Ato reuniu uma série de organizações do movimento negro para protestar contra a sentença de Rafael Braga, jovem negro e periférico condenado a 11 anos de prisão. Durante a marcha, os manifestantes ocuparam uma das vias da Avenida.

Texto / Pedro Borges
Foto de capa / Fernando Martins
Foto / Pedro Borges

No dia 24 de Abril, segunda-feira, entidades do movimento negro marcharam pela Avenida Paulista em vigília contra a condenação de Rafael Braga, sentenciado a 11 anos de prisão no último dia 20. Cerca de 300 pessoas participaram do ato, que começou às 18h no vão livre do MASP e seguiu em direção ao escritório da presidência da república.

Durante a vigília, faixas e gritos dos manifestantes pediam o fim do genocídio negro, a extinção da polícia militar, e maior união entre a população negra para enfrentar as práticas violentas do Estado.

“A vigília significa que nós estamos vigiando o que o judiciário fez com o Rafael e a perseguição que tem sido feita não só ao Rafael, mas com todos os negros, pobres e favelados. O judiciário já tem uma história de aprisionar e de assinar o arquivamento da execução sumária de pobres e negros”, explica Débora da Silva, uma das fundadoras do movimento Mães de Maio.

Integrante do Kilombagem, Katiara Oliveira ressalta a necessidade de maior unidade entre a comunidade negra e a esquerda para enfrentar a sentença de Rafael Braga, entendida por ela como uma intimidação ao movimento negro. “Essa segunda prisão é para eles confirmarem uma demonstração de poder e intimidação”.

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Manifestantes ocupam uma das vias da Avenida Paulista

Ao final do protesto, já em frente ao escritório da presidência da república, algumas manifestações culturais encerraram a marcha. O coletivo negro secundarista e os poetas Allan da Rosa e Akins Kintê fizeram intervenções artísticas.

Milton Barbosa, um dos fundadores do Movimento Negro Unificado (MNU), enalteceu a participação do público durante a noite. “É um pessoal de vanguarda da luta. A gente percebe pela postura, pelo cabelo, pelas palavras ditas. Então a gente sente que as coisas vão caminhar”.

Apesar do posicionamento contundente e da participação de lideranças do movimento negro, havia uma expectativa de maior público. Para Débora, do movimento Mães de Maio, essa ausência reflete a falta de empatia social com a comunidade negra e pobre no país. “O engajamento das redes sociais não se repete nas ruas porque tratamos de pobres, negros, que não interessam para a sociedade. Se fosse um branco de classe média alta, tanto o judiciário quanto a mídia estavam dando em cima e já tinham resolvido o problema”.

Para Andreza Delgado, integrante da Ocupação Preta da USP, há uma dificuldade para a esquerda compreender Rafael Braga como preso político e reflexo direto da atual política de drogas do Brasil. “A gente não consegue avançar com a discussão porque a esquerda tem o preconceito e já diferencia o que é o preso comum e político. Imagine se o Rafael Braga fosse um preso da ditadura? Se fosse, a esquerda sairia na rua por ele,” completa Andreza.

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Coletivo negro secundarista participou da vigília e das intervenções artísticas

A exigência pela liberdade de Rafael Braga segue nas redes sociais e os organizadores da vigília pedem a divulgação das campanhas #SomosTodosRafaelBraga e #RafaelBragaLIVRE nas diferentes plataformas digitais.

Entre as entidades que organizaram e participaram do ato, estão o Kilombagem, a Frente Alternativa Preta, a Uneafro, a Agenda Preta, a Campanha Nacional pela Liberdade de Rafael Braga e as Mães de Maio.

O caso

No dia 20 de Abril, quinta-feira, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro emitiu sentença que responsabiliza Rafael Braga por tráfico e associação para o tráfico de drogas. O juiz Ricardo Coronha Pinheiro condenou o ex-catador de latas a 11 anos e três meses de prisão e multa de R$ 1.687.

A medida é mais um capítulo na história de Rafael Braga com o judiciário brasileiro. A primeira ação do Estado contra ele aconteceu durante as manifestações de junho de 2013. Na época, milhares de pessoas ocuparam as ruas das grandes cidades brasileiras, primeiro em protesto contra o aumento das passagens de ônibus e a repressão policial, e depois contra uma série de demandas sociais. Nesse contexto, Rafael foi o único preso, acusado de carregar material explosivo, quando em sua mochila foram encontrados dois frascos lacrados de produtos de limpeza.

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Milton Barbosa, um dos fundadores do Movimento Negro Unificado (MNU), marcou presença no ato

Em 12 de Janeiro de 2016, Rafael cumpria sua pena em regime aberto, quando caminhava com uma tornozeleira eletrônica da casa de sua mãe para uma padaria na Vila Cruzeiro, zona norte do Rio de Janeiro, e foi abordado por policiais. Eles alegaram ter encontrado com Rafael 0,6 g de maconha, 9,3 g de cocaína e um rojão. O jovem nega ser o responsável pelas drogas e afirma ter sido ameaçado pelos policiais, que queriam que Rafael anunciasse quem seriam os traficantes da região. De acordo com o jovem negro, os policiais teriam dito que “jogariam arma e droga na conta dele”.

O juiz responsável ouviu cinco testemunhas de acusação e uma de defesa, o de Evelyn Barbara, vizinha de Rafael Braga. Ela disse ter visto o jovem ser abordado pelos policiais, sem qualquer objeto em mãos. Rafael depois foi agredido e arrastado para um ponto distante da visão da vizinha. O juiz não levou em consideração o depoimento de Evelyn Barbara.

Leia mais:

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