Por muito tempo, a figura tradicional do super-herói consistiu em um homem branco que salvava o dia. Com o tempo, novas representações de heroísmo surgiram para além das figuras tradicionais. Conheça as principais super-heroínas e super-heróis negros nas HQs no segundo texto da série especial do Alma Preta sobre a representação negra nas histórias em quadrinhos. Leia a primeira parte aqui.

Texto e edição de imagens / Vinicius Martins
Capa / Wikimedia Commons

Nhô-Quim, criado por Angelo Agostini, italiano radicado no Brasil, é considerada a primeira história em quadrinhos produzida no país. A data de seu lançamento, 30 de janeiro de 1869, hoje representa o Dia Nacional das Histórias em Quadrinhos.

No entanto, para o resto do mundo Nhô-Quim não recebe status de primeira HQ criada. Quem fica com esse título é Yellow Kid (O Menino Amarelo), de Richard D. Outault, história publicada no jornal Sunday New York Journal de Nova York. A obra foi lançada em 1895, apenas 26 anos depois da obra de Angelo Agostini no Brasil.

Argumenta-se que Yellow Kid foi a primeira história em quadrinhos a reunir elementos técnicos para criar o modelo que persiste até hoje: um personagem fixo, ações separadas em quadros e, principalmente, balõezinhos com textos. Nhô-Quim, por exemplo, não possuía balões em suas narrativas. Os textos vinham descritos abaixo de cada quadro.

Hoje, as histórias em quadrinhos são popularmente consumidas nos quatro cantos do mundo. Elas se diversificaram em vários formatos e possibilidades desde as tirinhas de jornais até livros inteiros que narram ideias e aventuras quadro-a-quadro.

“Em geral, eu gosto de dizer que quadrinhos podem ser milhares de coisas. Existem milhares de formas de se fazer quadrinhos e milhares de formas de se fazer quadrinhos para além do super herói e do esquema americano da DC e da Marvel”, afirma o quadrinista brasileiro Marcelo D’Salete.

Os quadrinhos abarcam uma variedade enorme de estilos e possibilidades. Por outro lado, as narrativas mais populares mundialmente focam nas histórias de super-heróis e figuras com poderes sobre-humanos. Como é o caso dos quadrinhos industriais produzidos pelas empresas norte-americanas DC Comics, Marvel e Disney.

O Japão também é um polo importante na produção de histórias gráficas. Conhecidos como mangás, as obras são lidas de maneira inversa. Inicia-se com a brochura à direita, com a leitura das páginas feita da direita para a esquerda. Destacam-se editoras como Shueisha e a Kondansha.

No ocidente, os super-heróis tornaram-se sinônimos de histórias em quadrinhos. Em sua maioria homens, brancos, dotados de super força ou super inteligência. Normalmente combatem a criminalidade urbana ou as forças sombrias que ameaçam a sociedade vigente.

Mas onde estão as outras representações e possibilidades de super-heróis desde a criação das histórias em quadrinhos?

As primeiras aparições negras nos quadrinhos do Tio Sam

Assim como no Brasil, a representação humana e estética de negros e negras nos quadrinhos norte-americanos foi influenciada por conceitos racistas e ideias estereotipadas. O contexto racialmente segregado vigente nos EUA influenciou profundamente a aparição negra em HQs por décadas.

Quase sempre como coadjuvantes, negros e negras eram utilizados nas histórias para causar humor, dentro de papéis retratados de maneira degradante. Como reação, a comunidade negra dos EUA passou a incentivar a produção de quadrinhos que colocassem a pele escura como foco e sem estereótipos.

No século XX, entre as décadas de 20 e 30, histórias como Bungleton Green (Leslie L. Rogers), Sunnyboy Sam (Wilbert Holloway), Bucky (Sammy Milai) e Susabelle (Elton Fax), buscaram representações mais justas da figura negra dentro das HQs.

Sunnyboy Sam foi publicado de 1928 a 1969 (Imagem: museumofuncutfunk.com)

Ainda que alguns avanços fossem produzidos, o contexto racista do país continuava a ignorar personagens negros ou apenas criá-los em posições subalternas nos quadrinhos. Entre o surgimento de “Mandrake, o Mágico” (Lee Falk e Phil Daves), considerado o primeiro super-herói de histórias em quadrinhos, e o fim da Segunda Guerra mundial, centenas de personagens sobre-humanos foram criados. Nenhum deles negro.

