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Com o tema “O que te alimenta?”, sexta edição do evento será adaptada às plataformas digitais e com participação de Ailton Krenak e Jerá Guarani, líderes dos povos originários que difundem a cultura do bem viver através da literatura

Texto: Redação | Edição: Nataly Simões | Imagem: JC Sena

Entre 4 e 27 de setembro, a Feira Literária da Zona Sul (FELIZS), festival que destaca a produção literária das periferias, ocupa as redes sociais com o objetivo de conectar o público com escritores, poetas, editoras independentes e artistas que provocam reflexões sobre o impacto da pandemia da Covid-19, o novo coronavírus, nos moradores e na cena cultural das periferias.

Idealizada pela psicóloga e produtora cultural Diane Padial e organizada pela equipe de artistas e produtores que compõem o coletivo Sarau do Binho, a feira literária faz parte do calendário cultural da cidade de São Paulo, contribuindo para fomentar o mercado editorial de autores e editoras independentes e gerar oportunidades de trabalho e renda para grupos da economia criativa, como para coletivos literários, artistas e grupos culturais que atuam nas periferias paulistanas e em outras regiões brasileiras.

“Num momento tão crítico como esse que estamos vivendo na história do Brasil, manter a feira na ativa é uma resposta à tentativa de dificultar o acesso ao livro, como a promessa de taxação por parte do governo e também ao fomento de projetos culturais que afetam principalmente as ações culturais criadas, organizadas e consumidas por moradores das periferias”, afirma a produtora cultural Diane Padial.

Nos primeiros cinco anos da feira literária, a programação circulava por equipamentos públicos, independentes e comunitários de educação e cultura, localizados nos distritos do Campo Limpo, Capão Redondo, Jardim São Luís e Jardim ngela, alcançando mais de 40 mil pessoas.

Em 2020, devido aos protocolos de isolamento social adotados para evitar a proliferação da do coronavírus, as atividades acontecem online, no Facebok e no YouTube, para debater práticas de sustentabilidade enraizadas em formas alternativas de desenvolvimento humano e bem viver, apresentando a literatura oral e escrita como um alimento para a alma, corpo e mente.

A programação conta com uma diversidade de lives que apresentarão diálogos com autores, shows musicais, conversas literárias, atividades de contação de histórias e intervenções artísticas de dança e teatro. Os convidados para os diálogos são Julio Lancellotti, Boaventura de Sousa Santos, Maria Vilani, Tião Rocha e Helena Silvestre, dentre outros nomes que farão importantes discussões sobre o processo de desenvolvimento humano em meio às desigualdades sociais das periferias.

“A nossa programação está repleta de convidados que trarão importantes contribuições sobre o cenário das desigualdades sociais que afetam os moradores das periferias. Todos eles compreendem a literatura como um instrumento pedagógico que nos alimenta de conhecimento e possibilita compreender outras realidades”, explica Diane, ressaltando que essa temática foi pensada para valorizar a literatura como uma prática de leitura de mundo que deveria estar acessível a todos os moradores das periferias.

“Os saberes tradicionais que alimentaram os primeiros habitantes dos territórios, que conhecemos hoje como periferias e favelas, possuem uma abundância de ancestralidade e recursos científicos e sociais que precisam ser compartilhados com as novas gerações. Essa edição vai usar a literatura para debater o legado das sabedorias dos povos tradicionais num momento onde o governo brasileiro massacra essa importante parcela da população em meio à pandemia”, acrescenta a produtora cultural.

No dia 5 de setembro, o Sarau do Binho mantém a tradição de realizar a abertura do evento com uma série de intervenções poéticas dos artistas que compõem um dos coletivos de literatura mais tradicionais da Zona Sul. “O calor humano do sarau é algo marcante e quem já veio nos assistir e interagir no Espaço Clariô de teatro conhece essa energia. No ambiente virtual, vamos tentar passar esse espírito para não perder a nossa essência de transmitir boas energias por meio da arte”, destaca Binho Padial.

O show de abertura desta edição será realizado no dia 4 de setembro e fica por conta da banda Veja Luz, um grupo de artistas enraizados no movimento cultural de Taboão da Serra e do Campo Limpo.

Homenagens

A cada edição a feira literária faz uma curadoria de histórias de moradores da Zona Sul que fazem da sua história de vida um marco no cotidiano de muitos moradores, que são impactados por seus projetos e fazeres diversos. Em 2020, a homenageada é a professora Ute Craemer, fundadora da Associação Monte Azul e difusora da Antroposofia no Brasil, à qual se dedica desde 1975 a promover projetos e espaços de fortalecimento social, educacional e cultural para moradores do Jardim Monte Azul.

“Cada homenageado que é reverenciado pela feira merece ter a sua vida registrada em um museu, pois estas pessoas dedicam parte da sua vida ao universo da arte, transformando o imaginário de muitos moradores. Por isso entendemos que homenagear a Ute Craemer e tanto outros agentes culturais e sociais da zona sul é uma missão do evento, para preservar e valorizar a memória da região”, conta a professora Suzi Soares, produtora cultural da Feira Literária da Zona Sul

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A professora Ute Craemer, fundadora da Associação Monte Azul e difusora da Antroposofia no Brasil. (Foto: Acervo pessoal)

Nas edições anteriores, o evento também homenageou importantes personagens da história cultural da Zona Sul, como Raquel Trindade, Renato Palmares, Eda Luís, Tula Pilar e Marco Pezão. “Nós convivemos com essas pessoas e sabemos o quanto elas inspiram os moradores com a sua arte e modo de vida, por isso, compreendemos que a feira literária é fruto deste movimento artístico que transforma e sensibiliza o ser humano”, finaliza Suzi.

Além da trajetória da professora Ute Craemer, a edição também fará uma homenagem à atriz, articuladora e produtora cultural Maria das Dores Rodrigues Nascimento, mais conhecida por Dora Nascimento ou Dorinha, que integrava a equipe de profissionais da feira literária. A ex-coordenadora da Casa de Cultura do Campo Limpo faleceu em 22 de agosto deste ano, em decorrência de um câncer no pâncreas.

Desde 2016, Dora atuava como produtora cultural da feira literária. Ela se conectou com o Sarau do Binho na época em que o encontro literário era realizado no bar do coletivo. A integrante desempenhava um papel fundamental na organização do evento que era a gestão da informação de convidados, prestadores de serviços, parceiros e detalhes da programação, como data, local e horários. Dorinha era chamada pela equipe de organizadoras como a dona do “tesouro”.

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Maria das Dores Rodrigues Nascimento, a Dorinha, faleceu em agosto vítima de câncer (Foto: Acervo pessoal)

O surgimento da feira literária

A Feira Literária da Zona Sul nasceu de um desejo de reflexão sobre o movimento cultural que as periferias de São Paulo têm vivido ao longo dos últimos 20 anos. Hoje o evento tem um panorama pulsante de múltiplas linguagens que vêm sendo, em parte, impulsionado pelos saraus nas periferias. Há uma multiplicação de iniciativas e estas reverberam cada dia mais nos mais variados espaços comunitários e culturais.

O evento também é uma iniciativa para unir potenciais num único espaço e observar a grandiosidade de propostas que a periferia vem desenvolvendo. Dentro dessa lógica, o fazer cotidiano é considerado pelos organizadores como essencial, mas é saudável um respiro para reflexão: pensar sobre os caminhos, identificar a grandeza e as dificuldades do projeto.

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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