Textos: João Victor Belline / Imagem: Divulgação

 Documentário mostra tradição e cultura no interior e também questiona as questão sócio étnicas

O município de Tietê, localizado no interior do estado de São Paulo, tem cerca de 37 mil habitantes e abrange uma área de 392,509 km², e apresenta registros de história desde a época dos bandeirantes que desbravavam o interior pelo rio homônimo. O solo fértil e o vasto trecho do Tietê no município foram fatores cruciais à formação da cidade. Até os dias de hoje é notório como a construção arquitetônica da cidade foi se instituindo a partir do fluxo fluvial.

Tietê também é notável por muito mais coisas importantes do que apenas o nome do rio. Desde a sua fundação, em 8 de março de 1842, a cidade carrega uma importante carga cultural. A arquitetura do centro, por exemplo, ainda mantém as fachadas de tempos outrora. Dentre essas manifestações culturais, uma delas se destaca pela representatividade e resistência. A Festa de São Benedito acontece anualmente no último final de semana de setembro e é realizada há 147 anos, envolta em uma carga enorme de saber empírico, e reflete fatores socioculturais da cidade.

A cidade teve uma colonização italiana muito forte e, apesar nos números não serem exatamente claros, teve um período de escravidão muito intenso. A própria Igreja de São Benedito, por exemplo, foi feita com mão de obra escrava. Há registros orais de moradores que afirmam que até meados dos anos 70, começo dos 80, a segregação ainda era bem intensa. Um exemplo disso é que no próprio centro, na Praça Dr. Elias Garcia, o negros não ‘podiam’ ficar com total liberdade. Com esse retrato e uma população negra grande, Tietê ainda discute muito pouco as questões sócio étnicas.

Com a intenção de trazer a discussão, proporcionar um resgate histórico e fortalecer a identidade local, o documentário “Viva São Benedito” foi lançado no último dia 7 de maio. O filme informa, através das tradições religiosas e do Batuque de Umbigada, e também problematiza algumas questões delicadas e que não são discutidas na cidade. Em outros tempos, a Festa de São Benedito fazia multiplicar em duas ou três vezes o número de pessoas na cidade durante os dias das festividade, em especial o domingo, dia de maior aporte de pessoas. Entretanto, com o passar dos anos, a Festa tem atraído menos pessoas. Ela foi reorganizada e não acontece mais na região central de Tietê e, sim, em um ambiente afastado da cidade, a FAIT – Recinto de Exposições Luiz Uliana. É possível discutir se isso é de fato uma forma de organizar a Festa de São Benedito ou se, na verdade, está acontecendo uma repressão. Diversas pessoas na cidade têm uma aversão à Festa de São Benedito. Não é difícil ouvir, semanas antes do último final de semana de setembro, alguém afirmar que não ficará na cidade para evitar toda a movimentação. Independentemente disso, os tieteenses que costumam aproveitar a Festa, junto aos imigrantes temporários, presenciam uma data respeitada e não só pela população de Tietê que considera sua história, mas também por diversas cidades vizinhas.

O documentário se baseia em duas formas de expressão da tradição e da cultura que acontecem durante a Festa. As festividades religiosas trazem milhares de romeiros, que acompanham a tradicional ‘Missa Afro’, que sempre acontece no sábado e lota a Igreja de São Benedito, e a procissão de São Benedito, que passa pelas ruas centrais da cidade durante a tarde do domingo. O outro pilar é a cultura negra, manifestada principalmente no Batuque de Umbigada, dança afro-brasileira que data da época dos quilombos e que é uma notável expressão remanescente do século XIX. O Batuque começa na noite de sábado, após a missa, e vai até a manhã de domingo. Ele acontece no barracão da Igreja da Santa Cruz, um dos bairros com maior população negra da cidade, e traz vários elementos do período colonial, como a fogueira para esquentar e afinar os tambus, a canja de galinha, que alimenta os participantes de forma gratuita, e o café, para que as festividades se estendam até o amanhecer. Vale ressaltar que, apesar de muitos tentarem separar essas manifestações, como naquela relação entre sagrado e profano, é inegável que há ligação. No sábado, por exemplo, antes da Missa Afro há o levantamento do mastro de São Benedito e o que embala tudo isso é o Batuque. Nos tempos em que a Igreja ainda não tinha sino, apenas o som do tambu chamava as pessoas para a missa.

Esse recorte feito em Tietê é apenas um dos diversos retratos que podem ser vistos por todo o Brasil. Muita cultura não é valorizada, em especial a negra, já que muitas esferas sociais têm bastante preconceito e desconhecimento. Ainda pior que isso, muitas dessas manifestações estão se perdendo e deixando pra trás anos e anos de um Brasil tão rico, mas que não se é exaltado. Ações como essas de fortalecimento da identidade e da cultura devem ser incentivadas, para que a fruição cultural aconteça e que, mais importante, ela continue presente no dia a dia da população.

O documentário Viva São Benedito foi dirigido pelo jornalista João Victor Belline, idealizado pelo geógrafo Guilherme Capelini, e produzido pela dupla durante as festividades da 147ª Festa de São Benedito, em setembro de 2015. O conteúdo está disponível no YouTube e terá conteúdo adicional liberado na página oficial no Facebook.