Apesar de não ocupar a posição de protagonista, o personagem Lothar foi um dos personagens negros mais destacados dos quadrinhos americanos. Amigo de Mandrake, ele era herdeiro de uma tribo africana chamada “Sete Nações” e ocupava o posto de melhor amigo do mágico.

No entanto, mesmo com destaque, Lothar não fugia dos estereótipos comuns a retratação de africanos: usava roupas que não representavam a cultura dos povos da África em sua realidade e era mostrado como ignorante por não falar inglês corretamente.

Outro personagem do mainstream surge em 1941: o primeiro negro numa posição de destaque na Marvel (na época chamada de Timely/Atlas), o garoto Whitewash Jones. Ele fazia parte do grupo mirim de heróis formado por Bucky Barnes, Centelha, Jeff, Tubby e os garotos Knuckles.

A criação de Stan Lee retratava Jones dentro de estereótipos como a boca larga com lábios grossos, além do caráter cômico. Whitewash não possuía poderes como o resto do grupo, tinha personalidade ingênua e frequentemente precisava ser salvo por seus colegas brancos.

O final dos anos 40 inauguraram um novo capítulo para a produção de personagens negros dos EUA. Ao pensar nessas contradições, Orrin C. Evans sentia-se profundamente incomodado com a representação afrodescendente nas HQs americanas.

Evans era jornalista negro e militante da NAACP (em português, Associação Nacional pelo Progresso das Pessoas de Cor). Até hoje é considerado no país o patriarca dos jornalistas negros afro-americanos.

Ele via nos quadrinhos uma ótima possibilidade educativa para a juventude negra dos Estados Unidos. Na sua visão, super-heróis e personagens negros poderiam tornar-se referenciais positivos para os jovens daquela geração socialmente segregada.

Diante do contexto, Evans cria em junho de 1947 a primeira revista de quadrinhos totalmente negra no mercado americano: a All-Negro Comics. A publicação possuía 48 páginas e era vendida a 15 centavos. Buscava colocar a figura negra no mainstream dos quadrinhos. Até então, os poucos personagens afro-americanos, criados por negros, circulavam apenas nos guetos urbanos dos Estados Unidos.

Destacam-se aqui duas histórias da publicação: Ace Harlem e Lion Man and Bubba. Criado por John Terrell, Ace Harlem era um detetive particular clássico, que investigava crimes e mistérios no bairro do Harlem em Nova York.

Lion Man and Bubba, criado por George C. Evan Jr. (irmão de Orrin), narra a aventura de um jovem cientista que foi enviado pela ONU para averiguar uma montanha mágica na Costa do Ouro. Ao chegar lá, ele descobre que a montanha era, na verdade, uma mina de urânio. Decidido a protegê-la de criminosos ele adota o nome de Lion Man e se une a um menino órfão nativo chamado Bubba para defender o local.

Apesar da boa ideia diante da falta de referências do mercado americano, a All Negro Comics não chegou a publicar um segundo número por diversos motivos. Entre eles, a falta de recursos, o boicote da cadeia de distribuidores (quase sempre brancos) e a concorrência com empresas brancas como a Parents Magazine Press e a Fawcett Comics, que pouco depois tentaram fazer seus próprios personagens negros para o público afro-americano.

Primeiro e único número da All Negro Comics, publicado em 1947. (Imagem: Wikimedia Commons)

Os principais super-heróis

A segunda metade do século XX trouxe representações um pouco mais justas. Em 1954, a Timely/Atlas (atual Marvel) cria o primeiro super-herói negro de sua história: Waku, o príncipe Bantu (Ogden Whitney). Ele era o herdeiro de uma tribo da etnia bantu. Foi obrigado a fazer um juramento de não-violência no leito de morte de seu pai.

Tudo muda quando seu rival Mabu alia-se à traficantes de escravos brancos para capturar e vender seu povo. O espírito do pai de Waku retorna e quebra o juramento pacifista de seu filho, que toma o trono do adversário e liberta seu povo.

