Texto: João Victor Belline / Edição de Imagem: Vinicius de Almeida

“Treinei muito depois de Londres porque não queria repetir o sofrimento. Depois da minha derrota, muita gente me criticou, disse que eu era uma vergonha para minha família, para meus pais. E agora sou campeã olímpica”.

“Já passou, tem quatro anos. Eu só posso falar: o macaco que tinha que estar na jaula em Londres hoje é campeão olímpico em casa. Hoje eu não sou a vergonha para a minha família”.

Essas duas falas, concedidas ao canal SporTV e à Rede Globo, respectivamente, são apenas uma pequena parte de uma história que começa bem longe dos holofotes, bem longe das vitórias, bem longe das luzes, mas que, nesse momento, recebem uma luz dourada que ninguém pode apagar.

As irmãs Rafaela e Raquel decidiram pequenas que queriam praticar judô. A Dona Zenilda e o Seu Luiz moravam na Cidade de Deus, Rio de Janeiro, e tinham pouco tempo disponível para ficar olhando as filhas, já que trabalhavam como entregador de pizza e vendedora de botijões de gás. A saída foi colocar as meninas em alguma atividade para gastarem toda aquela energia que elas tinham. A turma de arte era muito avançada. Raquel desanimou. A turma do futebol era só para meninos. Rafaela não pôde jogar. A segunda opção foi uma luta que não entendiam direito, mas que poderia acabar com as brigas que as meninas vira e mexe tinham nas ruas.

O Instituto Reação, recém montado no bairro carioca, abrigou a pequena Rafaela, com então 8 anos, e a irmã Raquel, com 11, e mostrou o caminho para o tatame e os quimonos. As duas destacaram-se rapidamente mas com perfis diferentes: a mais nova preferia mais brincar na rua, enquanto a mais velha não largava os treinos. Nos resultados, não havia muita diferença. O técnico Geraldo Bernardes reparou logo no talento das irmãs e prontificou-se a ajuda-las a seguir treinando judô.

Com o incentivo do técnico Geraldo, por muitas vezes até financeiro, Raquel despontava na modalidade, inclusive começando a participar de competições internacionais. Isso fez com que Rafaela, com 11 anos na época, também começa-se a se dedicar mais nos treinos. Vencer, ela já vencia, mas os três anos de diferença faziam com que a irmã estivesse um estágio à frente. Entretanto, uma gravidez na juventude fez com que a irmã tivesse que afastar-se do esporte. Ao voltar, Raquel enfrentou uma série de lesões.

Dois anos depois, em 2008, o primeiro momento de destaque de Rafaela Silva no judô: ela ganhou uma das etapas da Copa do Mundo e tornou-se campeã mundial sub-20. Apenas três anos depois, em 2011, a carioca conquistou a medalha de prata no Pan-americano de Guadalajara, no México, e também foi vice-campeã no mundial adulto, na França, ambos lutando na categoria até 57 Kg. Uma carreira com uma ascensão muito rápida e em momento oportuno, já que o ano seguinte seria o olímpico.

O caminho para a Inglaterra parecia traçado para Rafaela Silva. Na época, ela era quarta colocada no ranking mundial. A participação da brasileira nos jogos, entretanto, não foi como o esperado: ela foi eliminada nas oitavas de final, frente à húngara Hedvig Karakas, por aplicar um golpe ilegal. Rafaela levava vantagem na luta, mas um golpe nas pernas, coisa que havia sido proibido três anos antes, fez com que os juízes retirassem a atleta da competição. A atleta mais jovem da equipe de judô da delegação em Londres, 2012, desabava em choro.

Pior do que perder uma competição, ainda mais sabendo que tinha todo o potencial para ganhar, é sofrer na pele uma das piores mazelas sociais que o Brasil mantém: racismo. Rafaela foi vítima de diversos ataques, em especial pelas redes sociais, e respondeu. Sem apoio das entidades responsáveis, nenhuma ação foi adiante. Ninguém foi responsabilizado. Uma jovem de 20 anos vê quatro anos, se não todos os outros também, de treino se perderem em poucos minutos. Mais do que isso, ainda sofre racismo. O resultado não seria outro que não a depressão.

Foram meses de dificuldade em que a judoca afastou-se do esporte e passava dias a fio. Nesse momento, uma personagem muito importante aparece: a psicóloga Alessandra Salgado, a Nell. Indicada pela irmã Raquel, Nell começou a acompanhar Rafaela e isso não pararia mais. Salgado foi a responsável por motivar a atleta a retornar ao esporte. Com o tempo parada, Rafaela voltou a competir na categoria até 63 Kg. Isso foi aceito apenas no começo para a atleta, que logo quis retornar à categoria habitual, até 57 kg.

Alguns passos à frente na história, no ano de 2013, começa a redenção de Rafaela Silva: medalha de ouro no Campeonato Pan-americano de Judô, em San José, na Costa Rica, e também no Campeonato Mundial, no Rio de Janeiro. O resultado, inclusive, fez de Rafaela a primeira brasileira a sagrar-se campeã mundial na modalidade.

Os anos seguintes não foram tão brilhantes como de costume, mas o trabalho com Nell continuava intenso. Se 2014 foi um ano discreto, 2015 trazia esperanças, com um título de Grand Prix, em Dusseldorf, na Alemanha, e um bronze no Pan-americano de Toronto, no Canadá. Agora, ela teria outra chance, em 2016, no mesmo Rio de Janeiro, sua terra natal, para exorcizar qualquer fantasma da última participação olímpica.

Uma segunda-feira, dia de trabalho inesgotável para os brasileiros, fez com que tantas/os Silvas se levantassem cedinho e fossem ao batente. No Parque Olímpico da Barra, em especial na Arena Carioca 2, uma representante de tantos/as desses também foi ao trabalho. Negra, mulher, favelada, mais uma Silva foi brigar pelo pão de cada dia. O que a judoca da Mongólia Sumiya Dorjsuren não poderia esperar, era que ela era apenas mais uma barreira para Rafaela. Não porque a brasileira já havia vencido quatro atletas antes dela, mas porque as barreiras que a vida tentou impor foram muito maiores.

Numa festa tão elitistas e que pouco oferece espaços como a Zona Oeste do Rio, a Cidade de Deus foi mais Brasil. Se todo o escarcéu de fogos e luzes pouco faz a tantos brasileiros, pra não dizer que nada faz à avassaladora maioria deles, hoje esse brilho dourado no peito de Rafaela Silva faz muito. Não porque agora vão cuidar das comunidades; não vão. Não porque agora vão respeitar o direito dos marginalizados; não vão. Mas Rafaela deixa uma coisa escancarada que ninguém pode apagar: a certeza de que essa medalha não é das tevês e do “plim plim”.

Obrigado, Rafaela Silva, por dar voz aos que pouco podem falar, mas que agora gritam em seu nome.

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