Curso do campus de Ribeirão Preto-SP é o mais concorrido da Fuvest
Texto: 
Pedro Borges / Edição de Imagem: Solon Neto

Bruna Sena, 17 anos, natural de Ribeirão Preto (SP), estudou durante toda a vida em escola pública. A partir de 2017 e durante os próximos anos, a sina deve continuar. Bruna foi aprovada em primeiro lugar no curso de medicina da USP de Ribeirão Preto, o curso de graduação mais concorrido da universidade.

O desejo pela medicina é recente, surgiu em 2016, quando uma amiga contou sobre o Cursinho Popular da Medicina (CPM). “É um projeto incrível pois permite que jovens de baixa renda tenham a oportunidade de ingressar na universidade”, conta Bruna.

Durante os estudos, Bruna se sentiu por diversas vezes desmotivada. Mesmo se sentindo inferior aos demais concorrentes, não desanimou. Hoje, a estudante exalta a conquista. “Estudei muito, é claro, mas não foi um mérito só meu, tive apoio familiar, principalmente de minha mãe, e também tive suporte nos estudos- embora houvesse uma luta diária pra 'nadar' contra a corrente em um sistema educacional tão desigual”.

Última pesquisa divulgada pela Fuvest em 2015, acerca da diversidade racial dos ingressantes na USP, mostra a enorme desigualdade entre negros e brancos. Se comparados os 10 cursos mais concorridos da universidade, das 794 vagas, o número de brancos variava entre 71,4% (audiovisual) e 84,4% (arquitetura em São Carlos).

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Por isso, Bruna destaca a importância de uma mulher, negra e pobre ingressar em primeiro lugar no curso mais elitizado da USP. “A representatividade é importantíssima e lutaremos por uma USP (e demais universidades) mais diversa, principalmente em um curso como o de Medicina. Espero inspirar muitas pessoas e mostrar que é possível sim”.

Uma das ferramentas utilizadas para a maior entrada de estudantes negros nas universidades foi a adoção da política de cotas. A UNESP é a única das estaduais paulistas a aderir ao sistema, algo ainda negado pela Unicamp e a USP. Bruna acredita que, de momento, é importante que a medida seja adotada como forma de diminuição das desigualdades. “Qual a proporção de negros no ensino superior? O passado histórico do Brasil, o que vivemos hoje, essa enorme disparidade entre brancos e negros, é uma consequência de nosso passado escravista e das subsequentes políticas de exclusão e marginalização da comunidade negra. Esse fatores não podem ser desconsiderados”.

A jovem reconhece a luta histórica por uma maior participação de estudantes negros nas universidades e pretende se juntar ao Coletivo Negro da USP de Ribeirão Preto. “Acho muito importante fazer parte do coletivo para compartilhar informações e experiências e, assim, aprender também”.

Flores de Baobá é o mais novo projeto da cineasta Gabriela Watson 

Texto e Edição de Imagens: Solon Neto 

Filmado simultaneamente no Brasil e nos Estados Unidos, Flores de Baobá é um documentário que aborda racismo e acesso à educação como um problema internacional.

Através das histórias das professoras de ensino médio, Storm Foreman (Nyanza Bandele), da Filadélfia, Estados Unidos, e Priscila Dias, da cidade de São Paulo a diretora Gabriela Watson Aurazo retrata a luta das comunidades negras dos dois países na tentativa de garantir o direito à educação, e é resultado de dois anos de pesquisa.

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Flores de Baobá usa poesia ao lado da observação para abordar as proximidades entre mulheres negras e as lutas locais relacionadas à educação e igualdade. O documentário questiona a desigualdade no acesso à educação de qualidade pela população negra, aponta necessidades curriculares como uma abordagem positiva da ancestralidade africana, e evidencia o papel das mulheres negras nesse processo. Nyanza e Priscila são postas lado a lado para mostrar essas semelhanças que a população negra tem em suas demandas em diversos países, e se mostram modelos inspiracionais no ativismo anti-racista.

Financiamento Coletivo

Com o objetivo de lançar o trabalho ainda em 2017, Gabriela divulgou no final do ano passada um projeto de financiamento coletivo para o filme. Com meta de R$ 35.000,00, o projeto já alcançou 3% do montante com 17 apoiadores.

Para contribuir basta acessar o projeto aqui, cadastrar-se e realizar a doação. De acordo com a contribuição escolhida, o projeto permite algumas regalias que vão desde sessões exclusivas com prévias do filme e acesso à trilha sonora, a ingressos para a estreia e eventos com a diretora do filme. As contribuições serão arrecadadas até o dia 22 de Março.

 

Formada em Comunicação pela Cásper Líbero e mestranda pela Master Fine Arts da Universidade de Temple, nos Estados Unidos, a diretora Gabriela Watson tem entre seus trabalhos os documentários "Nosotros, afroperuanos" e "Zeca", além dos filmes "O Poeta da Casa Verde" e "CinEdu – Cinema, Educacao e a Formação do olhar". Destaque,"Nosotros, afroperuanos chegou a ser exibido em mais de 10 países. Além de Gabriela, o filme conta ainda com uma equipe de produras executivas. São elas: Dra. Doris Derby, ex-ativista do Movimento dos Direitos Civis no Mississipi, fotógrafa documental; Joyce Prado, fundadora da "Oxalá Produções" e diretora de obras como a websérie "Empoderadas"; Melissa Beatriz Skolnick, documentarista e multimedia storyteller, ativista em ONGs da Filadélfia.

