Texto: Solon Neto / Foto: Divulgação

“Se fazer cinema pode parecer um luxo em algumas partes do mundo é porque a realização, a distribuição e a conservação de um filme requer um gama de recursos de que carece a maioria dos países do terceiro mundo. De todas as produções artísticas o cinema continua sendo aquela em que a diversidade cultural mais dificilmente pode se expressar. Os filmes tornam-se produtos culturais e ao mesmo tempo bens de consumo preciosos e dificilmente acessíveis a alguns públicos. O cinema pela sua natureza artística e industrial é um desafio para as nações periféricas, que mesmo após a descolonização política e cultural, esforça-se para ganhar uma outra batalha, a da apropriação da tecnologia da imagem.” – Cinema no Mundo: África – Indústria, Política e Mercado. Alessandra Meleiro

A frase acima foi citada pela diretora Larissa Fulana de Tal quando perguntada sobre o que era o cinema negro no Brasil. A jovem diretora, mulher negra, baiana e apaixonada por cinema negro, concedeu entrevista ao Alma Preta contando sobre sua carreira, aspirações, racismo, sonhos e curiosidades de seu trabalho e vida. Seu filme mais recente, “Cinzas”, foi exibido na na semana passada no Festival Latinidades em Brasília, enquanto ela vive um momento importante em sua carreira.

Nascida na estrada da rainha, em Salvador, Bahia, ela traz na percepção sobre si e na construção de sua identidade a luta contra o racismo, tal como boa parte dos negros.

Fulana nunca quis ser diretora. Seu primeiro contato com a sétima arte foi apenas aos 13 anos, quando sua tia a levou ao um cinema perto de casa chamado Tamoio. Ela diz não esquecer a sensação estranha que a sala escura e tela grande lhe causaram. Um impulso que a levou à direção cinematográfica.

Sempre com muitas perguntas e bastante reflexiva, Larissa se vê como uma pessoa silenciosa, e sua relação com a arte veio do desenho e da poesia, que rabiscava quieta sempre que podia. Por ser quieta ela afirma que “Me expressar através de algumas coisas é importante”.

Ao entrar na escola de cinema não conhecia Felinni, Goddard ou Orson Wells. Cidadão Kane não é mesmo suficiente para abordar o dia-a-dia negro no Brasil. Seu preto e branco passa à margem de nosso emaranhado de cores. O cinema aqui, afinal, não é um território negro. Diferente dos Estados Unidos, onde há certo espaço para o negro nas grandes telas, o Brasil não tem muitas atrizes, atores, diretoras ou diretores negros em papeis de destaque. Costumam estar à margem, lutando contra a estereotipação e o preconceito. A história de seus cotidianos se embrenha com a sua vida profissional.

São poucos papeis de reis ou rainhas, respeitando a criatividade e força do povo negro. Quase não há retratos da realidade do país mais negro fora da África. Mas mesmo diante disso, o sujeito negro comum não se rende. Que o digam Zezé Motta, Milton Gonçalves, Zózimo Bulbul, Joelzito Araújo, Toni Tornado e Ruth de Souza. É de praxe.

Um Condenado da Terra

É exatamente do comum que Larissa Fulana de Tal vai tratar em seu filme “Cinzas”, baseado no conto homônimo de Davi Nunes. Em sua primeira ficção, quem encarna o drama conhecido por qualquer negro pobre urbano do país é Toni, um jovem negro. Como em Ulisses, de James Joyce, o filme de quinze minutos se passa ao longo de um dia. O elenco de oito atores saiu de uma seleção de duzentos, feita apenas na Bahia. Ele tenta captar desde a relação tensa e dramática com polícia que homem negro carrega no Brasil, aos seus sonhos de ascensão e mudança. “Cinzas” mostra a frustração de um dia em que tudo dá errado; a quitinete com aluguel atrasado, o ônibus lotado, a faculdade particular, o trabalho que não dá prazer, a típica insensibilidade de um azar sistemático ao qual todo negro sabe dar nome.
LARISSACadê seu filme?

Uma diretora fala através de seus filmes. É quando ela pode propôr, criar realidades e compartilhar com o público sua experiência. Larissa contou para o Alma Preta, que o que impulsionou sua produção cinematográfica foi uma pergunta que ouviu durante um encontro do Rio de Janeiro.

