Texto: Solon Neto / Edição de Imagem: Solon Neto

Pichações racistas se tornaram constantes e surgem em diversos campus da UNESP

Esta semana, membros do Coletivo Negro Kimpa encontraram pichações de suásticas nazistas feitas sobre cartazes anti-racistas colados em um dos banheiros do campus da UNESP, em Bauru-SP.

Os cartazes são parte de uma ação de conscientização desenvolvida pelo coletivo, em vista da continuidade do racismo na instituição e da apatia das unidades e da reitoria no combate a esse tipo de ação, que se repete.

Diversas unidades já relataram o mesmo problema. Em 2015, ao menos dois casos semelhantes foram registrados e denunciados em julho e agosto, em Bauru-SP e Ourinhos-SP, respectivamente.

Este ano, em Abril, outra denúncia foi feita na unidade de São José do Rio Preto-SP, e novamente, em Maio, na unidade de Rio Claro-SP. Agora, Bauru volta a receber ataques.

O Coletivo Negro Kimpa reúne estudantes negras e negros para realizar ações de formação, debate e denúncia sobre a questão racial. Grupos semelhantes se reúnem em pelo menos 9 das 23 unidades da UNESP no estado de São Paulo. A maioria tem um histórico comum, e surgiram a partir de 2014.

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O ano marca o início da política de cotas na Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, a UNESP, que segue sendo a única das universidades estaduais de São Paulo a possuir um programa de ingresso por cotas raciais. Naquele ano, a UNESP reservou 15% de suas vagas para alunos de escola pública, dos quais 35% são reservadas para Pretos, Pardos e Indígenas. A medida é progressiva, e a meta é que a reserva total atinja 50% das vagas em 2018.

Uma das reclamações ouvidas na universidade é a falta de uma política institucional de combate ao racismo, mesmo diante da realidade brasileira e do sistema de reserva de vagas.

Pichações racistas, nazistas e homofóbicas vêm sendo denunciadas em diversas universidades e já surgiram na USP e no Mackenzie, em São Paulo-SP, por exemplo, como relatou a reportagem do Alma Preta, em 2015.

Entrevista: Pedro Borges / Entrevistada: Ashley Yates, integrante do Black Lives Matter / Tradução: Pedro Borges e Pedro Figueira

Ashley Yates é organizadora e estrategista da campanha Black Lives Matter (Vidas negras importam). Ashley participou da articulação dos protestos em Ferguson, Missouri, depois do assassinato do jovem Michael Brown pelo policial Darren Wilson. Ela acompanha a luta anti-racista no Brasil. Ashley mostrou encanto com o momento vivido pelo movimento negro no país e descontentamento com o avanço da direita.

Quais os impactos do movimento Black Lives Matter nos EUA e na vida da comunidade negra?

Black Lives Matter, como movimento de agrupar o sofrimento negro, tem estimulado a comunidade negra nos EUA e criado uma bandeira comum para a população negra utilizar contra, não somente a violência policial, mas também as múltiplas formas de violência estatal, a pressão econômica e o racismo estrutural.

Por que é necessário afirmar que “black lives matter” (as vidas negras importam)?

Nós temos que afirmar que as vidas negras importam pelo mesmo motivo que a gente deve afirmar que todas as vidas importam, porque todos os seres humanos merecem o mínimo de dignidade e muitas vezes as vidas negras não têm isso.

Por que algumas pessoas ficam incomodadas com o fato da expressão Black Lives Matter (vidas negras importam) ser usada no lugar de All Lives Matter (todas as vidas importam)?

Acreditar que as vidas negras importam não significa dizer que nenhuma outra importa. Afirmar que as vidas negras importam não vem no sentido de desconsiderar as demais. Amar pessoas negras não é necessidade de ninguém, mas às vezes, por conta do pensamento das pessoas, é necessário afirmar.

Historicamente, a população branca afirma sua identidade negando direitos básicos à população diferente deles. As pessoas que ficam incomodadas com a frase “Black Lives Matter” são normalmente temerosas de que o que elas deram para nós possa retornar em algum sentido. Esse é um problema para eles resolverem e superarem, não nosso.

Por que a união negra é tão importante?

