Texto: Pedro Borges / Fotos: Pedro Borges

É o que pensa Débora Maria da Silva, fundadora das Mães de Maio

Na noite de 17 de Novembro, na sala dos estudantes da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, cerca de 500 pessoas participaram do evento de lançamento do livro “Mães em Luta: dez anos dos crimes de maio de 2006”. As centenas de militantes do movimento negro e de periferia acompanharam também o surgimento da campanha #BlackBraziliansMatter e participaram do ato em frente à Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, em memória aos cinco jovens assassinados na zona leste da capital.

A fundadora do movimento Mães de Maio, Débora Maria da Silva, fez uma avaliação positiva de toda a noite. “Eu acho que a resistência de vocês faz o meu caminhar, eu me alimentar, porque não ficou só na morte do meu filho, ficou na morte de vários filhos de maio. Cada um cai, é como se caísse meu filho de novo. É torturador, é um sofrimento que nós temos dentro de nós, porque a gente se põe no lugar das mães. Então, quando a gente vê o lançamento de um livro desse, é como se ressuscitasse um pouco dos nossos filhos”.

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Milton Barbosa, fundador do Movimento Negro Unificado em 1978, também enalteceu a ato de resistência das Mães de Maio. “Eu achei que a atividade foi muito boa, tinha pessoas muito representativas, pessoas de luta. Acho que é uma atividade que vai se reproduzir por conta da presença das pessoas que vão trabalhar, passar para outras. Foi muito bom, muito interessante”.

Memória aos cinco jovens assassinados

Depois de toda a cerimônia, os manifestantes caminharam em direção à Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. O protesto, marcado por velas e retratos em homenagem às vítimas do Estado brasileiro, foi uma denúncia ao genocídio do povo negro e periférico e um momento de memória aos cinco jovens assassinados na zona leste da cidade.

Jonathan Moreira Ferreira, 18 anos, César Augusto Gomes Silva, 20, Caique Henrique Machado Silva, 18, Jonas Ferreira Januário, 30, e Robson de Paula, 17, desapareceram em 21 de Outubro, após saírem de carro da zona leste da capital paulista para uma festa em Ribeirão Pires, Grande São Paulo.

Os jovens foram encontrados no dia 6 de Novembro, duas semanas depois de desaparecerem, em estado avançado de decomposição e com marcas de tortura. Um dos meninos estava decapitado. A Ponte Jornalismo apurou que, algumas das dez baladas encontradas na cena do crime, de munição .40, pertencem à Polícia Militar de São Paulo. O rastreamento foi feito pela própria Corregedoria, órgão fiscalizador da corporação.

A Ponte também revelou que policiais militares consultaram os dados de dois dos cinco jovens que foram encontrados mortos. Outro forte índico de participação da polícia na morte dos jovens é fruto de uma mensagem de Jonathan, antes de desaparecer. Ele enviou áudio para uma amiga dizendo que havia sido parado pela polícia. “Ei, tio. Acabo de tomar um enquadro ali. Os polícia tá me esculachando”, disse o jovem.

Débora recorda que a resistência diante do genocídio é histórica. Para ela, a união entre os movimentos sociais deve se estreitar para fazer frente diante do Estado. “A periferia, a favela é a senzala na nossa percepção porque é para onde eles nos jogam. E nós não temos direito à cidade, nós somos inimigos caçados como se fôssemos bandidos. Ser pobre não é crime, ser negro também não. A gente tem que resistir e esse exército que cada dia se multiplica do movimento Mães de Maio é um exército que veio para ficar e nós vamos sim continuar lutando porque a vitória é certa. Unidos somos mais fortes”.

Negros Brasileiros Importam

O evento de ontem também marcou a inauguração da campanha internacional #BlackBraziliansMatter (Negros Brasileiros Importam). Fruto de uma aproximação com o movimento negro norte-americano Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), a ação pretende trazer os olhares do mundo para a situação do negro no país.