“Foi num encontro de Cinema Negro que acontece anualmente no Rio de Janeiro. Estive lá em 2010 e conheci o Zózimo e a Viviane Ferreira, e eles me perguntaram: ‘você é uma cineasta sem filme? Isso me marcou muito, porque mesmo estudando cinema, enquanto negro você acaba duvidando que é possível fazer filmes. Até então eu assumi apenas cargos de assistente de alguma coisa. Mas nunca tinha botado a cara para bater enquanto diretora. E foi muito marcante essa pergunta: Cadê seu filme?”

Zózimo Bulbul,  falecido em 2013, é um dos grandes nomes brasileiros por detrás das câmeras. Diretor de oito filmes, destaca-se com “Alma do Olho” e “Abolição”. Um dos raros exemplos de diretores negros, assim como Larissa, que em início de carreira já vai ao seu terceiro filme ao lado do coletivo Tela Preta.

Coletivo Tela Preta

Em 2010, Larissa e amigos produtores de audiovisual fundaram o coletivo Tela Preta ainda na universidade. O Coletivo está por trás das produções da diretora. Focados hoje na produção de filmes, o coletivo é formado por sete pessoas.

“A gente percebeu o quanto era imenso esse universo [do cinema]. E chegou o momento em que nossas reivindicações fossem concretizadas em propostas. Não adiantava mais o diagnóstico de que o cinema é racista, não adiantava mais o diagnóstico de que não é possível para a gente, de que o acesso é difícil. Daí de 2010 para cá teve o Lápis de Cor, que foi uma chamada que ganhamos do Canal Futura, teve o Canções de Liberdade, que foi o primeiro filme com o selo Tela Preta e em 2012 ganhamos dois editais”.

Nesses editais, o coletivo enfrentou o racismo institucional, quando junto a produtores de várias partes do país sofreu um embargo ao vencer um edital do Ministério Da Cultura destinado a pessoas negras.  O sentença fora uma “declaração de nulidade do Editais lançados pelo Ministério da Cultura para promoção de concursos culturais, sob o fundamento de os editais terem sido direcionados, exclusivamente, a pessoas negras”.  Apenas dois anos depois a ação foi derrubada e o valor foi repassado aos produtores. Uma barreira e tanto.

“O realizador negro não tem o direito de falar né? É meio que podar esse lugar de produzir, de fruir, de poder falar. Eu coloco muito que o embargo do edital foi, e pode ser, é o meu receio de o edital vir por água abaixo nesses cortes de recurso, é de impossibilitar um realizador negro de fala”.

O Coletivo busca formas para se manter, afinal, segundo Larissa “Não tem como viver de edital, é impossível”. Apesar do amplo acesso aos meios técnicos, como câmeras e microfones, ainda é muito difícil criar retorno aos realizadores. A inovação na distribuição tem sido a saída na busca por recursos e na busca por sustentabilidade na atividade profissional criativa. O apoio governamental existe, mas os membros do coletivo sabem bem onde pisam.

“A gente tem escrito alguns editais. Mas a gente sabe, a gente como Tela Preta, que isso [editais] é política de governo, não é política do Estado.  Quando tiver crise financeira como aconteceu agora, o primeiro recurso a cair é a Cultura, é a Saúde é a Educação. Então a gente não pode ficar na expectativa de viver e sobreviver dentro dessa perspectiva.”

Eu sou Negra

“O meu trabalho nasce na afirmação”. O Núcleo Negro da Universidade do Recôncavo Baiano foi fundamental para que Larissa se empoderasse. Foi lá, reunindo-se com outras mulheres e homens negros que se fundou o coletivo do qual faz parte e onde ela diz ter reunido forças para tomar seu lugar de fala como mulher, como negra e como cineasta. Ela acredita que foi o espaço responsável para o seu despertar sobre a realidade. “Ou eu acordava, ou ia ser metralhada”.

A Fulana lembra que o silenciamento da mulher negra foi umas das barreiras mais evidentes que teve que transpôr. Sua situação de gênero e cor a colocam em desvantagem nos espaços políticos, e foi aos poucos que construiu sua identidade e voz, partindo para um posicionamento profissional que nasce na luta contra o racismo.

