior da Bahia. Ou dos homicídios praticados por policiais em serviço, sobretudo, aqueles ligados aos pelotões de elite da policia militar e civil.

A Chacina tornou-se publicamente o padrão operacional nas ações das Companhias Independentes de Policiamento Tático.

As Companhias Independentes de Policiamento Tático tem ocupado um papel central na política de segurança pública Genocida do ex-governador Jacques Wagner (PT) e do atual governador Rui Costa (PT). Não é por acaso que o Programa Pacto Pela Vida elegeu as Companhias Independentes; Caatinga, Litoral Norte, Cerrado, Peto, Rotamo, Rondesp, dentre outras, para investir frondosos recursos financeiros, logísticos, tecnológicos e em seu arsenal bélico. A Rondesp, por exemplo, surge a partir de uma operação do antigo Comando de Policiamento da Capital em 2002, que na época possuía uma única viatura operacional. Hoje possuí sede própria na capital baiana, carga de armamento bélico, helicóptero, viaturas padronizadas, efetivo próprio e há poucos meses instalou uma nova base operacional em Feira de Santana.

O fortalecimento logístico-institucional das Companhias Independentes tem tornado as Chacinas e Massacres uma prática pública, amplamente divulgada e institucionalizada na ação policial na Bahia. Temos o entendimento organizacional que esse padrão operacional policial alicerçado na morte prematura de famílias negras tem como papel central uma guerra racial de alta intensidade contra os negros na Bahia. A governabilidade centrada na morte prematura e violenta da comunidade negra na Bahia tem estabelecido tecnologias institucionais de legitimação das chacinas e massacres cometidos por policiais em serviço. Esses dispositivos de convencimento da “opinião pública” tem a noção de guerra às drogas um aspecto central. Há também dispositivos jurídicos, como no caso da absorção política dos policiais envolvidos na Chacina do Cabula.

Segundo cruzados os dados entre o Anuário Brasileiro de Segurança Pública e os boletins divulgados pela SSP-BA, apenas na gestão de Mauricio Teles Barbosa, pelo menos, 17 chacinas foram contabilizadas.   Recentemente, no último dia 17 de outubro, 9 jovens negros foram executados por policiais militares em serviço na cidade de Sento Sé, no interior da Bahia. Assim como na internacionalmente conhecida Chacina do Cabula, a justificativa da execução foi uma suposta tentativa de assalto a banco.

Nossa organização tem analisado e sentido na pele como a SSP-BA tem, nos últimos anos, investido estrategicamente em dispositivos de etiquetamento racial, que internalizam na tropa o perfil do inimigo a ser abatido. Recentemente a SSP-BA divulgou na imprensa a versão preliminar de uma Cartilha de Orientação Policial neo-lombrosiana, adotada pela Polícia Militar baiana, desenvolvida a partir de estudo realizado acerca de 10 anos por um certo capitão do Departamento de Polícia Comunitária e Direitos Humanos, sendo este um espécime corporativo policial, treinado e municiado intelectualmente pelos Programas de Promoção da Igualdade Racial, que há tempos ganham frondosos recursos, realizando assessorias técnicas e treinamento ideológico ao baixo oficialato da polícia baiana. Nesses termos, o recente escândalo racial da “Dancinha da Igualdade” foi apenas o anúncio público de uma aliança subterrânea construída nos últimos 10 anos entre as instituições de rendição racial e as corporações de massacre racial.

Em 10 anos de organização comunitária em favelas, malocas, vilas e penitenciárias, a Campanha Reaja ou Será Morta/o já foi peça de investigação criminal, além de possuir um largo histórico de militantes torturados e até mesmo assassinados pelas forças de repressão policial. Nosso serviço de informações comunitárias já desvendou e denunciou em inúmeros fóruns, o quão o gabinete do governador está envolvido com a operação policial subterrânea, de busca e captura de militantes de nossa organização, operação essa tolerada e apoiada pelo alto comando da Polícia Militar e pelo Secretário de Segurança Pública Mauricio Teles Barbosa. Não é a toa que fotos de nossa bandeira, de militantes e apoiadores de nossa organização estão circulando em grupos de whats app da polícia baiana.