A unidade negra é a chave para a transformação do poder e para a organização de pessoas que têm sido discriminadas e julgadas por conta da cor da sua pele. É necessário que a gente se veja refletido em cada um através das barreiras que a opressão, a colonização e os efeitos que o racismo criaram de maneira intencional para nos manter numa condição de não nos identificarmos uns com os outros. Aqueles que se beneficiam da nossa opressão são dependentes dessa divisão, para assim manter a falsa supremacia que na verdade só é positiva para a minoria dos seres humanos em todo o mundo.

O movimento Black Lives Matter age de maneira a impedir a violência policial contra a comunidade negra. Esse é o princípio central? Quais são os demais da organização?

Ênfase significativa tem sido dada em um determinado problema social, de como com frequência aqueles que são responsáveis por servir e proteger são na verdade os que atuam de maneira extrajudicial (fora da lei), matando e enfrentando nenhuma consequência.

Isso acontece em partes porque o movimento Black Lives Matter ganhou atenção mundial nas redes sociais depois da não acusação de Darren Wilson, em St. Louis, minha cidade natal, em Missouri. Wilson atirou em um desarmado adolescente negro, Michael “Mike” Brown, e por meses nós promovemos massivos protestos.

Durante esse momento, a polícia jogou gás em nós, atirou balas de borracha, prendeu e cometeu mais uma série de atos de violência contra todos aqueles que estavam protestando não só contra a morte de Mike Brown, mas contra as muitas anteriores. Imediatamente depois, protestos em solidariedade aconteceram em centenas de cidades por todo o mundo, e em muitos casos a frase Black Lives Matter foi utilizada para descrever a causa.

Enquanto a violência policial estava motivando a movimentação e continua a ser um motivo para nos motivar, as pessoas começaram a trabalhar sob a ideia de as vidas negras importam em todos os aspectos da vida. Pessoas lutam pela vida negra através da economia, ecologia e por muitas outras questões em que todos entendem que as pessoas negras frequentemente recebem o pior e todos nós concordamos com um ponto: é hora de mudança!

Qual a sua opinião sobre o show de Beyonce durante o Super Bowl e de Kendrick Lamar’s durante o Grammy? Qual foi a repercussão nos EUA?

Tem uma frase entre as pessoas negras mais velhas aqui nos EUA que é a seguinte: “Quando o movimento é forte, a música vai ser forte”. A elevação da identidade negra no mainstream musical é um reflexo direto do incansável trabalho dos organizadores e das destemidas ações de toda comunidade negra, que têm crescido nos últimos anos.

Como você enxerga a possibilidade do Donald Trump ser o presidente americano?

A ofensiva racista contra o primeiro presidente negro dos EUA, alimentada pelas falsas narrativas de que o mandato de Obama curou em alguma medida o racismo americano, corrupção e hipocrisia, significa que o nosso momento cultural é mais bem vindo do que nos últimos anos ao racismo declarado.

A população negra está lutando de maneira coletiva e negando a injustiça de um modo que a minha geração não havia visto. O medo da equidade por parte de racistas e brancos proporciona o suficiente de votos para de maneira simbólica eleger o racista Donald Trump, como uma força contrária à ideia de que a opressão não é natural e que as vidas negras importam.

Entre os princípios do movimento Black Lives Matter, estão o destaque para a luta internacional contra o racismo e a empatia entre a comunidade negra. Como você avalia a situação da população negra no Brasil?

Nossos opressores se organizam de maneira global, por isso precisamos fazer o mesmo. Quando a polícia lança gás em mim ou em Ferguson, eles estão usando táticas e equipamentos conquistados por meio de visitas e relações com Israel, que os usam contra a Palestina no Oriente Médio.

Os policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) que atuam nas favelas brasileiras foram treinados pelo FBI e pela polícia das cidades de Chicago e Los Angeles, duas das mais violentas e corruptas polícias de nosso país. A razão da organização global e da conexão internacional também é explicada por isso e por causa do imperialismo e da economia global.

Como você avalia o movimento negro brasileiro na atuação contra o racismo?

O Brasil vive um belo momento de crescimento do orgulho de ser afro-brasileiro. As mulheres negras brasileiras tiveram a sua marcha de orgulho no ano passado e o número de pessoas se identificando enquanto pardos ou pretos é maior do que em qualquer outro momento. Os negros brasileiros parecem viver o momento do Orgulho Negro e do Poder Negro (Black Power) como o movimento negro nos EUA viveu durante os anos de 1970 e 1980.