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Milton Barbosa pensa que essa pode ser uma ferramenta importante no combate ao genocídio e na ação negra em todo o planeta. “Eu acho que é bom porque vai para o mundo. É aquilo que eu já falei, o negro no mundo está esperando o negro brasileiro. O brasileiro que não sabe. Nós preservamos muita coisa. Então o pessoal está esperando, não só os negros, os progressistas no mundo estão esperando as nossas ações aqui”.

Texto: Divulgação / Edição de Imagem: Pedro Borges

Iniciada em novembro, a mostra segue com uma programação abrangente sobre artes e expressões culturais que valoriza, confere visibilidade, abre espaço ao debate e celebra o protagonismo negro

Motumbá é uma palavra de origem Yorubáque. Mais do que uma saudação, significa bênção entre os nagôs. Criar uma mostra artística que valoriza a representatividade da produção proveniente de matrizes africanas legitimadas por trajetórias de vida, posicionamentos sociopolíticos e estéticos são eixos para essa programação que saúda e celebra o protagonismo das expressões culturais negras. Assim pode ser resumida, de forma muito singela, a nova proposta do Sesc Belenzinho, “Motumbá: Memórias e Existências Negras”, que se inicia em novembro, mês que comemora a consciência negra, e segue em cartaz até março de 2017. As atividades promovidas irão ocupar diversos espaços abertos e fechados da unidade [Comedoria, Teatro, Praça, Sala de Espetáculos I e II, Convivência, Oficinas] para apresentar ao público atrações de música, dança, teatro, performance, literatura, cinema, artes visuais e rodas de reflexão e debate.

“Motumbá: Memórias e Existências Negras”, na opinião da equipe de programação e curadoria do Sesc e do co-curador convidado, João Nascimento, “é uma oportunidade para construir e apresentar a diversos públicos um abrangente panorama artístico produzido por brasileiros, bem como artistas estrangeiros convidados. Reunir,em um único espaço, artistas da cena preta como um ato simbólico de afirmação, valorização e fortalecimento das culturas de resistência ao mercado eurocêntrico que privilegia determinadas linguagens, estilos e pensamentos. Esta mostra contempla a magnitude de poéticas, estéticas e temáticas a partir de abordagens representativas produzidas e interpretadas por grupos e artistas negros e/ou periféricos e/ou trabalhos sólidos que possuem profundidade e verticalidade em pesquisas acerca de uma cultura brasileira de matrizes africanas, legitimados por trajetórias de vida e posicionamentos sociopolíticos”.

Motumbá SescAinda de acordo com a equipe de curadoras e curadores, “é central a noção de representatividade nessa iniciativa que propõe dar visibilidade para a produção artística negra, abrindo espaço para debates, circulação de pensamentos e construção de olhares contemplativos que questionem preconceitos e noções hegemônicas sobre as artes e manifestações culturais. Com isto, espera-se estimular a ressignificação de termos pejorativos, hábitos eurocêntricos culturais herdados por uma história que folcloriza, estereotipa e não abarca potências das artes de matrizes negras e periféricas”.

Para isso, “Motumbá: Memórias e Existências Negras” pretende recontar mitos, trazer para o foco das discussões memórias e tradições, apresentar novas linguagens e criações, discutir a existência, problematizar e refletir a história e suas narrativas para, então, descortinar o véu que ofusca e esconde as belezas negras da sociedade brasileira.

Programação

De acordo com a equipe de curadoria, a programação reflete o objetivo central do projeto como um todo, que é ampliar experiências estéticas, políticas, noções culturais e conceitos gerais a respeito das artes negras, de seus protagonistas, matrizes e diversidades de suas expressões. Em última instância com isto se quer aproximar públicos variados, crianças, jovens, adultos e idosos, além de todos os gêneros e transgêneros deste segmento cultural fundante de nossas identidades brasileiras e, ainda, questionar preconceitos e reducionismos fáceis.

