Jucinara de Lima, idealizadora do projeto Juh na Várzea, fotografa os jogos de futebol amador em São Paulo; em entrevista ao Alma Preta contou sobre a sua paixão pelo esporte, popular nas periferias da cidade

Texto / Pedro Borges
Imagem / Juh na Várzea

Zona sul, norte, leste ou oeste. Independente da região, onde tiver um campo de várzea, lá estará Jucinara de Lima, idealizadora do Juh Na Várzea, projeto criado para fotografar os jogadores e as torcidas dos times amadores em São Paulo.

Esporte antes praticado nas regiões das várzeas dos rios em São Paulo e hoje mais concentrado nas periferias da cidade, a várzea carrega características singulares, como a “emoção e união”, uma paixão que é passada nas diferentes gerações de uma família, segundo a fotógrafa.

“Me identifico com a emoção que rola no jogo, no campo, aquela vibe da torcida que ama seu time. As pessoas saem de suas casas para irem torcer pelo puro amor ao time. O futebol de várzea é mágico e é isso que me faz querer registrar cada momento”, diz.

A paixão é espalhada pela cidade. Segundo dados da Uniex, principal empresa fornecedora de uniformes para os times, estima-se que somente em São Paulo existam cerca de 8 mil times.

Um dos símbolos de maior orgulho de cada equipe é a camiseta de cada equipe, que representa a quebrada de quem a veste. A Uniex, por exemplo, não é autorizada a vender uniformes diretamente ao público. A fornecedora repassa para os clubes, que comercializam o material nas suas sedes. Para se adquirir o uniforme, é preciso ter algum vínculo com o território.

“Geral quer ter camiseta de times que são relíquias que o torcedor guarda, um tesouro particular. Tudo isso influencia positivamente ao apreciador da várzea”, afirma.

Juh na Varzea Corpo 1

Juh na Várzea em jogo do Inajar de Souza pela Copa Piooner (Foto: Juh na Várzea)

Apesar do nome amador, o esporte hoje movimenta recursos significativos. O gasto em 2018 com as 10 principais copas de futebol amador em São Paulo chegou a casa de 1,5 milhão de reais, segundo apuração de reportagem do Portal R7.

O projeto

Há mais de um ano, desde Março de 2018, a jovem de 27 anos registra a festa das torcidas e as partidas de várzea em suas lentes. O amor pelo futebol amador, porém, é bem anterior, e remonta a 2009, quando acompanhou uma partida na Arena Palmerinha, em Paraisópolis, zona sul, jogo vencido pelo Arsenal do Jardim Brasília.

“Eu já ia em jogos do profissional do meu time do coração, mas nesse dia meu coração bateu forte pelo futebol de várzea e vi o quanto era diferenciado. Foi amor ao primeiro jogo”.

Em 2016, começou a fotografar o Monte Azul F.C, time do bairro onde mora, Taipas, zona norte da cidade.

“As fotos eram mais uma coisa off só pra eles. Aí eu publicava em minhas redes sociais pessoal, mas não era muito organizado”, lembra.

A maior seriedade veio em 2018, quando decidiu criar um canal de fotos com foco para o futebol de várzea em São Paulo e que servisse como portfólio profissional.

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Comum ver a presença de crianças e adolescentes em jogos de várzea (Foto: Juh na Várzea)

“Em março completei 1 ano que estou pelos campos de São Paulo fotografando e comemorei com meu festival com 5 jogos, dentre eles um jogo feminino”, recorda.

Em 30 de Março, ocorreu o festival “Juh na Várzea”, com o lema “Lugar de mulher é onde ela quiser”. O torneio ocorreu no dia 30 de Março, das 9h às 18h, no CDC de Taipas, zona norte. A partida das 11h, o duelo entre Magistral e Projeto Social 9 foi uma partida de futebol feminino.

Para Juh, apesar de ser do esporte ser um ambiente predominantemente masculino e machista, ela acredita que as mulheres têm conquistado cada vez mais espaço.

“Sinto que cada vez mais estamos dominando nosso espaço, conquistando, fazendo parte. Sei que muitos veem como afronte e vão querer nos derrubar. Isso é uma certeza, mas a mulherada quando se impõe não tem quem a derrube, a mulher é significado de qualidade. E por onde passo é isso que vejo, árbitras, bandeirinhas, fotógrafas, comentaristas, só trampo de qualidade”.

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