Mais negros brasileiros estão frequentando as universidades, o que pode crescer a perspectiva da população e alimentar o orgulho negro, principalmente por meio do conhecimento histórico.

O problema em potencial do acesso vem quando aqueles que não gostam de nós ou que não carregam o nosso interesse no coração, passam a controlar cada vez mais a educação.

Qual a importância de discutir gênero e sexualidade dentro do movimento negro?

Orgulho negro deve incluir toda a população negra, por isso a afirmação de diferentes gêneros e sexualidades. É importante o entendimento de como as muitas interseccionalidades oprimem não só a comunidade negra, mas como também a comunidade negra é atingida pelo sexismo, homofobia e transfobia. Isso é necessário para uma luta conjunta em que todos possamos ser por completo quem somos.

Nós temos no Brasil, assim como nos EUA, uma ideologia racista e fascista ganhando força. Os partidos de direita querem dar um golpe de estado no país. O que você pensa sobre isso? Qual o problema dessa situação para a população negra?

Existem no Brasil cinco famílias que controlam 70% de todos os veículos de comunicação. Aqui nos Estados Unidos, os seis maiores conglomerados de mídia controlam 90% de tudo o que se assiste, lê e escuta.

Nós estamos vendo os reais efeitos disso na nossa corrida eleitoral, em que nós temos um candidato que se identifica como socialista concorrendo à presidência como um democrata. O raciocínio posto foi que ele sabia que tinha que se inserir no panorama do nosso sistema (efetivamente) de dois partidos para ganhar tempo de debate, cobertura de TV e ser considerado um sério candidato.

Isso também é sentido na quantidade de tempo midiático que Donald Trump recebe– quem vomita uma retórica racista e encoraja violência nos seus comícios e em outros momentos. Ele está na frente de todos os nossos candidatos a presidência por uma larga margem no atual momento. Todos os seis principais veículos de mídia escolheram divulgar somente os seus discursos de vitória, ignorando completamente todos os candidatos à esquerda.

Como nos protestos e nos ataques da mídia no Brasil, o motivo é porque ele representa os interesses da direita, dos conservadores, das classes médias altas e do grupo racial privilegiado. Isso é uma direta reação aos protestos que eu ajudei a organizar em Ferguson que se espalharam em todo o país e então ganhou uma solidariedade internacional depois da morte de Mike Brown.

As massas populares estão querendo mudanças em nossos dois países usando a única ferramenta entendível que nós temos – nossos números. Mas mesmo que a gente controle o governo ou parte dele, a gente precisa encontrar um jeito de combater a guerra da informação que conspira ativamente para tirar das pessoas o seu real poder.

Texto: Pedro Borges / Imagem: Moska Santana / Infográfico: Solon Neto

Cursos como jornalismo e editoração vão receber estudantes cotistas em 2017

Os cursos de jornalismo e editoração terão cotas raciais para o vestibular de 2017 da Universidade de São Paulo (USP). A decisão foi tomada em reunião do Conselho do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicação e Artes (ECA) no dia 1 de junho.

A reitoria da universidade encaminhou às unidades e aos departamentos a possibilidade de até 30% das vagas serem preenchidas via Sistema de Seleção Unificada (SiSU). O mecanismo é o responsável por selecionar os concorrentes inscritos no ENEM.

Departamento de Jornalismo e Editoração decidiu por adotar os 30% de vagas permitidas pela reitoria. 90% destas, ou seja, 27% dos ingressantes nos cursos em 2017 serão provenientes de escolas públicas. Pouco menos da metade dos 30%, o que representa 13,5% das vagas de cada uma das duas carreiras na USP, serão destinadas para negros e indígenas. As universidades estaduais paulistas têm uma meta estabelecida pelo governo estadual de chegarem até 2018 com 50% de alunos oriundos de escolas públicas e, destes, 35% de pretos, pardos e/ou indígenas.