Em relação às performances musicais da chamada “Música Preta”, o eixo curatorial se orienta a partir de dois vértices principais: a ideia de diáspora africana – como elemento difusor das sonoridades, timbres, estilos e modos de criação próprios às culturas daquele continente-mãe – e o protagonismo político negro, com suas vertentes feminista, transe outros ativismos periféricos. Confira, abaixo, os destaques da programação de novembro.

Opanijé

Dia: 19 de novembro (sábado)

Hora: 21h30

Em sua apresentação, os integrantes do grupo Opanijé – Lázaro Erê (voz e letras), Rone Dum-Dum (voz e letras),Dj Chiba D (toca-discos) e Zezé Olukemi (percussão)– brindarão o públicocom letras que exaltam a cultura negra e a ancestralidade africana, reunindo samplers, efeitos e batidas eletrônicas ao que há de mais tradicional na cultura afro-baiana, como berimbaus, instrumentos percussivos e cânticos de candomblé. Juntos desde 2005, os músicos, em sua trajetória, já dividiram o palco com o rapper paulistano Thaide(no Carnaval), do projeto Soletrando Atitudes (Escola Estadual João das Botas), com o rapper carioca B. Negão, do Pelourinho na Rota da Rima. Eles também se apresentaram com o consagrado grupo Z’África Brasil, do Blackitude+Zumbi, junto aos rappers haitianos do Vox Sambou e Diegal, do grupo Nomadic Massive, radicado no Canadá, e no Festival Hip Hop Zumbi,que contou com as participações dos norte-americanos Nobody Famous e Dj Bobbyto (espetáculo não recomendado para menores de 18 anos; ingressos a R$ 6, R$ 12 e R$ 20).

Dança

Dentro da mostra “Motumbá: Raízes e Existências Negras”, as atividades relacionadas à dança foram idealizadas a partir da busca por grupos que se dedicam à pesquisa e criação, estabelecendo interfaces entre os universos das tradições e aquilo que se convenciona de contemporâneo. Além desse foco, a proposta é contemplar apresentações de grupos que não falem diretamente sobre o tema, mas, antes, que tragam em suas formações e corporeidades a vivência negra e periférica.

O Corpo Negro na Dança e “Um Filme de Dança”

Dia: 24 de novembro (quinta-feira)
Hora: 20h
A palestra O Corpo Negro na Dança será seguida de exibição do longa-metragem “Um Filme de Dança”. A atividade, que se concluirá com um debate, tem à frente a coreógrafa, pesquisadora e realizadora audiovisual Carmen Luz, autora do filme (censura livre; grátis).

Mix Memória

Dias: 25 a 27 de novembro (sexta, sábado e domingo)
Hora: sexta e sábado, às 21h30; domingo, às 18h30
O espetáculo Mix Memória, com a Cia Étnica, foi concebido como uma tradução, em dança e imagens, do provérbio africano Sankofa: “O que quer que seja que tenha sido perdido, esquecido, renunciado ou privado, pode ser reclamado, reavivado, preservado ou perpetuado”. MixMemória reúne, decompõe e rearticula para o presente alguns objetos, vídeos, células e coreografias criados pela companhia entre 2004 e 2015 (espetáculo livre; ingressos a R$ 6, R$ 10 e R$ 20).

“Todo Corpo Importa – Poéticas para Imaginar, Viver e Dançar”

Dias: 25 a 27 de novembro (sexta, sábado e domingo)
Hora: sexta e sábado, das 15h às 19h; domingo, das 13h às 17h
Conduzida pela Cia Étnica, esta oficina foi idealizada a partir dos temas do encontro, da memória e da igualdade. Aatividade, concebida pela coreógrafa Carmen Luz, propõe estimular e preparar o corpo, a imaginação e o pensamento dos participantes para a experimentação e a criação dos processos denominados, AREC - Atos de Resistência, Existência e Convivência (não recomendado para menores de 16 anos; grátis)

