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“Essa não é a primeira pandemia do periférico. A fome mata, a ignorância mata, a violência doméstica mata. A gente tem que se meter! Para mim, não serve essa sororidade por conveniência, que abraça a mulher com 1 milhão de seguidores e fecha os olhos pra própria vizinha”

Texto: Beatriz Mazzei | Edição: Nataly Simões | Imagem: Isabela Alves

Há dois meses Renata Alves, de 39 anos, fundadora da produtora Quebrada Produções, deixou a própria casa para dormir no Centro de Contingência de Paraisópolis em ação direta para combater a Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus.

Em uma iniciativa da própria comunidade, a Associação de Moradores e Comércio em parceria com o G10 das Favelas (bloco que reúne as dez favelas com maior poder econômico do país) criou uma força tarefa para controlar a disseminação do vírus em uma das favelas mais populosas de São Paulo, com cerca de 100 mil habitantes.

A ação atua em diversas áreas e enfrenta não só os problemas da saúde, como a falta de recursos econômicos também. A equipe oferece assistência médica com ambulâncias contratadas para o atendimento dentro da favela, além de disponibilizar centros de acolhimento com monitoramento para pessoas com teste positivo para a Covid-19. Na área assistencial, a iniciativa também distribui vale-compras no valor de R$200, marmitas, cestas básicas e kits de higiene.

A ação já foi responsável pela injeção de mais de R$ 2 milhões no comércio local, criação de 60 bases de atendimento de primeiros socorros, além de 1.032 mulheres beneficiadas pelo programa “Adote uma Diarista”, que atende as trabalhadoras desse setor e que perderam o emprego durante a pandemia.

Entre as lideranças da ação, Renata Alves tornou-se “o GPS das ambulâncias” responsável pela coordenação da equipe através do seu número de WhatsApp, que virou uma espécie de “central de emergência” para os moradores.

Instinto de liderança

Caçula de cinco irmãos e vinda de uma família paterna de nove tios e tias, cuidar dos moradores da favela tornou-se tão natural quanto cuidar da própria família. Para Renata, estar em união sempre fez parte da sua vida. “Sou de uma família grande e aqui é assim: se um tem um problema, todo mundo vai ajudar”, conta.

Ela se descreve como “escorpiana e filha de Iansã”, tempestade que chega mudando tudo. “Na escola eu já tinha um instinto de liderança. Sempre fui a pessoa ‘Zé Povinha’: se tinha uma treta na rua eu ia tentar resolver, apaziguar, fazer a mediação. Eu sempre me meti”, diz Renata.

A facilidade para tomar à frente e se comunicar com as pessoas fez a líder comunitária desenvolver inúmeras habilidades, uma delas foi o contato com a área da saúde, que veio por experiência pessoal nos cuidados de um dos seus irmãos, que sofria com um problema renal crônico. “Desde muito cedo eu tive que aprender com essa rotina de percorrer grandes distâncias até um hospital, e aí estar na porta e correr o risco de não ter um leito, não ter medicação”, conta.

Reforçando a importância da união, o elo familiar foi fundamental em sua trajetória quando precisou de apoio. Em 2006, Renata foi presa após tentativa de entrar em um presídio com maconha para um ex-namorado. Na época, o filho Lucas (21) tinha seis anos. “Minha família esteve ao meu lado, mesmo quando eu errei. Eu sou filha de uma mulher muito forte, minha mãe vivenciou violência doméstica por muitos anos no primeiro casamento dela. Quando eu precisei, ela foi mãe”, lembra.

Quando se trata das dores de ser uma mulher preta e periférica, Renata conta que à essas mulheres, a sororidade costuma ser seletiva e geralmente, só se ajuda quem já viveu algo semelhante. Sem usar o termo, Renata compartilha esse episódio da própria vida dentro da perspectiva da dororidade, conceito de sororidade das mulheres negras que vivem as mesmas mazelas e as compartilham entre si.

Ela explica que foi apoiada pelas mulheres da família e por outras detentas, mas não sentiu profissionalismo e auxílio vindo por parte da legista que a examinou e pela juíza da condenação. “Não quero me eximir do meu erro. Eu tinha consciência que precisava pagar. Mas a minha audiência foi com uma juíza mulher e ela me deu uma condenação inicial de sete anos. Eu não tinha passagem, tinha residência e um trabalho fixo. Ela disse que aquele tempo era pra eu pensar. Naquele momento meu mundo caiu”, revela.

Com o tempo e bom comportamento, Renata chegou a trabalhar como enfermeira por conta das suas habilidades práticas na área da saúde e a pena foi reduzida para dois anos e quatro meses.

Em liberdade em 2009, cheia de vontade de viver novos ares, pensou em fazer faculdade, mas a produção já estava em seu destino. Tudo aconteceu quando o governo federal foi gravar uma propaganda sobre reurbanização e solicitaram uma pessoa engajada e que conhecesse a região. Por conhecer Paraisópolis como a palma da mão, Renata virou protagonista do comercial e ainda coordenou a movimentação da produtora dentro da favela. Foi ali que ela percebeu que suas habilidades poderiam virar um negócio. “Eu costumo dizer que foi a produção quem me encontrou. Descobri uma profissão sem querer”, conta.

Nesse momento nasceu a Quebrada Produções, que há mais de dez anos coleciona trabalhos com grandes marcas como Natura, Avon, Gillette, Nike e Coca Cola, além da novela “I Love Paraisópolis”, exibida em 2015 na TV Globo. Em meio a tantos feitos, o que move a empreendedora é o compromisso de gerar emprego para as pessoas da comunidade, movimentar a renda local e de quebra, ajudar a construir um novo imaginário para a periferia nas telinhas. “O nosso intuito é usar a mão de obra daqui e quebrar o estereótipo. Não queremos gravar apenas cenas de fuga da polícia ou desastre. Paraisópolis é um cenário muito vivo, com sua própria beleza”, conta.