Links:

Página no Facebook: https://www.facebook.com/floresdebaoba/?ref=page_internal

Projeto no Catarse: https://www.catarse.me/floresdebaobafilme

Website: http://www.baobabflowersfilm.com/

FICHA TÉCNICA

Ano de Lançamento: 2017
Direção e Argumento: Gabriela Watson Aurazo

Produção Executiva: Doris Derby Joyce Prado, Melissa Skolnick

Direção de Fotografia: Hannah Angle, Tomires Ribeiro e Renato Cândido

Trilha Sonora: Lucas Cirillo e Giovani Di Ganzá

Assistentes de câmera: Quynh Le, Kayla Watkins

Assistência de Direção: Renata Martins

Assistência de Produção: Aiko Brown, Mark Kaercher, Pamella Aleixo, Talícia Vênancio, Jessica Cruz

Som Direto: Renata Martins, Ana Julia Travia, Lucas Wozniak, Felipe Faria de Miranda

Montadora: Jéssica Queiroz

Assistente de edição: Bianca Santos

Consultoria: Liliane Braga, Maria Giraldo, Dançarina: Cleonice Fonseca 

Texto: Pedro Borges / Foto: Hugo Lima

 Estudante quer criar uma linha de produtos voltada para cineastas negros

“Sempre que encontro alguma dificuldade durante as filmagens e não tenho recurso para executar, nasce o projeto de um novo equipamento”. Esse é Hugo Lima, estudante de Engenharia da Computação na Universidade Veiga de Almeida (UVA-RJ), cineasta, militante do movimento negro e produtor dos próprios equipamentos.

Nascido e criado na cidade do Rio de Janeiro, o jovem, que estudou em escolas pública e particular durante o ensino fundamental, logo na adolescência passou a frequentar o centro técnico estadual Visconde de Mauá. “Como sempre fui apaixonado por tecnologia, quis estudar eletrônica”.

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A paixão, que seguiu pela vida adulta, o acompanha mesmo durante os momentos de folga. “No meu tempo livre eu gosto de criar, literalmente. Estou sempre programando algum micro-controlador ou algum aplicativo. Senão, estou filmando, editando fotos ou escrevendo alguma coisa”.

Hugo foi inclusive notícia do Blog Olhar Digital, quando pedia financiamento coletivo para construir uma ferramenta capaz de abrir fechaduras elétricas, controlar a temperatura de um ambiente fechado, descobrir se há vazamento de gases, saber em tempo real o gasto de energia, e ainda controlar a intensidade das lâmpadas.

O envolvimento com o audiovisual não demorou a vir. No final de 2015, por intermédio da irmã, Nathali de Deus, conheceu o coletivo negro Azoilda Trindade, do Centro Federal de Educação Tecnológica (CEFET-RJ). A vontade de registrar as atividades do grupo o levou a gravar seu primeiro documentário, “Negros Dizeres”. 

A partir de então, as coisas caminharam. A namorada Carol Netto o alertou sobre o Festival 72h e, mesmo sem muitas esperanças de vencer, reuniu os colegas e se inscreveu. O resultado foram dois prêmios, 3° Melhor Curta e Melhor Roteiro. “Ficamos muito felizes e acabamos criando um coletivo com o mesmo nome do filme “Siyanda”, que em Zulu significa “Estamos Crescendo”. Desde então temos produzido juntos”.

Luz, câmera e criação

Foi durante esse processo que surgiu a necessidade de construir seus próprios equipamentos. O desejo de melhorar a qualidade dos vídeos logo esbarrou no valor dos materiais. Foi nesse momento que Hugo colocou em prática sua facilidade e experiência em projetos de automação e eletrônica.

Ele enaltece os pontos positivos de construir seus próprios materiais. “Eu consigo exercer minha criatividade para além do fazer o audiovisual. Consigo um equipamento com qualidade semelhante a um equipamento profissional por até 1/20 do preço de mercado e consigo compartilhar esse conhecimento com minha comunidade”.

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Hugo (agachado e segurando troféu) e toda equipe do curta Siyanda

O alto valor dos equipamentos audiovisuais se transformam em uma barreira para a maior participação de negras e negros no mercado, de acordo com o cineasta. “Eu entendo esses valores extremamente altos dos equipamentos como uma estratégia racista de manter o poder da comunicação onde sempre esteve: longe de nós”. Ele acredita já ter economizado cerca de R$ 5.000 com a produção de seus equipamentos.

Hugo lamenta a falta de negros nesses espaços, muito importantes para a construção do imaginário coletivo. “Eu, como a maioria de nós, aprendi a entender que quem fala com você através de uma tela merece credibilidade só por estar ali. E esse ‘poder’ sempre foi usado contra o povo preto, através da má representação dos pretos e pretas na TV e no cinema, construindo a ideia de um negro/a inferior”.

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Alguns dos produtos criados por Hugo Lima

As produções do coletivo Siyanda seguem. Nathali de Deus dirige o curta “Manga com Leite” e Hugo, o documentário “Quem nos educa”. O planejamento de novas obras é o pontapé inicial para a construção ferramentas inéditas. “Alguns equipamentos estão em processo de aprimoramento de software. Estou desenvolvendo um conjunto de luminárias inteligentes que se auto-regulam durante a filmagem. Pretendo criar uma linha de equipamentos para cinema e audiovisual, de baixo custo e alto desempenho, voltada para cineastas negros”.

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