Fique ligado para o que está por vir:

A mostra se estenderá em dezembro e durante os primeiros meses de 2017. Em música, estão previstos shows variados, como “Hip Hop das Minas”, sob o comando de Yzalú e parceiras do hip hop, do ativismo periférico e do feminismo negro; o “Baile dos Orixás”, com Guga Stroeter& Orquestra HB; Tião Carvalho e grupo Cupuaçu, entre outros. Em dança, entre os destaques, os espetáculos “ Yebo”, com Gumboot Dance Brasil, e “O Reino do Outro Mundo – Orixás, com a Cia Rubens Barbot, e “Terreiro Urbano, com o grupo Treme Terra.No palco, Monica Santana apresentará a peça “Isto Não É Uma Mulata” ePriscila Rezende protagonizará a performance “Bombril”, que reflete a inferiorização à qual o negro é submetido devido a sua estética. Também estão previstos debates, exibição de filmes e ateliês de artes manuais.

Sobre o co-curador

João Nascimento 

Diretor presidente do Instituto Nação, coordenador do Ponto de Cultura Afrobase, diretor fundador da Cia de Arte Negra Treme Terra, idealizador curador dos projetos Escola do Samba, Sarau Afrobase, AGÔ Mostra de Arte Negra e Quebrada Cultural. Pesquisador de cultura afro-brasileira e relações étnico-raciais, co-criador da trilogia Zumbi Somos Nós (Documentário, CD e Livro) com o coletivo Frente 3 de Fevereiro. Dirigiu os álbuns musicais Rapsicordélico, Sinfonia de Arames, AFRO2 Laboratório Sonoro de Ritmos AfroBrasileiros e Cultura de Resistência. Músico graduado na Universidade Anhembi Morumbi no curso de Produção Musical.

Serviço:

Motumbá: Memórias e Existências Negras

Local: Sesc Belenzinho

Endereço: Rua Padre Adelino, 1000, Belenzinho, São Paulo (SP)

Mais informações: (11) 2076-9700 ou www.sescsp.org.br/belenzinho e http://www.sescsp.org.br/programacao/107905_M+O+T+U+M+B+A++MEMORIAS+E+EXISTENCIAS+NEGRAS#/content=programacao

Agendamento de grupos: pelo email agendamento@belenzinho.sescsp.org.br ou (11) 2076-9704. Atendimento das 10h às 17h.

Estacionamento: Credencial Plena - Primeira hora: R$ 4,50. Adicional por hora: R$ 1,50.

Outros - Primeira hora: R$ 10,00. Adicional por hora: R$ 2,50. Preço promocional para espetáculos – CredencialPlena: R$ 5,50. Outros: 11,00.

Texto: Syranda / Edição de Imagem: Pedro Borges

Jovens venceram o Prêmio 72h

O projeto, conduzido por jovens que atuam em coletivos e produtoras independentes, enxerga no audiovisual a oportunidade de apresentar uma narrativa raramente presente nos grandes meios de comunicação. A equipe é formada por jovens negros majoritariamente oriundos dos bairros do subúrbio do Rio de Janeiro que acreditam no potencial que o audiovisual possui como ferramenta de transformação social. "Manga com Leite", sonho gestado há algum tempo, preciso do apoio do público para se tornar realidade. A produta Syranda propõe arrecadar financiamento por meio da plataforma Catarse.

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"Manga com Leite" é uma referência ao mito contado para os escravizados de que misturar manga com leite era danoso à saúde, crença que se perpetua até hoje. ‭A história gira em torno de Diara, uma menina de 8 anos de idade que se encanta pela árvore da casa vizinha. Todos os dias, Diara passa a visitar a árvore, escalando o muro, para colher os frutos e estabelece um vínculo afetivo com a mangueira. O filme faz uso de símbolos e do mito para tratar sobre a busca pela ancestralidade.

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