Nos últimos cinco anos, há uma curva ascendente de violência policial contra nós. À medida que avançamos na luta comunitária, a repressão racial tenta nos intimidar, brutalizar, etiquetar.  Cabe um breve histórico da espiral de violência racial que estamos sujeitados nos últimos dois anos: no ano de 2013, após a primeira Marcha, uma guarnição não identificada da Polícia Militar tentou invadir a casa de um dos membros fundadores da Campanha Reaja, em 2014 durante todo o ano nossos militantes foram achacados pela Polícia Militar da Bahia com armas apontadas para cabeça de nossos articuladores quando identificados como militantes em abordagens policiais, detenções arbitrárias com acusações de “usar tatuagem de ladrão”, um ônibus que voltava da II Marcha foi interceptado por uma guarnição não identificada da polícia militar, além de serem humilhados na abordagem policial, os jovens tiveram o material de propaganda política da Reaja ilegalmente apreendidos (faixas e camisas) com a acusação de que era material de “defensores de ladrão”. Já no início de 2015, antes mesmo da Chacina do Cabula, um de nossos articuladores na cidade de Cachoeira (BA) foi capturado e espancado covardemente por policiais militares, por estar usando a camisa da Campanha Reaja. Ainda em 2015, com nossa entrada na luta por justiça e verdade sobre a Chacina do Cabula, fomos publicamente ameaçados por policiais em uma audiência pública na sede da OAB, além de termos nossa logomarca política editada por policiais da Rondesp, que a circularam em grupos de redes sociais com os dizeres: “Reaja e Morra” com o tácito objetivo de disseminar o ódio institucional contra nossa organização. No dia 2 de agosto uma guarnição policial invade uma atividade comunitária de lançamento da III Marcha Internacional Contra o Genocídio do Povo Negro, um vídeo registra a ação e, depois de veiculado nas redes sociais, militantes da Campanha Reaja passaram a ser ameaçados de morte pela policia local. Após a III Marcha, casas de militantes de nossa organização são invadidas, páginas de internet hackeadas e uma investigação criminal ilegal são deflagradas com o intuito de criminalizar militantes de nossa organização.

caatinga2À medida que sofisticamos e avançamos na luta comunitáriaTransnacional Contra o Racismo, o neocolonialismo e Genocídio, o supremacismo branco recrudesce os dispositivos de repressão e eliminação racial. Sabemos que a violência operacional planejada pelas forças policiais contra organizações negras radicais e comunitárias não é uma exceção na história da luta política de libertação do Povo Negro na diáspora. Seja nos EUA, na Jamaica, Haiti ou em África, organizações negras são submetidas a forte repressão física e psicológica por parte do Estado Penal Supremacista Branco, que tem em suas forças policiais, civis e militares, agentes políticos que utilizam a criminalização, prisão, violência e sequestro, como tecnologia política de terrorismo racial e desmobilização comunitária.

Ao retomamos historicamente a memoria estratégica do contexto histórico de desmonte do Partido dos Panteras Negras para Autodefesa, na década 70, nos EUA, podemos  compreender como em variadas conjunturas políticas raciais o Estado supremacista branco ocidental tem construído programas de contra inteligência, que utilizam a guerra química, psicológica e físico-militar para captura e eliminação de militantes radicais negros. A espiral de violência que os Panteras Negras foram envolvidos é reproduzida como uma tecnologia repressiva RACIAL aplicada a organizações radicais negras em todo o mundo.

Como já constatamos a duras penas em nossa luta política comunitária, na Bahia, a Secretaria de Segurança Pública, através de seu braço Politico-ideológico, o Programa Pacto Pela Vida, vem fortalecendo as Companhias Independentes de Policiamento Tático. Ou seja, institucionalizando as Chacinas e massacre enquanto padrão operacional legitima na ação policial. O genocídio do Povo Negro como espinha dorsal na governabilidade de esquerda ou direta. Isto é, a corporação policial baiana, sobretudo os batalhões operacionais de elite, estão sendo utilizados como instrumento bélico de terrorismo racial à serviço do governo supremacista branco de Rui Costa (PT).

Nesses termos, faz parte do conjunto de nossas tarefas organizativas, revelar o quão alto índice de violência letal aplicada pela corporação policial baiana, especialmente, as Companhias Independentes, tem sido engrenagem mestra na manutenção e legitimação dos governos supremacistas brancos “democráticos populares” nos últimos 12 anos. Cabe a nós, que assumimos a tarefa de enfrentar o terrorismo racial nas ruas, de decodificar as manobras militares de curto, médio e longo alcance do nosso inimigo. Há uma guerra racial em curso e por mais que não sejamos os melhores, apenas nós, us kamisa preta, assumimos a tarefa de enfrentar o inimigo no submundo das ruas sangrentas que matam negros/as todos os dias.

*da Campanha Reaja ou Será Morto, Reaja ou Será Morta. Diretamente do bueiro, dezembro de 2015.

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