fbpx
 

Dados da Secretaria Municipal de Saúde, analisados pelo Instituto Pólis, mostram que até setembro o bairro da zona norte registrou maior probabilidade de mortes de pessoas negras pela Covid-19

Texto: Juca Guimarães I Edição: Nataly Simões I Imagem: Yago Rodrigues/Alma Preta

Um bairro que concentra hospitais, terminal de ônibus, ruas de comércio com alto fluxo de pessoas na zona norte da cidade de São Paulo registra uma das maiores taxas de probabilidade de mortes da população negra por Covid-19, o novo coronavírus, mesmo após mais de seis meses de pandemia. Segundo os dados da Secretaria Municipal de Saúde, até 10 de setembro, o total de mortes esperadas de negros para o bairro do Cachoeirinha era de 67 óbitos, no entanto, foram contabilizadas 116 mortes. Entre a população branca da região, o número esperado era de 115 e foram registrados 137 óbitos.

A sobremortalidade, indicador de probabilidade de morrer em decorrência da doença, considerando a relação entre os casos esperados e os registrados, para a população negra do Cachoeirinha era de 72,2%, em 10 de setembro, enquanto que entre os brancos era de 19,1%.

O produtor musical Murilo Soares mora na região e percebeu que a população negra foi mais exposta à pandemia por não terem condições de deixar de trabalhar. “As pessoas pretas são as faxineiras, os seguranças, os motoristas de ônibus e isso faz com que elas fiquem mais expostas e, naturalmente, se contaminem mais. Para a pessoa, se ela não parou de trabalhar fica a impressão de que está tudo normal, não teve quarentena. Estou voltando agora a pegar ônibus e vejo que mudou pouca coisa”, comenta.

O recorte racial dos dados sobre as mortes causadas pela Covid-19 no Cachoeirinha comprova que a condição de vida dos negros, demarcada pelo racismo e desigualdade social, impacta mais do que o perfil de risco do coravírus. “O número de mortes esperadas, na análise estatística, é o total de mortes esperadas para determinado grupo se ele tivesse as mesmas características da média geral do município. No caso dos negros, mesmo sendo uma população mais jovem, há uma superação dos óbitos esperados. Muita gente está morrendo”, explica o pesquisador Vitor Nisida, do Instituto Pólis.

Conscientização sobre a pandemia

Na região, a própria comunidade tem se organizado para fomentar as campanhas de prevenção. O morador Rafael Neto conta que várias organizações que atuam no território, encabeçadas pela Rádio Cantareira, fizeram um grande movimento de conscientização, junto com a UBS (Unidade Básica de Saúde), para as pessoas ficarem em casa.

“Tinha carro de som nas ruas falando do coronavírus, mas a pressão do desemprego e da redução de renda não favoreceu. As pessoas têm que trabalhar”, pondera.

Outro fator que na avaliação dos moradores provocou a alta da contaminação da população negra foi o fechamento de escolas, organizações e centros comunitários (CCAs), que atendiam crianças e adolescentes. “Sem ter para onde ir e com os pais trabalhando, as crianças e adolescentes ficaram em casa sozinhos ou juntos com parentes mais velhos, o que fez o vírus circular mais”, diz Neto.

Ainda segundo a Secretaria Municipal de Saúde, as mortes esperadas entre a população negra aumentaram de 56 em 30 de junho para 67 em 10 de setembro. Nesse intervalo, as mortes registradas de negros em decorrência da contaminação pelo vírus saltaram de 103 para 116.

“Estamos sentindo de forma profunda o descaso total com as nossas vidas. Está escancarada a negligência do estado e seu projeto político de exclusão e extermínio dos pobres, pretos e periféricos. Não vamos jamais esquecer que essas mortes poderiam ter sido evitadas com políticas de distribuição de renda que permitiriam o isolamento social para que muitos pudessem ficar em casa, seguros e com comida na mesa”, salienta a ativista Keit Lima, candidata à vereadora de São Paulo e moradora da zona norte.

O Alma Preta procurou a Secretaria Municipal de Saúde e questionou sobre os índices de probabilidade de morte de negros no Cachoeirinha e as medidas adotada para a prevenção da saúde desse grupo populacional. Até a publicação deste texto, os questionamentos da reportagem não foram respondidos.

Esta reportagem faz parte do ‘Curva das Periferias: Negros e pobres diante da pandemia de Covid-19 em São Paulo’, uma parceria dos portais Alma Preta e Nós, mulheres da periferia.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

Apoie o Alma Preta e nos ajude a continuar contando todas essas histórias.

Vamos fazer jornalismo na raça!

Sobre o Alma Preta

O Alma Preta é uma agência de jornalismo especializado na temática racial do Brasil. Em nosso conteúdo você encontra reportagens, coberturas, colunas, análises, produções audiovisuais, ilustrações e divulgação de eventos da comunidade afro-brasileira. Nosso objetivo é construir um novo formato de gestão de processos, pessoas e recursos através do jornalismo qualificado e independente.

Contato

E-mail
jornalismoalmapreta(@)gmail.com