Nos anos 60, o contexto de agitação racial dos EUA influenciaram o país todo. Lideranças como Malcolm X, Martin Luther King Jr. e o Partido dos Panteras Negras mobilizavam toda a comunidade afro-americana contra as leis segregacionistas e pela ampliação dos direitos civis.

É nesse caldeirão que surge um dos principais super-heróis negros da história, o Pantera Negra. Criado em 1966, por Stan Lee e Jack Kirby, o herói é oriundo do reino fictício de Wakanda, localizado na África.

A história gira em torno de T’Challa (identidade real do Pantera Negra), que vê seu pai ser morto por exploradores do metal fictício Vibranium. Para vingar a morte de seu pai, ele viaja para os Estados Unidos. Lá, o Pantera se prepara para retomar o reino e o trono do vilão Garra Sônica.

O Pantera Negra tem grande força, resistência, agilidade e reflexos. Seus sentidos são aguçados, é capaz de enxergar no escuro e de se curar rapidamente. Também é super-inteligente e estrategista. Além disso, possui grande conhecimento sobre os usos do Vibranium. Atualmente, ele é casado com Tempestade, dos X-Men, a super-heroína negra mais importante da história das HQs.

A Marvel ainda lançou mais dois super-heróis negros importantes: o Falcão (Stan Lee e Gene Colan) e Luke Cage (Archie Goodwin e George Tuska).

O Falcão surge em 1969 a partir das histórias do Capitão América. Inicialmente, foi capturado e criado pelo vilão Caveira Vermelha para enganar o Capitão América.

Anos depois ele se rebela contra seu criador para derrotá-lo e vira parceiro do Capitão. Seu poder consiste em voar com asas mecânicas que ganhou de presente do Pantera Negra e em conversar com aves telepaticamente.

Luke Cage, Herói de Aluguel. (Imagem: Andres Juarez/Ficker/Marvel)

Em 1972, uma série de respostas aos movimentos pelos direitos civis começam a aparecer. Entre ações afirmativas e a ocupação de novos espaços, a participação negra na indústria cinematográfica marca o período. A onda ficou conhecida como Blaxplotation. Filmes protagonizados e dirigidos por afro-americanos, que abordavam a vida nas periferias urbanas dos EUA.

É nesse período que Luke Cage, o Herói de Aluguel, se encaixa. Após ser condenado injustamente por um crime que não cometeu, Mark Lucas ganha poderes como super força e uma pele ultra resistente durante experiências secretas realizadas com ele na prisão de Seagate.

Após adquirir habilidades sobre-humanas, Mark foge da prisão e passa a se identificar como Luke Cage. Ele vive no Harlem em Nova York e, para sobreviver, passa a fazer serviços com seus poderes a quem pagasse por isso.

Luke Cage foi o primeiro super-herói negro a ter sua própria revista. A publicação durou quase 20 anos, sendo cancelada no final do anos 80. A partir daí figurou em outras histórias junto de diversos super-heróis, como Demolidor, Punho de Ferro e Jéssica Jones.

Atualmente, Luke Cage voltou a ganhar destaque. O personagem ganhou uma série na Netflix baseada em suas histórias em quadrinhos, sendo interpretado por Mike Colter. O seriado estreou com grande sucesso tendo a segunda temporada já confirmada pelo serviço de streaming.

As principais super-heroínas

“De maneira geral, havia poucos personagens negros. Mulheres, então, eram ainda menos presentes. Durante décadas eram representadas de forma estereotipada e em funções subalternas. Só mais recentemente passaram a ser protagonistas”, afirma Natânia Nogueira, pesquisadora das representações femininas nas histórias em quadrinhos norte-americanas.

Por muito tempo a presença de mulheres negras ficou restrita a papéis subalternos nas histórias gráficas. Se o primeiro super-herói negro surgiu apenas em 1954, as primeiras super-heroínas de pele escura foram criadas em 1973.

A primeira é Núbia (Robert Kanigher e Don Heck), da DC Comics. Ela aparece na história da Mulher Maravilha. A heroína é irmã da princesa Diana de Themyscira, alter-ego da Wonder Woman. Ao serem criadas pela rainha Hippolyta, Diana e Núbia foram separadas. Núbia foi sequestrada pelo deus Marte e viveu separada de sua irmã.

