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Jovens da cidade do interior do Rio Grande do Norte usam a poesia como forma de resistência; Alma Preta publica uma série de reportagens sobre a cidade de Mossoró

Texto e Imagem: Luane Fernandes da Agência Hiperlab | Edição: Pedro Borges

O Slam, movimento artístico e poético, cresce em Mossoró, Rio Grande do Norte, e surge como uma alternativa de cultura e educação contra toda a violência ao qual a cidade e o estado estão submetidos.

Segundo o Observatório da Violência (OBVIO), no Rio Grande do Norte, entre 2011 e 2018, o principal alvo de mortes violentas no Estado são pretos e pardos, grupos de cor que compõem o segmento racial negro. Eles representam 85% das vítimas.

Diante desse cenário, é por meio de campeonatos de poesia e performance e de espaços de criação literária que os jovens negros da periferia têm voz. Dos bairros mais pobres da cidade, surgem jovens autênticos com seus poemas autorais, abordando principalmente posicionamentos políticos e de resistência contra a violência, crimes de ódio e intolerância.

O estudante do curso de Letras da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), Lucas Rafael, de 22 anos e natural de Mossoró, é uma das pessoas que fazem essa roda girar. Ele se tornou o primeiro campeão de SLAM na cidade, em 2018. Na poesia, Lucas é o “Artista Barroco”, em homenagem ao bairro de onde vem: Barrocas.

Lucas conheceu primeiramente o rap na infância e se identificou logo de cara com o gênero que trazia nas letras a realidade das periferias e favelas. Ele não lembra quando e nem como começou a ouvir, mas lembra quando percebeu que era aquilo que ele gostava e queria também fazer, em meados de 2005 ou 2006, quando ouviu Racionais.

“É incrível a força que eles tinham. Eu tenho até hoje as lembranças lá no bairro ouvindo com meus amigos de infância, jogando baralho, bila e cantando as músicas. Eu tenho essa lembrança muito forte”.

Ele começou a escrever aos 19 anos, em 2017, quando teve contato com pessoas que começaram a incentivá-lo: “Eu considero que comecei um pouco tarde. À vista de Antônio Francisco, comecei cedo, já que ele começou com 40”. Ele fez o seu primeiro poema para participar da batalha da chave que ocorria no parque municipal da cidade. O poema “Aí Menor” trata da educação, incentivando principalmente as crianças a leitura. É por isso que o poema se inicia como se Lucas estivesse falando com uma criança: “Aí menor, tá me ouvindo? Então ouça os conselhos dos teus pais, estude”.

O SLAM tem origem nos Estados Unidos e cresceu em meio à cena de hip hop na década de 80. No Brasil, chegou um pouco mais tarde, em 2000. Em Mossoró, é ainda mais recente. A primeira edição ocorreu em 2017.

Lucas vê a educação como uma forma de transformar a própria realidade e aborda isso em suas letras. O poema teve bastante repercussão entre amigos e conhecidos.

Como fruto disso, ele foi convidado junto com um amigo para participar de um seminário sobre negritude, em novembro do mesmo ano. Na época ele não tinha um poema que falasse sobre o tema. Foi então que escreveu o seu segundo poema. No mês seguinte Carlos Guerra Júnior, rapper, poeta e jornalista mossoroense, voltou de Portugal para Mossoró e decidiu trazer o SLAM para a cidade. Para participar era necessário ter pelo menos 3 poemas autorais. E foi assim que Lucas escreveu o seu terceiro poema,“Que tiro foi esse”, referenciando à música da cantora Jojo Todynho.

As performances são julgadas por membros selecionados da plateia ou por uma comissão de jurados. A competição acontece em quatro níveis: local, estadual, nacional e mundial. O primeiro evento de SLAM foi demonstrativo. A estreia ocorreu para que os organizadores e participantes pudessem ter uma noção de como seria a repercussão do mesmo. Aconteceu em dezembro de 2017 no Rust Café e contou com aproximadamente 200 pessoas. Lucas conseguiu ganhar em terceiro lugar.

Em Janeiro de 2018 aconteceu a primeira etapa do SLAM Mossoró, na qual Lucas foi campeão. No decorrer do ano foram acontecendo outras etapas. Durante esse processo Carlos Guerra inscreveu o SLAM Mossoró para concorrer ao SLAM Nacional em São Paulo. Nas etapas finais e principalmente na final, os slammers — como são chamados os poetas deste estilo — começaram a se mobilizar mais em torno do evento para conseguir representar a cidade em São Paulo.

“Eu, particularmente, pouco antes da final estava muito ansioso e botando muita fé em mim. Eu disse: não, eu vou ganhar. Eu vou conseguir essa vitória e vou conseguir ir pra São Paulo pra esse SLAM Nacional. Eu quero muito. Na época eu tava trabalhando, pouco antes da final eu tava trabalhando. Então eu sempre penso que nada é em vão. É aquela velha frase: há males que vem para o bem. Eu costumo falar que se eu tivesse trabalhando ainda eu não teria escrito poema novo, não teria participado da final e muito menos teria ganhado e ido pra São Paulo. Eu só consegui participar por que fui demitido do emprego. Então foi uma final bastante emocionante”.

O campeonato final do SLAM Mossoró 2018, classificatória para o Nacional, aconteceu em outubro no auditório da Estação das Artes, quase lotado. Os poetas Stanley, Lucas Rafael, Lucas Feijão, Scape, Caboco, Wilker, Levi e Prisma disputaram a vaga do Rio Grande do Norte para o Slam BR, realizado entre os dias 12 e 16 de dezembro de 2018 em São Paulo.

