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Na Vila Brasilândia (SP) desde 2011, sambistas se reúnem para exaltar tradição paulista na música e incentivar novas composições

Texto e imagem: Pedro Borges

Subida, descida, morro, ruas estreitas. Essa é a Zona Norte de São Paulo, berço do samba da cidade. É lá onde estão as principais escolas do município: Unidos do Peruche, Rosas de Ouro, X-9 Paulistana, Império de Casa Verde, Mocidade Alegre, entre outras. É lá também onde estão algumas reconhecidas rodas, como o Samba do Congo.

A sede, localizada no Morro Grande, é toda pintada, com bandeiras, o desenho da logo do grupo, e carrega um ar familiar. São amigos, pessoas conhecidas, familiares que todas as terças-feiras, a partir das 19h30, se encontram para fazer o ritual do samba acontecer.

“É muito importante a gente ter esse espaço para poder trocar ideia, para poder cantar, extravasar as energias, positivas ou não, conviver e conhecer os nossos, porque além da autoria, a gente tem também essa história do samba e do nosso bairro”, conta Fernando Ripol, funcionário público da área da saúde e um dos fundadores do Samba do Congo.

A roda surgiu em 2011, depois de Fernando Ripol oferecer uma ajuda para um amigo. O colega passava por dificuldades na vida e tinha o sonho de abrir um negócio. “Se você abrir o bar, eu monto uma roda de samba para te fortalecer, firmeza?”, disse Fernando em tom de incentivo.

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Roda de samba acontece na Vila Brasilândia há nove anos. (Foto: Pedro Borges/Alma Preta)

A ideia foi para frente e a roda seguiu dessa maneira por 9 meses, com o primeiro nome de Poder da Criação. A mudança veio depois de uma pesquisa sobre o samba na cidade e a história do bairro.

“O nome Samba do Congo faz referência à África, mãe de todos os tambores, mas também faz à história do nosso bairro, porque a Avenida Elísio Teixeira Leite antigamente se chamava Estrada do Congo”, explica.

Depois de 1 ano no bar do colega, o samba migrou para a Casa de Cultura da Brasilândia, onde ficou por 6 anos. Há mais de 2 anos, o samba tem endereço e casa própria, no espaço cultural que carrega as cores laranja e branco, as principais do grupo.

As atividades no local não se resumem às rodas de terça-feira. Há oficinas de violão, cavaquinho, canto, samba rock, percussão, e em todo último sábado do mês, uma feijoada com samba para a comunidade.

Maria Helena, embaxatriz do samba de São Paulo, ressalta a importância do espaço por aproximar os compositores do bairro da comunidade local, função antes feita pelas escolas de samba.

“Antigamente, o lugar das rodas de samba era dentro das escolas. A escola nada mais era, vamos dizer assim, que um quilombo. Nas escolas de samba antigamente, como nós tivemos aqui na Brasilândia, muitos dos que frequentavam a agremiação faziam as suas composições e cantavam abertamente. Era uma forma de liberdade e de manifestação”, recorda.

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Espaço aproxima os compositores do bairro à comunidade local. (Foto: Gioh Fernanda)

A referência à África, presente no nome da roda, e a presença majoritária de negros faz do Samba do Congo um ambiente de resistência e fortalecimento da negritude. Maria Helena acredita ser fundamental que espaços como esse enalteçam a identidade desse grupo, o responsável pela criação e expansão do samba no país.

“As pessoas precisam entender que o samba é negro. Isso não é uma forma de preconceito. Se eu falar que a Tarantella não é italiana as pessoas vão se sentir ofendidas. A gente sabe que a origem é deles. O samba eu não posso falar diferente. É claro que as outras etnias também participam, mas não pode acontecer dessa negritude perder espaço no samba”, afirma.

Negritude, samba autêntico, comunidade reunida. Com tudo isso próximo, mais do que samba, o resultado é política. O espaço também é o momento de se discutir os problemas do bairro e o cenário vivido pelo país, conforme destaca Waldir Dicá, embaixador do samba de São Paulo.

“A questão da instrumentalização do samba por outros segmentos faz com que acabe se deixando um pouco de lado essa questão. É de fundamental importância saber dessa essência, mais do que saber, falar a respeito dela nas rodas e pesquisar a respeito, para poder levar a informação correta para o povo”, finaliza.

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Samba do Congo é considerado um ambiente de resistência e fortalecimento da negritude. (Foto: Pedro Borges/Alma Preta)

Serviço:

Sede do Samba do Congo

Rua Manuel de Souza Azevedo, 46. Morro Grande, São Paulo - SP

Encontro de compositores: Terças às 19h30

Violação e Cavaquinho: Quarta-feira: 16h30 às 18h30 / 19h30 às 21h30

Canto: Quinta-feira: 16h30 às 18h30 / 19h30 às 21h30

Samba Rock: Quinta-feira: 19h30 às 21h30

Percussão: Sábado: 10h às 12h / 13h às 15h

Feijoada com Samba: Todo último sábado do mês.

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