Neste ano, um livro de Angela Davis chega ao Brasil. A publicação Mulher, Cultura e Política discute o ponto de vista da ativista norte-americana em relação a temas como o combate ao racismo e ao machismo e articulação entre pautas locais e globais. Confira a resenha de Mayana Nunes Hellen.

Texto / Mayana Nunes Hellen
Imagem / Vinicius Martins

No livro Mulher, Cultura e Política (2017), publicação da Editora Boitempo, Angela Davis retoma alguns dos discursos que realizou em conferências, espaços universitários e artigos que escreveu para jornais norte-americanos ao longo da década de 1980, e que traduzem alguns temas que atravessam a sua vida como militante e ativista na luta pelos direitos das mulheres negras e de minorias étnicas. Tem a esperança de que ao fazer este retrospecto, consiga equacionar a tensão entre a exigência de que o ativismo político solucione os problemas do presente, ao mesmo tempo em que resista à ação do tempo, trazendo luz às questões que se apresentarem no futuro.

O livro está dividido em três partes, cada qual reunindo textos que convergem para o tema em questão. Em Sobre as mulheres e a busca por igualdade e paz, primeiro eixo temático, a autora selecionou algumas falas que, transformadas em capítulos, trazem a necessidade de pensarmos como os marcadores raça, classe e gênero articulam opressões que são vivenciadas de diferentes formas pela população afro-americana (especialmente as mulheres negras pobres), mulheres de minorias étnicas e mulheres trabalhadoras.

Este é um dos pontos sobre o qual faz questão de reiterar ao longo de todo o livro, direcionando sua crítica às mulheres brancas de classe média que ao lutar contra o sexismo, não levam em consideração os vínculos entre o sistema econômico vigente e as opressões de raça e classe, componentes que trazem efeitos específicos nas trajetórias de mulheres negras e de outras minorias étnicas. Por isso, defende a necessidade de se criar um movimento de mulheres revolucionário e multirracial que aborde com seriedade as principais questões que afetam as mulheres pobres e os trabalhadores.

A articulação entre as lutas que se dão em dimensão local com o contexto político-econômico global é também foco de suas reflexões. Assim, em Sobre Questões Internacionais seus olhos se voltam para as causas que afetavam o mundo àquele momento, como o apartheid na África do Sul e a opressão sexista vivida pelas mulheres árabes, a exemplo do Egito.

Entre os vários motivos que temos para admirar Angela, um deles está em sua capacidade de traduzir e dar materialidade àquilo em que acredita. Quando afirma que as minorias étnicas não podem estar distanciadas da luta pela paz, pois esta luta também lhes diz respeito, e envolve a conquista da justiça social, sexual e econômica, traz a figura e a trajetória de Winnie Mandela à cena. Ao fazê-lo, visibiliza a luta e a resistência desta mulher negra em favor da democracia sul-africana e pelo fim da segregação racial em seu país.

Na breve passagem que teve na cidade do Cairo, no Egito, a convite da “Associação de Solidariedade das Mulheres Árabes” em 1973, a autora tem a oportunidade de avaliar se o feminismo ocidental tem de fato buscado analisar as condições das mulheres nos países árabes, ou se apenas voltavam-se para estas a partir de um olhar distorcido e salvacionista. Quando decide investigar a complexa estrutura de opressão que afeta as egípcias, sai para dialogar com as mulheres do país, sejam urbanas ou camponesas, feministas e não feministas, estudantes universitárias e donas de casa.

Ao concluir a visita, compreende que as mulheres egípcias viviam experiências de opressão sexista semelhantes às das mulheres ocidentais, mas que também havia questões únicas que somente a elas caberia resolver. E se, de um lado, a sexualidade não pode ser ignorada, de outro, a circuncisão feminina e a opressão sexual não será abolida caso as mulheres não sejam integradas à força de trabalho, não sejam alfabetizadas, e não tenham alteradas sua condição no interior da família.

No último eixo temático do livro, Sobre Educação e Cultura, concentra-se em torno destes dois grandes temas, que são abordados um de cada vez. Ao falar de educação, reúne alguns discursos que realizou em cerimônias de graduação de Universidades dos Estados Unidos. Neles, dirige-se especialmente aos jovens afro-americanos recém diplomados destes locais, advertindo-os de que a luta contra a ameaça nuclear, o desemprego, o racismo, a luta contra o capitalismo continua com a geração da qual fazem parte, e relembra-os de que para que pudessem viver a conquista do diploma no presente, muitas pessoas protestaram, fizeram passeatas, e perderam a vida antes. Assim, convida-os a refletirem não apenas sobre o tempo atual, mas também a olharem o que fizeram seus antepassados e a espalharem as sementes de futuros combates.

Ela própria faz esse exercício em sua análise sobre os estudos étnicos nos Estados Unidos, recordando que tanto na história do movimento de libertação afro-americana, quanto na arena internacional, a batalha pela educação tem sido o próprio coração da busca pela liberdade.

Em relação à cultura, preocupa-se em pensar caminhos para o reconhecimento e transmissão do legado da cultura popular afro-americana às grandes massas, a quem em sua maioria tem sido negado o acesso aos espaços sociais reservados à arte e à cultura. Isso porque como observaram Marx e Engels, a arte tem potencial para despertar a consciência social nas pessoas e o desejo pela transformação das condições opressivas que os cercam. Nesse sentido, a história da cultura afro-americana exemplifica bem os laços possíveis entre arte e movimentos populares, como no caso dos spirituals, um gênero musical a partir do qual os escravos produziram uma complexa linguagem que incorporava e trazia à tona um profundo anseio pela liberdade.

Defende que os profissionais de cultura utilizem seu talento para despertar as pessoas para a necessidade de contestação da ultradireita, fortalecendo a articulação entre classe trabalhadora, grupos afro-americanos, mulheres e pacifistas, movendo-se em direção à emancipação econômica, racial e sexual.

Desse modo, se Angela Davis revela logo na introdução de Mulher, cultura e política, que se considera um pouco presunçosa com a publicação, pois jamais é possível ter certeza de que os posicionamentos e análises de alguém serão válidos para além do imediato, ao fim do livro, o leitor terá a certeza de que o receio da autora não se justifica. Seus escritos, seu ativismo, sua história de vida, seguem inspirando trajetórias e ajudando a construir caminhos na luta contra o capitalismo, o colonialismo, o racismo e o sexismo, não apenas nos Estados Unidos, mas também no Brasil e em todos os lugares.

Não é sem razão que para ela, o caminho das lutas das mulheres e de todas as minorias pode ser sintetizada no princípio “Erguer-nos enquanto subimos”, ou seja, é preciso subir de modo a garantir que todas as pessoas despossuídas possam subir juntas.

 

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