“O meu trabalho, a minha consciência e a minha pele são intrínsecos. É uma coisa só. Se ligou? Porque atualmente eu não me vejo olhando de outra ótica, não me vejo olhando de outro lugar além do de mulher negra”

A consciência da cineasta agora ressoa em suas palavras, e sua forma de trabalhar e pensar estão repletas de sua identidade política: “Eu sou mulher negra independente do lugar que eu vá.”

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Fulana de Tal
Larissa Fulana de Tal descobriu seu nome artístico através de um livro que pegou emprestado de seu tio. O nome da obra era “Noite dos Cristais”, de Luis Fulano de Tal. O livro é uma novela histórica sobre a Revolta dos Malês. Ela achou o nome fantástico.  Tempos mais tarde, através de uma pesquisa ela descobriu que os escravos sem donos ou sem referência recebiam esses sobrenomes: Fulanos, Beltranos e Ciclanos.

“Quantos Fulanos, quantos beltranos, quantos ciclanos estão na massa de uma multidão cotidiana contemporânea e que tem histórias de resistências e sobrevivências que não são reveladas?”

Querendo se perder na multidão e homenageando os anônimos que batalham diariamente no sistema brasileiro. Sua escolha está enviesada no sentido de que sendo comum, qualquer um pode sonhar e ocupar os espaços.

Outras diretoras

Há uma rede se formando entre cineastas negras e negros. Larissa faz parte de um grupo ascendente que busca reivindicar representatividade e inserção através da proposição e ocupação de espaços. Além de Larissa, conheça alguns outros nomes expoentes e suas obras:  Viviane Ferreira ( O dia de Gerusa), Everlane Moraes (Caixa D’água – Quilombo é esse), Yasmin Thayná (Kbela) e Thamires Santos (O dia que ele decidiu sair).

 

Texto: Pedro Borges / Ilustração: Vinicius de Araújo

Dia 23 de julho de 1993.

Não sei há quanto tempo estou aqui. Deitado em um jardim ao lado de outros da pele preta, essa é a única data que me recordo.

Afinal, seja aqui ou ali, pouco importa. Os dias são iguais. As noites também.

E um é idêntico ao outro. Com ou sem luz, não há diferença entre o sol e a lua.

Preciso mesmo sobreviver. Preciso mesmo não sonhar.

Os sonhos atrapalham.

Quero sair daqui e ter filhos. Quero viver muito. Quero passar dos 20 anos.

Mas isso tudo é muito difícil.

A cada grupo de 100 mil jovens com 19 anos, 62,9 são mortos por armas de fogo no Brasil. Aqui, os revólveres mataram 5.068 jovens brancos e outros 17.120 jovens negros.

Sou o alvo favorito.

Mas é melhor nem pensar nisso.

O que sei é que hoje é sexta-feira. O céu preto está pintado pelas estrelas, pelos bares e pelos carros.

A praça está agitada.

A Igreja aponta 11h da noite. Melhor descansar. Melhor fugir do frio e assim acordar amanhã cedo. O pessoal da rua logo nos acode para não atrapalharmos o comércio.

Preciso me deitar no chão sepulto e me libertar. É hora de sonhar, aquecer.

Não! Não creio!

O sonho de hoje me reservou o mesmo do dia-a-dia. Desgraça.

Começo a ter pesadelos. O tremular dos meus olhos me despertam. Não sei mais se sonho. As luzes fortes brilham em minha pele parda.

As luzes continuam estáticas. A desconfiança cresce.

Mas dura pouco.

Homens encapuzados atiram. O disparar dos gatilhos também esclarecem o ambiente. A claridade agora rasga a nossa pele preta.

São 23 horas e 43 minutos. Éramos 70. 8 morreram. Nesses últimos instantes de vida, vejo a minha personalidade se misturar ao chão e formar uma poça.

Uma marca jamais apagada, porém logo esquecida.
 

Lembrança ao Massacre da Candelária no Rio de Janeiro.

O dia 18 de Julho é a data de nascimento de Nelson Mandela, um dos principais líderes de toda a história da humanidade. O ativista sul-africano foi um dos mais destacados nomes na luta contra o Apartheid.

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