Entrevista: Pedro Borges / Edição de Imagem: Pedro Borges

1 – Como foi o processo de construção da sua identidade, bicha preta trans?

Eu cresci sob uma educação muito religiosa, sob os preceitos e normas das Testemunhas de Jeová. E quando eu fui desassociada, por ser vista saindo com roupas ditas femininas, me perguntaram se eu queria ajuda com isso. E eu disse que não. Acho que a partir desse momento eu tomei pra mim o bastião de decisão do meu próprio corpo. Como se, então, eu tivesse experimentado do fruto da árvore do conhecimento, do que é bom e do que é mau. E então eu mesma tomaria e escolheria quem eu seria dali pra frente.

A partir desse dia eu comecei a fazer aulas de dança e teatro e a vivenciar meu corpo enquanto movimentos e experiências que até então me eram negadas. A minha sexualidade me era proibida. Passei primeiro a ter um corpo, com diversas possibilidades de movimento e relação que eu estava descobrindo naquele momento. Mas quando uma amiga, que estava se reconhecendo travesti naquele período, me disse que não sabíamos o que significava 'se olhar no espelho todos os dias, e ter certeza de que o que tá sendo refletido não é você'; nesse dia algo em mim se transformou.

Então eu passei a experimentar quantas mais eu poderia ser. Quantas de mim eu estava negando, pra que se refletisse no espelho a imagem do "homem", feito à imagem e semelhança de deus. E a partir daquele dia eu passei a experimentar outras possibilidades estéticas. Dentro e, principalmente, fora da sala de ensaio, questionando as normas de um suposto corpo neutro, no teatro, e nas ruas, sob os olhares de vigilantes do gênero. E a cada dia eu sinto que fui me apropriando mais do meu corpo, do meu contexto, me reconhecendo, bicha, preta, trans, transitória, nem homem, nem mulher, nem ator, nem atriz, atroz, roteirista de minha própria história, protagonista da minha vida. Sem mais tentar alcançar um corpo ideal que não era eu, mas caminhando comigo, nesse corpo inacabado, com fronteiras e limites não tão fixos.

2- Qual é o seu espaço e qual é o espaço, de maneira geral, das pessoas trans nos diversos movimentos sociais (negro, feminista, entre outros)?

Acredito que o meu espaço, assim como de todas as outras pessoas trans, deve ser participativo. Temos que nos fazer vistas e ouvidas. Temos de trazer as nossas existências e pautas à tona. Se até agora nossas mortes não valiam a pena nem de serem choradas, hoje nossas vidas têm de ser levadas em conta. Em todos os espaços, e principalmente estes de participação social.

Linn da quebrada

3- O povo negro é extremamente marginalizado socialmente. Quais são as suas expectativas diante do avanço do pensamento e da prática conservadora?

Eu sinto que estamos no meio de um processo. Para que as mudanças realmente se efetivem, temos que invadir todos os espaços. Temos que falar sobre nossas histórias, de estar nos filmes, na música, nas mídias. Temos que produzir conhecimento. Destruir esses velhos mitos que nos condenam a determinados espaços e posições. Temos de criar novos mitos, formar redes, conexões e assim nos proteger, fortalecer e ganhar espaço. Porque realmente somos existências perigosas, porque colocamos em risco toda a fragilidade desse sistema. Mas para isso precisamos estar juntas e saber pra onde estamos indo, sabendo que vão tentar nos brecar. Precisamos ter e estar nos meios de produção, e não permitir que nossas histórias e existências sejam apagadas.

4- Como você enfrenta todas essas violências sociais com a sua música?

Eu sinto que desde que coloquei meu corpo em evidência pra mim mesma, seja no teatro, na performance ou na música, estas são formas de enfrentar toda essa violência. Pois na maioria das vezes a violência começa em casa, com a família, na escola, na igreja, nas ruas, no mercado de trabalho. E quando eu decido trabalhar, ou melhor, atuar minha existência nesses espaços, essa se torna minha arma, e também minha fragilidade. É tudo que eu tenho, meu corpo, com toda sua potência. Então, independente de onde, eu preciso existir, resistir, enfrentar e afrontar essas violências que nos apagam. E na música eu encontrei esse espaço: de ser ouvida por mais gente, de conectar pessoas com histórias muito parecidas, e assim saber que não estamos sozinhas nessa.

5- Quais expectativas você tem para a sua carreira artística?

