Luiza Bairros faleceu em 2016 e deixou para trás um grande legado de luta e resistência para a comunidade negra e em especial as mulheres negras. A homenagem à ativista faz parte do especial do Alma Preta para o dia 25 de Julho, Dia Internacional da Mulher Afro-latinoamericana.

Texto / Pedro Borges
Imagem / Alma Preta

Luiza Helena Bairros nasceu na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, em 1953. Filha de uma dona de casa e um militar, a recordação da menina sobre a capital gaúcha da época era a de um município muito segregado, com clubes sociais destinados a brancos e outros, como forma de resistência, a negros.

Os pais, que muito valorizavam a educação e tinham como meta formar os filhos, fizeram tudo o que estava ao alcance para investir na educação de Luiza e seu irmão. Estudante de escola pública, a jovem graduou-se numa das primeiras turmas de Administração Pública e Empresas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

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Anos mais tarde, em 1979, Luiza mudou-se para Salvador, onde relatou, em entrevista para a Marie Claire, a felicidade de chegar à capital baiana. “Imagine uma pessoa negra, vivendo em uma sociedade como a gaúcha, que se defronta com a Bahia, de maioria negra. Uau! É muito forte. Salvador foi o lugar onde comecei a fazer minhas próprias escolhas. A cidade me ensinou a viver entre pessoas negras”.

Bairros seguiu os estudos e tornou-se mestre em ciências sociais pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), com o projeto “O Negro na Força de Trabalho na Bahia, entre os anos 1950 -1980”. A pesquisa, focada na discriminação racial no mercado de trabalho, aponta para as dificuldades do racismo conforme o negro ascende socialmente. Luiza também se especializou em Planejamento Regional pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

Em Salvador, a intelectual e ativista participou de maneira muito presente da vida política do município e se tornou um dos grandes nomes do Movimento Negro Unificado (MNU), a principal organização da comunidade negra da segunda metade do século XX. Ela compôs a entidade até o ano de 1994.

“Não se trata mais de ficarmos o tempo todo implorando, digamos assim, para que os setores levem em conta nossas questões, que abram espaços para que o negro possa participar. Essa fase efetivamente acabou. Daqui para a frente, vamos construir nossas próprias alternativas e, a partir dessas alternativas, criar para o povo negro como um todo no Brasil uma referência positiva”, disse Luiza Bairros em entrevista ao jornal do Movimento Negro Unificado (MNU).

Ela também compôs a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial do Estado da Bahia (SEPROMI) em 2008, na gestão do governador Jaques Wagner. Na região Nordeste, Luiza participou da pré-implementação do Programa de Combate ao Racismo Institucional para os estados da Bahia e Pernambuco.

Em 2010, ela foi convidada pela presidenta Dilma Rousseff a compor a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) e permaneceu no posto até 2014. Luzia se filiou ao Partido dos Trabalhadores (PT) em 2011.

Durante o governo federal, foi responsável direta pela criação do Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (SINAPIR), com a proposta de criar instâncias de denúncia de casos de discriminação e com o objetivo de implementar políticas públicas voltadas à comunidade negra.

A ativista também tem a sua trajetória reconhecida a nível internacional. Ela trabalhou nas Nações Unidas na formulação de programas de combate ao racismo entre os anos de 2001 e 2005, e foi fundamental na construção do Grupo Temático da ONU sobre Gênero, Raça e Etnia.

Bairros se formou doutora pela Universidade de Michigan, nos EUA, na área das ciências sociais, e foi uma das representantes brasileiras da Conferência de Durban, África do Sul, evento que ocorreu em 2001, e reuniu representantes de 173 países para discutir medidas contra o racismo, discriminação racial, xenofobia e outras intolerâncias.

A ativista, tida como um dos grandes nomes do movimento negro brasileiro, recebeu em 2011 a medalha Zumbi dos Palmares, homenagem dada pela Câmara Municipal de Salvador, o título de Cidadã Baiana (2013), concedido pela Assembleia Legislativa da Bahia, e o certificado Bertha Luz (2016), entregue pelo Senado Federal a pessoas com destaque na luta pelo direito das mulheres.

Quando questionada sobre “O que é o racismo”, por Fernando Pompeu, em entrevista publicada no Geledés, a intelectual deu a seguinte resposta. “Eu vejo o racismo como a ideologia em estado puro. É o que informa e o que possibilita desenvolver o preconceito e praticar a discriminação. É o que sustenta. O racismo engloba todas as relações, passa por dentro delas. É uma ideologia baseada na desumanização do outro, no extermínio do outro. O extermínio do outro só é possível porque há grupos que se supõem superiores. Não existe racismo de baixo para cima, pois ele sempre pressupõe a ideia de superioridade. Portanto, o Brasil é um país com um racismo bem desenvolvido. Tão desenvolvido que, durante muito tempo, sua existência pôde ser negada criando uma espécie de racismo invisível. A ponto de acusarem os que falam a palavra racismo de promotores de sua existência. Ou seja: deixa tudo como está, pois assim estamos todos confortáveis”.

Luiza faleceu em 12 de Julho de 2016, na cidade de Porto Alegre, vítima de câncer no pulmão, doença contra a qual lutava há três meses. Faleceu aos 63 anos e deixo um legado de mais de 40 anos de articulação e luta pelo movimento negro brasileiro.

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