A jornalista Thalyta Martina acompanhou um debate após a exibição do filme "Mulheres negras: Projetos de mundo" e traz aqui uma resenha das impressões sobre a discussão levantada pela obra.

Texto / 
Thalyta Martina
Foto / Leandro Noronha da Fonseca

O filme "Mulheres negras: projetos de mundo" foi exibido na segunda-feira, 27/11, no Museu de Imagem e Som (MIS) de Campinas-SP. Na sua última apresentação do ano, o público foi composto majoritariamente por mulheres pretas, que acomodaram-se na sala de exibição branca do segundo andar com quadros de Marilyn Monroe e Charles Chaplin.

A diretora do filme, Day Rodrigues, também roteirista, filósofa, educadora e produtora cultural, esteve presente e promoveu uma discussão sobre mulheres pretas no audiovisual, na faculdade, na literatura, no teatro, nas quebradas, também nas relações familiares e no amor, entre outros temas.

O curta metragem começa com a frase "escrevo para registrar o que os outros apagam" da escritora norte americana Glória Anzaldúa e expôe fala de nove mulheres pretas em diversas situações de racismo, enfrentamento e reconhecimento, similares as que outras escritoras negras, como Carolina Maria de Jesus, presenciaram, relataram ou já ouviram falar. O filme de 25 minutos, no entanto, não deixa a tensão que o racismo causa o tempo todo, mas mostra a importância da união, da sororidade e do amor entre nós, que tem poder transformador, como prega Bell Hooks.

Segundo a diretora, o filme só foi possível por ter esse olhar de mulher preta. É o que é. "O corpo branco não é o corpo negro", afirmou durante a discussão que ocorreu após a exibição. Parece óbvio, mas é comum encontrar produções sobre nós feitas por pessoas brancas de forma forma estereotipada, vindo de estrangeiros e brasileiros. Day Rodrigues também relatou que a falta de reconhecimento é um fator de prova que a sociedade tem dificuldades concretas de dar voz a esse segmento da sociedade: no Cine PE - Festival do Audiovisual deste ano, o nome dela não constava no cartaz do próprio filme, enquanto que o nome de seu colega de direção, Lucas Ogasawara, estava lá exposto. Ela partilhou que sua reclamação foi recebida com hostilidade. Nesse festival o filme ganhou prêmio de melhor direção e por juri popular.


O trabalho foi filmado em Santos-SP, cidade que os pais da diretora, vindos do nordeste, escolheram para se aventurar - "não no sentido bonito da palavra", afirmou - e que Day nascer. Filha de pai operário do porto de Santos e mãe dona de casa, ela enfrentou dificuldades na primeira tentativa de ingresso na universidade: ciências sociais, na Unesp. Mais tarde, depois de um trabalho de quatro anos em uma livraria e de uma faculdade de filosofia, Day Rodrigues fez o curso de Gestão Cultural do Centro de Pesquisa e Formação do Sesc, que fez nascer o filme como trabalho de conclusão.

Os resultados vieram. Entre eles, um espetáculo sobre afetividade LGBT, o videoclipe "Papo reto" da dupla Dani Nega e Craca e o desejo de formar mulheres para contar suas histórias por meio do cinema. Eu incluo-me na lista de interessadas.

O olhar da diretora sobre depoimentos e projetos de mundo de Aldenir Dida, Ana Paula Correia, Andreia Alves, Djamila Ribeiro, Francinete Loiola, Luana Hansen, Monique Evelle, Nenessurreal e Preta Rara, foi exibido mais de 50 vezes em periferias, ocupações, grandes centros, cooperativas de mulheres e terreiros por São Paulo, Brasília-DF, Pará, Sergipe, Bahia, Minas Gerais, Pernambuco e pretende ir em outros dialogando com mulheres pretas.

Segundo a diretora, existem locais de fala que a gente não mapeou ainda, e eu acredito que o filme "Mulheres negras: projetos de mundo" cumpre esse papel de nos tirar do silenciamento histórico. Como disse Thais, uma das mulheres pretas presentes, "é um processo de transformar dor coletiva em amor e afeto", e eu acrescento força para continuar resistindo e falando, resistindo e compartilhando, resistindo e escrevendo e resistindo e filmando.

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