No mesmo ano, Nightshade é apresentada pela Marvel. Seu nome verdadeiro era Tilda Johnson e vivia nos subúrbios de Nova York. Ela aparece durante uma das histórias do Capitão América. Suas habilidades incluem super inteligência e autodidatismo em genética, bioquímica, cibernética, robótica e física. Tilda também obteve um diploma de doutorado em uma universidade desconhecida, enquanto esteve na prisão.

(Imagem: geekoutsider.com)

A década de 70 ainda foi o berço de mais duas super-heroínas negras. Em 1974, surge a primeira versão da Mulher-Aranha, que era representada por uma mulher negra, durante As Aventuras do Homem-Aranha. No entanto, a personagem pouco foi utilizada e nos anos seguintes foi representada por mulheres brancas.

Mais tarde, em 1975, surge a super-heroína negra mais importante dos quadrinhos. Ororo Munroe, também conhecida como Tempestade (Len Wein e Dave Cockrum). Integrante dos X-Men, ela tornou-se a personagem negra mais bem-sucedida das HQs da Marvel e dos EUA.

Filha órfã de um jornalista americano e de uma princesa africana, Ororo vagou pela África a maior parte de sua infância e adolescência. Ao chegar no Quênia, fincou raízes e tornou-se uma espécie de deusa para os habitantes locais, por sua capacidade mutante de controlar o clima e os fenômenos da natureza.

Foi encontrada pelo líder dos X-Men Charles Xavier que a convidou para entrar na equipe. Adquiriu grande destaque tornando-se uma das líderes do grupo de mutantes. Posteriormente, virou parceira afetiva do Pantera Negra e juntos eles governam Wakanda.

A DC Comics também tentou emplacar personagens negras. A super-heroína Vixen foi a primeira tentativa. Ela foi a primeira da história a ter a própria publicação. No entanto, a edição inaugural foi cancelada logo após o seu lançamento em 1978. Voltou a aparecer nos anos 80 na revista Action Comics.

Mari McCabe (identidade original de Vixen) nasceu em uma vila fictícia na África chamada M’Changa. Após perder o pai e a mãe, assassinados em sua vila de origem, ela vai para os Estados Unidos e torna-se uma modelo. Com o dinheiro de seu trabalho, retorna a África e encontra um Totem mágico que lhe dá a capacidade de mimetização animal, super força e cura acelerada.

Outras personagens negras apareceram como super-heroínas desde a década de 80. Destacam-se a Capitã Marvel (1982), JET (1988), Technique (1993), Fatality (1997) e Ladyhawk (1999).

(Imagem: istolethetv/Flickr/DC Comics)

Segundo o mestre em comunicação midiática e autor da pesquisa “Identidades Secretas: representações do negro nas histórias em quadrinhos norte americanas”, Romildo Lopes, a representação de negras e negros nos quadrinhos dos EUA mudou ao longo do tempo. De representações estereotipadas a posições mais destacadas e aponta que a eleição de Obama nos últimos anos teve uma influência direta sobre isso.

“Há uma separação clara entre as eras pré e pós Obama, não só nos quadrinhos, como também na mídia em geral. Isso influenciou grandemente a forma como os negros passaram a ser retratados”, afirma.

Ele completa que apesar das representações habituais como “thug life” (bandido ou malandro), rapper, gangster e vítima ficarem cada vez menos comuns e haver um aumento dos papéis de liderança e do aprofundamento na humanidade dos personagens, ainda restam padrões comuns nessas representações.

“Ainda é possível identificar os estereótipos da hipersexualização (em especial das mulheres), a vida em guetos, ou até mesmo o exótico: caminhando para o lado de uma África negra coberta de mistério e misticismo expresso em personagens como Pantera Negra (Marvel) ou Vixen (DC)”, reflete Romildo.

Sobre o Alma Preta

O Alma Preta é uma agência de jornalismo especializado na temática racial do Brasil. Em nosso conteúdo você encontra reportagens, coberturas, colunas, análises, produções audiovisuais, ilustrações e divulgação de eventos da comunidade afro-brasileira. Nosso objetivo é construir um novo formato de gestão de processos, pessoas e recursos através do jornalismo qualificado e independente.

Onde Estamos

Endereços e Contatos
18-80. Jd Nasralla - Cep: 17012-140
Bauru - São Paulo
contato(@)almapreta.com

Mais Lidos