Sendo muito sincera, eu quero conseguir trabalhar. Quero conseguir fazer isso que venho fazendo em outros espaços. Quero ser ouvida, para então pensar em onde ir. Esse lance pra mim não é mero jogo de aparências. É questão de sobrevivência, da minha existência estética, física e financeira. É questão de sobreviência para muitas outras como eu, a escória, que pra conseguir sobreviver tem de abrir mão de si mesma. Então eu quero cantar para poder viver. Quero fazer muito barulho ainda.

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6- Você já foi lida pela sociedade como homem negro e agora é lida como bicha preta trans. Consegue perceber a diferença do racismo ligado aos diferentes gêneros?

Sim. Já fui lida como homem, e compulsoriamente ainda sou. Acho até que o fazem na tentativa de tirar o poder de decisão do meu próprio corpo, como se eu não tivesse autoridade suficiente para decidir quem eu sou.

E claro que percebo as diferenças do racismo ligadas ao gênero, principalmente porque durante o processo de feminilização do meu corpo, essas violências vieram ainda com mais força. Porque enquanto eu correspondia a um gay preto, a violência já se impunha, mas quando eu fui me tornando a bichinha preta, afeminada, parece que as pessoas não sentiam vergonha de demonstrar seu ódio. Parece que eu deveria me envergonhar de estar me aliando a esse lado da margem. Eu estava me tornando uma traidora. Não bastava ser preta, tinha que ser também afeminada. E isso ainda não acabou. Parece que quanto mais feminina eu me torno, quanto mais eu borro essas fronteiras pra mim, mais as violências se apontam.

Texto: Divulgação / Edição de Imagem: Pedro Borges

Local do debate é onde se concentra o acervo do Fundo Clóvis Moura

“Clóvis Moura e a Imprensa Negra no Brasil: jornalismo de resistência” é tema do Debate Centro de Documentação e Memória (CEDEM) que ocorre no próximo dia 10 de novembro de 2016, às 18h30, na Praça da Sé, 108 – 1º andar, próximo ao metrô Sé.

O tema vem sendo objeto de pesquisa de diversas áreas do conhecimento. Neste debate, pretende-se analisar a contribuição do sociólogo, historiador e jornalista Clóvis Moura (1925-2003), considerando que essa imprensa é secular no país e as aproximações desse autor com os periódicos perpassam diversas de suas obras, entre as quais a publicação em fac-simile do título Imprensa Negra, em 1984.

Busca-se, ainda, a compreensão da maneira pela qual o estudo do “jornalismo de resistência,” praticado por Moura, foi influenciado por seus compromissos e vinculações políticas, presentes no diálogo, entre intelectuais e ativistas, relativo à chamada Questão Negra no Brasil e ao enfrentamento do racismo e sua inserção na cultura política no século XX.

Participam do evento os professores Teresa Malatian, Cleber Santos Vieira e a historiadora Soraya Moura. Teresa é mestre em História pela PUC-SP, doutora em História pela USP e livre-docente em Historiografia. Professora Titular aposentada da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Unesp, Câmpus de Franca, onde desenvolve trabalho no Programa de Pós-Graduação em História e Cultura. Tem realizado pesquisas na área de História política, com ênfase em biografias e temas ligados a história dos negros no Brasil.

Vieira é mestre em História pela Unesp, Câmpus de Franca e doutor em Educação pela USP. É professor adjunto da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Unifesp, onde atua no Departamento de Educação e no Programa de Pós-Graduação em Educação e Saúde na Infância e na Adolescência. É membro do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB-Unifesp).

Filha de Clóvis Moura, Soraya é graduada em História pela USP e proprietária da empresa Armazém de História Projetos Culturais. Há mais de vinte anos atua na área de pesquisa histórica e organização de acervos institucionais.

A condução do debate estará a cargo da historiógrafa do CEDEM Solange Souza. Graduada em História pela USP, possui experiência na área de Ciência da Informação, com ênfase em Arquivologia.

Serviço:

Clóvis Moura e a Imprensa Negra no Brasil: jornalismo de resistência Data e horário: 10/11/2016, 5ª feira às 18h30; Local: Praça da Sé, 108 – 1º andar (metrô Sé); Certificado de participação a ser retirado durante o evento - Duração: 2h30; Informações: (11) 3116–1701- eventos@cedem.unesp.br Inscrições gratuitas: http://www.cedem.unesp.br/#!/form/ www.cedem.unesp.br / www.facebook.com/cedemunesp

Texto: Juninho Jr. / Edição de Imagem: Vinicius Martins

A idéia de uma sociedade livre, onde cada indivíduo a partir do seu próprio esforço deve construir a sua trajetória, é bastante sedutora. Afinal, somos todos humanos, somos todos capazes, portanto, podemos chegar onde quisermos e senão atingirmos os objetivos estabelecidos, a culpa é única e exclusivamente sua.

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