Texto e fotos: Pedro Borges

Para ativista negra norte-americana, a divisão racial no Brasil e nos EUA é diferente

No dia 28 de julho, quinta-feira, a partir das 19h, Deborah Small participou do debate “Cidades, Políticas de Drogas e Combate ao Racismo”, ao lado de Nathalia Oliveira, Iniciativa Negra por uma Nova Política de Drogas, e Djamila Ribeiro, Secretária Adjunta de Direitos Humanos e Cidadania.

Deborah iniciou a sua apresentação relacionando racismo e política de drogas. Para ela, nos EUA, há a mesma quantidade de drogas tanto nos bairros negros quanto nos brancos.A diferença está no tratamento dado pelo Estado e pela polícia, agentes repressores da comunidade negra. Deborah pensa que a atual política de drogas é na verdade uma forma de atacar de maneira violenta negras e negros.

Quando perguntada sobre a diferença entre o Brasil e os EUA, Deborah apontou que lá há uma distinção marcante entre negros e brancos no acesso aos direitos. De acordo com a ativista norte-americana, a divisão no Brasil é entre negros e não negros. Aqui, os demais grupos raciais usufruem de serviços enquanto a comunidade negra continua marginalizada.

No dia 29, sexta-feira, Deborah encerra a sua passagem por São Paulo e pelo Brasil com dois encontros. Às 15h, no bairro da República, em evento fechado, a ativista discute com convidados o tema da política de drogas sob as perspectivas de raça e gênero. Mais tarde, às 20h, Deborah visita o Sarau do Círculo Palmarino, em Embu das Artes.

Deborah Small ao lado de Djamila Ribeiro e Nathalia Oliveira

Texto: João Victor Belline / Foto: Wikimapa / Edição de imagem: Vinicius Martins

Na estreia da série de textos de atletas negros e negras que marcaram os esportes olímpicos,
a história da ala do basquete, Janeth Arcain

“Democratizar o acesso ao esporte de qualidade, preconizando a prática esportiva baseada nos valores, de forma a promover o basquetebol como fator de desenvolvimento global dos alunos e utilizando-o como ferramenta transformadora da sociedade e exercício da cidadania”. Essa citação, vinda da página de seu Instituto, sintetiza o trabalho exercido por uma das maiores atletas que já representaram o Brasil através do esporte. A maior detentora de títulos no basquetebol brasileiro, a primeira a jogar na liga americana, vencendo-a quatro vezes consecutivas. Esses ainda são poucos predicados para mensurar o tamanho dessa mulher. Chegou a hora de conhecer um pouco de Janeth Arcain.

No ano de 1983, começa uma linda história de amor entre uma menina de infância simples e uma bola alaranjada com listras pretas. Com então catorze anos, Janeth foi levada pela professora de educação física à Catanduva, onde ela começou sua carreira no Clube Atlético Higienópolis. A menina, nascida no dia 11 de abril de 1969, registrada em Carapicuíba, precisou de apenas três meses no time para conquistar o seu primeiro título: campeã estadual na categoria mirim, sendo a melhor jogadora da competição.

A garota do bairro do Bom Retiro, e que sempre amou participar das aulas de educação física, começava a trilhar o seu vitorioso caminho. As primeiras cestas com a Seleção Brasileira vieram mesmo antes da profissionalização, na categoria juvenil. Em 1986, apenas três anos após começar a jogar, Janeth já se tornava campeã sul-americana juvenil, em campeonato disputado na Colômbia. Apesar da pouca idade, ela também começou a figurar na seleção principal no ano de 1987. Tanto é que naquele ano, Janeth conquistou um vice campeonato continental na Argentina, pela equipe juvenil, e a medalha de prata nos Jogos Pan-americanos de Indianápolis, no time adulto. Alguns anos depois, em 1991, a medalha de ouro viria no Pan-americano de Havana.

Entre os clubes brasileiros, ela atuou por BCN (SP), Jundiaí (SP), Constecca Sedox (SP), Sorocaba (SP), Santo André (SP), Vasco da Gama (RJ), São Paulo (SP) e Ourinhos (SP), conquistando 27 títulos entre os anos de 1986 e 2004, entre Jogos Abertos do Interior, Jogos Regionais, Campeonato Paulista, Estadual do Rio, Taça Brasil, Campeonato Nacional e Campeonato Sul-americano de clubes. Apesar da infinidade de glórias com agremiações nacionais, os maiores feitos da atleta paulista foram com a camisa do Brasil e na liga americana, a WNBA (Women’s National Basketball Association).