Com impacto positivo, Renata conta que o trabalho da produtora chegou para profissionalizar a produção audiovisual dentro da periferia e acabar com o preconceito em relação à qualidade do trabalho exercido por quem está longe dos centros urbanos. “O nosso trabalho é sempre posto à prova. Não é porque a minha produtora é de favelados que ela não é profissional. Fazemos um serviço tão sério quanto uma outra empresa que está no Jardins”, afirma.

Mudando o cenário não apenas para fotógrafos, roteiristas e demais profissionais periféricos do audiovisual, Renata também se preocupa em estender o olhar para os comerciantes e empreendedores da região. “As grandes produtoras vinham aqui e diziam ‘olha que legal, vocês vão aparecer na TV’ e iam embora. Eu não aceito isso: se a produtora paga para a locação de um apartamento vazio na Paulista, porque não vai pagar por uma laje na favela?”, pontua e acrescenta que um dos grandes desafios é se colocar como uma empreendedora dentro desse cenário tradicionalmente habitado por profissionais homens, brancos e ricos.

“Na favela nós não somos ensinados a nos vermos como empreendedores, mas o cara que faz um puxadinho em casa e aluga, ele é um empreendedor. A mulher que vende salgado depois de trabalhar fora o dia inteiro, ela é empreendedora. Eu sou uma empreendedora, produtora, mãe, mulher negra e periférica. O meu diferencial em relação às grandes produtoras é a minha vivência”, sustenta Renata.

Combate à pandemia na favela

Em 2020 os trabalhos com a produtora caminhavam bem até que a Covid-19 chegou e Renata não hesitou em paralisar as gravações. “Eu já sabia o que estava por vir. A pessoa que depende da saúde pública já não tem leito há muito tempo. Essa falta não é nova, só que agora a gente também tem o problema da falta de respirador”, explica. Ao apontar as falhas e a falta de recursos da saúde pública, Renata destaca que o propósito do SUS (Sistema Único de Saúde) é ótimo, mas precisa de mais cuidados.

Além da incapacidade pública de garantir assistência médica, a empreendedora reforça que o isolamento social nunca foi uma realidade para a pessoa periférica, o que dificulta o combate à disseminação do vírus. “Só se falou ‘fique em casa’, mas ninguém pensou na galera na base da pirâmide. Se você perguntar para uma mãe de família da periferia se ela tem medo de ficar doente ou se ela tem medo de não levar o alimento pra casa, ela vai te dizer que ela tem medo de não levar o alimento pra casa”, pondera Renata.

Diante dessa realidade, a líder comunitária compartilha que o perfil dos infectados em Paraisópolis é composto por pessoas de faixa etária mediana, principalmente trabalhadoras domésticas e demais profissionais que não puderam ficar em casa. Por isso, o combate à Covid-19 na região também atuou com a questão econômica, garantindo cestas básicas e vale-compras aos moradores.

Para Renata, a rede de apoio foi uma articulação natural porque a solidariedade sempre foi uma realidade nas favelas. “Nada do que a gente tá fazendo agora, a gente já não fazia antes com outros problemas. Não esperamos o Estado porque se ele já não vinha antes, imagine agora”, analisa.

Sobre a reabertura do comércio em São Paulo, a empreendedora e agora socorrista de plantão acredita ser uma medida irresponsável e salienta que vai seguir em frente com o trabalho comunitário. “A gente vê falar de reabertura como se o vírus tivesse sumido da mesma forma em que ele apareceu. Ao mesmo tempo em que estamos enfrentando um ‘relaxamento’, nós estamos no inverno, que é o momento em que as doenças respiratórias atacam”, conta.

Renata se esforça para informar os comerciantes locais sobre medidas de segurança. “Temos conseguido fazer com que pelo menos esses estabelecimentos sigam as normas básicas de horário de fechamento e distanciamento social. Não sei até quando vamos conseguir manter isso, mas o nosso trabalho é seguir”, complementa.

‘O novo normal nunca foi normal’

Sem fazer previsão de futuro, a filha do Orixá dos ventos e raios acredita no turbilhão e efervescência do agora. “Agora é o momento. A Covid-19 é só mais uma pandemia que a gente enfrenta. Precisamos agora acabar com a pandemia da homofobia, da gordofobia, do racismo e da violência policial e doméstica”, considera Renata.

Com uma visão do asfalto, baseada no concreto, a líder comunitária avalia que a sociedade precisa refletir sobre o que é “normal” dentro da periferia e tomar posicionamento imediato. “As pessoas normalizaram violências. ‘Ah é normal que do outro lado do muro, na favela, o enquadro da polícia seja mais agressivo’. ‘Ah, mas é normal que se tiver dez pessoas em uma roda, é o preto que vai levar o enquadro’. A vida nunca foi normal para a gente e agora é a hora, chega de ficar em cima do muro: ou você serve a Deus ou ao Diabo”, afirma.

Referência para o filho Lucas e os outros jovens da periferia, Renata sabe a importância de semear mudanças, com a consciência de que os frutos chegam para serem repartidos no amanhã.

“Eu abraço a minha história. Gosto de acordar e dizer ‘vamo lá mulher, mais um dia! Você consegue’. Gosto de me sentir referência para o meu filho ou outra pessoa daqui, que olha pra mim e pensa ‘se ela conseguiu, eu vou conseguir também.”.

No mês da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha, o Alma Preta traz uma série de reportagens especiais que contam a história de mulheres inspiradoras.

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