Os cursos com provas de habilitação específica, como as carreiras de artes, não podem adotar o SiSU, segundo a reitoria. Isso era imposto à toda a ECA, o que impossibilitava a adoção pontual desses mecanismos inclusivos de seleção na área de comunicação. A oportunidade das decisões serem tomadas nos diferentes departamentos foi a possibilidade do jornalismo e a da editoração adotarem essa postura pioneira na USP. A tendência é que outros cursos tomem a mesma medida, como o de Educomunicação.

O professor Dennis de Oliveira, chefe do Departamento de Jornalismo e Editoração e militante da Rede Quilombação, foi um dos responsáveis pela mudança e ressalta a sua importância no campo da comunicação. “Se nós partimos do pressuposto que vivemos em uma sociedade midiatizada, o racismo midiático tem um papel fundamental na cristalização do racismo estrutural. Nossas pesquisas mostram que o negro é invisibilizado, minorizado, difamado esteticamente e objetificado nas narrativas midiáticas”. Para ele, a medida também é necessária dentro da editoração. “É fundamental termos profissionais nesta área uma vez que a literatura negra que sobrevive heroicamente graças à tenacidade de escritores afrodescendentes terá um apoio muito maior”.

Dennis espera que outros cursos adotem a mesma postura e ressalta que a medida é apenas mais uma etapa para a maior inclusão de negros no ensino público superior. “A nossa luta é mais ampla, é para que as cotas raciais sejam instituídas em todo o sistema de seleção da USP e não apenas nas vagas do SiSU. Por isto, considero esta medida apenas um primeiro passo”.

Histórico de luta por cotas

O professor Dennis de Oliveira recorda o histórico de lutas para que a USP, assim como as demais universidades paulistas, adotasse a política de cotas. O enfrentamento que começou nos anos de 1990 com Fernando Conceição, um dos criadores do Núcleo de Consciência Negra da USP, ganhou corpo a partir dos anos 2000, quando o Brasil assinou tratados internacionais na conferência de Durban, África do Sul, comprometendo-se a adotar políticas de combate ao racismo.

Em 2003, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) adota o sistema de cotas, medida também incorporada na sequência pela Universidade de Brasília, UnB. Em 2012, o governo Dilma Rousseff adota as cotas como lei, fator que resulta na sua implementação nas universidades federais.

Neste mesmo período, 2012, o governo Geraldo Alckmin lança o Programa de Inclusão por Mérito no Ensino Superior Público Paulista (PIMESP). A proposta era criar um curso preparatório de dois anos a distância para avaliar o desempenho de alunos cotistas e assim decidir ou não pelo seu ingresso em uma das universidades estaduais.

Dennis recorda que, apesar de parte do movimento negro da época aceitar dialogar sobre o tema, houve grande rejeição à proposta. “Fizemos um ato grande na Câmara Municipal de São Paulo em fevereiro de 2013 no mesmo dia em que o governo estadual chamou o movimento negro para negociar o Pimesp – poucas entidades apostaram na negociação”.

O professor destaca a dificuldade das cotas nas estaduais paulistas devido ao reconhecimento internacional de qualidade de pesquisa e inovação tecnológica. Para ele, além do fato do estado de São Paulo ser governado por forças conservadoras há décadas, o movimento negro não compreendeu a importância e as singularidades da luta pelas cotas raciais. “Não se trata apenas de abrir oportunidades para jovens negras e negros ingressarem em universidades de ponta, mas, fundamentalmente, de intervir em espaços que formam os quadros que ocupam os espaços de poder. Quase todos os principais editores e publishers dos grandes meios de comunicação brasileiros vieram da USP. As principais inovações tecnológicas, científicas, quadros das áreas de ciências exatas, humanas e da saúde saem destas universidades. Por isto, cotas na USP, Unicamp e Unesp são estratégicas. E não é a toa que a resistência é maior”.

As cotas são uma das principais pautas dos coletivos negros dentro das universidades. Mais do que atos e debates, a pressão das organizações estudantis negras foram fundamentais para colocar o debate na agenda do ensino superior no país. A UNESP foi a primeira a sair na frente com as cotas dentre as universidades paulistas, em 2014. Já a USP insistiu no seu sistema de bônus e de dois anos para cá tem implantado este sistema de reserva de vagas via SiSU. A USP ainda resiste em colocar cotas no sistema do vestibular da Fuvest.

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