No ano de 1994, Janeth ajudou a compor o mais notável trio que a Seleção Brasileira de Basquete já viu. Ao lado de Paula e Hortência, ela conquistou um dos seus dois maiores títulos da carreira, palavras da mesma: o Título Mundial de Seleções, na Austrália. Dois anos depois, nos Jogos Olímpicos de 1996, o trio fez história mais uma vez e conquistou a medalha de prata, em Atlanta, perdendo para a equipe americana nas finais. A competição marcou a despedida de Hortência das quadras e deu início à história de Janeth em solo estadunidense. No ano seguinte, a brasileira foi contratada pelo Houston Comets para atuar no mais competitivo campeonato feminino de basquete, a WNBA.

Durante os sete primeiros anos no Houston, Janeth mostrou toda sua regularidade e comprometimento. Ela atuou em todas as partidas da equipe entre 1997 e 2003, algo notável no esporte de alto rendimento. Mas a brasileira fez algo ainda mais incrível: conquistou o tetracampeonato da liga e, junto ao Houston Comets, estabeleceu a primeira dinastia da WNBA. Segundo a própria Janeth, o tetra representa um dos seus dois mais importantes títulos da carreira. Somando os números da primeira com os da segunda passagem, no ano de 2005, Arcain – já que nos Estados Unidos existe o hábito do uso do sobrenome no uniforme – teve média de 10,4 pontos e 30,1 minutos por partida, fazendo história com a camisa nove.

Após os quatros títulos consecutivos pelo Houston, ela voltou a fazer história com a camisa verde e amarela. Após Hortência e Paula terem se aposentado da Seleção Brasileira, Janeth tornou-se a referência da equipe. Ela virou a capitã em 1998 e passou a ser a jogadora mais importante do selecionado brasileiro. E não decepcionou. Nos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000, liderou a Seleção que garantiu a medalha de bronze para o Brasil e ainda foi a cestinha, jogadora que mais anotou pontos.

Dois anos depois, em 2002, no dia 5 de fevereiro, a camisa nove fazia uma das suas maiores cestas. Dessa vez, fora de quadra. Fundou o Instituto Janeth Arcain, que atende jovens e ajuda no desenvolvimento físico e mental através da prática esportiva. Hoje, o Instituo atua em cinco cidades, Atibaia (SP), Bragança Paulista (SP), Cubatão (SP), Santo André (SP), onde fica a sede, e João pessoa (PB).

Após 24 anos de carreira, em 2007, Janeth teve o seu último ato como jogadora de basquete. Ela levou o Brasil a conquistar a medalha de prata nos Jogos Pan-Americanos realizados no Rio de Janeiro. Ela se despediu da Seleção Brasileira como a terceira maior cestinha, tendo participado de 138 jogos oficiais e anotado 2247 pontos. Mas a sua relação com o basquete não acabou ali. Além de ajudar crianças através do basquete, ela foi contratada em 2009 para ser assistente da Seleção Brasileira e também comandar as categorias de base.

Em 2015, ela entrou para o Hall da Fama e se tornou a terceira brasileira a arquivar o feito. Antes dela, Hortência e Paula haviam recebido a homenagem em 2006. Janeth foi um exemplo e demonstra exatamente o comprometimento que o esporte exige. Como a mesma declara, “para vencer é preciso muita seriedade, dedicação e amor”. Sem dúvidas, Janeth é tudo isso. E mais um pouco.

Texto e fotos: Pedro Borges

Militantes e comunicadores negros de São Paulo conversaram com a ativista norte-americana Deborah Small

No dia 27 de julho, quarta-feira, Deborah Small cumpriu a sua primeira agenda na cidade de São Paulo. Depois de dialogar com movimentos sociais no Rio de Janeiro e na Bahia, a ativista negra norte-americana iniciou os seus encontros na capital paulista às 19h na TV Drone, Bela Vista.

Militantes e jornalistas negros perguntaram durante 2h30min para Deborah sobre os malefícios da atual política de drogas adotada por Brasil e EUA, os efeitos disso para a comunidade negra, assim como outros modelos de política de drogas.

Deborah Small pede justiça para o caso de Luana Barbosa

Deborah acredita que a chamada “guerra às drogas” é na verdade uma guerra à pobreza e uma guerra contra negras e negros. Por isso, o envolvimento de pretas e pretos se faz necessário para modificar o eixo de debate sobre o assunto, ainda pautado e discutido em meios brancos e acadêmicos.

Ao final, Deborah e todos os participantes tiraram uma foto segurando um cartaz que pedia justiça para Luana Barbosa dos Reis, mulher negra e LGBT, que faleceu com isquemia cerebral e traumatismo craniano dias depois de ser espancada por três policiais em Ribeirão Preto, interior de São Paulo.

A atividade foi transmitida ao vivo pela TV Drone e pode ser vista abaixo a partir dos 39 minutos de vídeo.

 

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