Apesar de toda a motivação, Lucas conta que por um momento pensou em desistir. No segundo poema ele ficou nervoso. Mas no terceiro, foi com ainda mais força de vontade e conseguiu uma reviravolta, ganhando o campeonato e indo para São Paulo com todas as despesas pagas.

Desde a infância Lucas sempre teve a vontade de conhecer São Paulo e foi graças ao SLAM e ao seu próprio esforço que ele conseguiu realizar esse desejo. A experiência foi enriquecedora, dando a oportunidade dele ter contato com slammers de todo o Brasil.

Ele considera o que escreve como poesia marginal, literatura periférica. Ao escrever, escolhe primeiro o tema que quer abordar e vai desenvolvendo as ideias. A inspiração muitas vezes vem de trabalhos de outros rappers que ele admira, como no seu segundo poema, que aborda a negritude. Lucas conta que se inspirou no rapper Eduardo Facção, ex membro do grupo de rap Facção Central.

“Ele fala que hoje em dia senzala virou favela. Barca negreira virou metrô. Casa grande virou mansão. Através dessa ideia dele eu fui escrevendo as minhas:
1888, o ano da nossa vitória!
A escravidão foi abolida, agora mudaremos nossa história!
Mas não… não foi como nós pensou,
deram um jeito do homem continuar com seu modo dominador.
Nos deram uma falsa libertação e planejaram tudo com cautela,
nos deixaram sem saber pra onde ir, formamos quilombos, que hoje é conhecido como favela.
Deixamos de trabalhar nos campos de trabalho escravo,
e hoje trabalhamos nos campos industriais, nos matando por uma merreca de salário”.

O impacto do SLAM atinge principalmente as juventudes que acompanham o hip hop. O SLAM fala através de uma linguagem atual, uma linguagem dos jovens de periferia, que se identificam e se sentem representados. E até mesmo se inspiram para seguir na poesia e performance, trazendo suas mensagens renovadoras, não vistas na mídia, nem nas escolas. Lucas já ouviu as suas poesias repercutirem até mesmo no seu bairro. Além disso, através de um amigo que estava trabalhando na escola Dom Bosco, ele ficou sabendo de um estudante que pediu para recitar uma poesia sua. Até Antônio Francisco, cordelista potiguar considerado um dos melhores do país, já ouviu as poesias marginais de Lucas e tantos outros slammers da cidade, admirando e se inspirando na forma como eles as declamam.

Embora na cena de SLAM mossoroense não exista tanta representatividade feminina, nas edições do SLAM Nacional de 2016, 2017 e 2018 todas as campeãs foram mulheres. São elas Luz Ribeiro, Bell Puã e Pieta Poeta, slammers que trazem mensagens também contra o machismo e o sexismo, opressões que atingem tantas mulheres, principalmente as negras.

O rap foi quem influenciou Lucas a entrar numa faculdade. Ele decidiu que era isso que queria quando descobriu que Kaskão T$G, rapper e ex-presidiário que admira, mudou de vida através dos estudos, graduando-se em Direito e Teologia. Lucas viu nele uma inspiração. Antes disso ele não tinha planos de ingressar em um curso superior.

Lucas conta que muitas pessoas que moravam em seu bairro, hoje já não estão mais ali: “Ou por que foram mortas, expulsas ou presas”. Seduzidos muitas vezes por um caminho em que o próprio sistema desigual e racista constrói. A violência, tantas vezes mencionada aqui, atingiu a essas pessoas tão próximas. Ser jovem, negro e de periferia é morar em áreas esquecidas pelo Estado e estigmatizadas pela sociedade. Muitas vezes sem saneamento básico, sem acesso a um ensino de qualidade e ao sistema público de saúde. Como ele aborda em suas poesias “senzala virou favela”. E a polícia, que supostamente deveria proteger essas pessoas, acaba por agredi-las. Inúmeros casos acontecem em nosso país, como os jovens assassinados no baile funk de Paraisópolis, ou a família que foi dizimada por 80 tiros no Rio de Janeiro.

Em um domingo aparentemente comum, no dia 1 de outubro de 2017, Lucas foi ao shopping com três amigos. Eles estavam caminhando pelo estabelecimento quando um casal tirou uma foto deles de costas, sem permissão, e compartilhou em grupos de Whatsapp acusando-os de quererem sequestrar o filho deles. A mensagem enviada junto a foto dizia para ter cuidado pois quatro homens “desarrumados” estavam observando suas crianças e tentaram sequestrá-las.

Lucas conta que ele e seus amigos chegaram a consultar três advogados diferentes. Porém, devido a tantos casos de racismo não resolvidos e que por vezes a própria vítima é culpabilizada, o amigo de Lucas teve receio de que isso pudesse se voltar contra eles.

“Eu lamento pelo fato de que a gente virou só mais uma estatística. A gente não foi aqueles meninos que foram injustiçados, foram à justiça e tiveram o seu direito validado. A gente foi apenas mais alguns meninos injustiçados e que deixou passar”.

A reportagem foi produzida originalmente pelo Hiperlab UERN, o Laboratório de Narrativas Multimídia do curso de Jornalismo da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). O Alma Preta publicará uma série de reportagens produzida pelo grupo de estudantes da instituição de ensino superior.

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