Texto: Pedro Borges / Edição de imagem: Solon Neto

 Semana conta com a presença de mães e vitimas da violência policial de outros estados e países; Crimes de Maio são foco da ação

 O movimento Mães de Maio organiza uma série de atividades para denunciar os Crimes de Maio de 2006. Na época, policiais civis e militares mataram em uma semana cerca de 600 pessoas, a sua grande maioria, jovens, negros e moradores de periferia. O tema de toda mobilização é “Justiça, Reparações e Revolução”. A proposta é aproximar mães e vitimas da violência do Estado para a troca de experiências e para o fortalecimento na luta contra o genocídio.

Débora Maria da Silva, fundadora do movimento Mães de Maio, ressalta a importância do diálogo com vítimas de outras regiões do país e partes do mundo. “A bala que atingiu meu filho aqui, atingiu os filhos delas lá. Essa política de extermínio nos outros países e estados é igual. É uma violência contra pobres e negros. A gente vê que as mães dos EUA têm uma estrutura, mas os filhos delas são negros e são vítimas de homens brancos. No Brasil a gente vê as mães sendo vítimas de policiais negros. São pobres matando pobres. É uma guerra não declarada e o inimigo é a periferia, o suspeito é a periferia, a favela, os pobres e os negros”.


Para o dia 11, está programado o acolhimento das pessoas de diferentes estados e países. A intervenção artística com o objetivo de construir no futuro um monumento em memória às chacinas de maio de 2006 acontece no dia 12. O nome dado à atividade é a inauguração da Pedra Fundamental do Memorial dos Crimes de Maio e das Vitimas do Genocídio Democrático.

Mesmo durante o regime político atual, a juventude negra e periférica segue como a principal vítima do Estado, de acordo com Débora. “A gente tem uma democracia que não existe na periferia. O golpe já foi dado faz tempo, quando matam e continuam mantando os nossos filhos, porque cada um que cai, é como se caísse o nosso de novo. Nos 3.650 dias que nós vimos vários filhos caindo, foi porque não conseguimos ter um olhar, um compromisso político por parte das autoridades. Autoridades de esquerda, que diziam que eram de esquerda, não tiveram um olhar de fazer uma varredura sobre o genocídio da juventude”.


No dia 13, ocorre a plenária final até o horário do almoço. Na sequência, começa o protesto pelo centro da cidade de São Paulo com o tema: “Pelos 10 anos dos Crimes de Maio e todas as Vítimas do Genocídio Democrático e contra a Falsa Abolição”.

O dia 13 de maio é marcado na história brasileira como o suposto dia em que foi concedida a liberdade para a população negra.

À noite, um evento cultural será feito na quadra da Gaviões da Fiel com a participação da Pavilhão 9, outra torcida organizada do Corinthians. O tema será a lembrança ao que chama de “Era das Chacinas”.

Débora conta as suas expectativas para o encontro e avisa que a luta continua até que sejam resolvidos todos os crimes. “Vivemos num Estado penal, com a pena de morte decretada e não podemos aceitar isso como mãe. Então as perspectivas são de falar que nós exigimos as investigações, queremos a história que não foi contada para o Brasil e para o mundo. Os Crimes de Maio não passarão. Os fascistas que mataram nossos filhos não passarão”.

Nos dias 14 e 15 de Maio, parte das Mães de Maio se dirige ao Rio de Janeiro para participar das atividades propostas pela Rede Contra a Violência, Fórum das Juventudes e Fórum Social em Manguinhos.

 

Para mais informações e contato, acesse o site das Mães de Maio: http://www.maesdemaio.com/

Texto: Pedro Borges / Edição de Imagem: Pedro Borges

 O conceito de liberdade e a luta política são os principais pontos em pauta

O Coletivo Cultural Di Jejê organiza dois mini-cursos de formação política no sábado do dia 14 de maio, no Jardim Damasceno, Zona Norte de São Paulo. Às 10h, inicia-se o debate acerca do “conceito de liberdade no pensamento de Angela Davis”. Depois do horário do almoço, às 14h, começa a discussão sobre o “Feminismo negro e a urgência da luta organizada”.

“A Angela Davis trabalha de uma forma muito peculiar a noção de liberdade porque ela articula com a categoria de escravidão. À tarde nós vamos discutir o feminismo negro e quais são as estratégias que ele traz para uma luta real para a superação da barbárie em que a gente está inserido”, explica Jaqueline Conceição, doutoranda em Educação e coordenadora do Coletivo Di Jejê.MiniCursoJaque

O feminismo negro é um pensamento político que tem ganhado cada vez mais espaço entre as mulheres negras


O grupo promove os seus cursos de formação na periferia de São Paulo, em especial na Zona Norte. O principal objetivo do coletivo é o debate acerca da conjuntura atual sob a perspectiva de mulheres negras.

Jaqueline Conceição conta a expectativa em relação à atividade e à presença da comunidade negra. “A expectativa é que a gente tem um público de pessoas negras participando da formação, principalmente mulheres negras, que na verdade é o público essencial do coletivo mesmo. São as mulheres jovens negras que têm vindo para os encontros e que a gente consiga fazer um bom debate”.

O público de cada curso será de no máximo 20 pessoas e o tempo médio de cada atividade é de 4h. As inscrições podem ser feitas por meio dos links abaixo.

Conceito de Liberdade no Pensamento de Angela Davis

Feminismo Negro e a urgência da luta organizada

Confira a entrevista completa com Jaqueline Conceição:



Serviço:
Informações: jaquec@hotmail.com
Valor: R$ 40,00
Tempo de duração: 3h

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