Evento aconteceu na Unesp-Araraquara durante cinco dias de atividades com a presença de alunos, professores e membros de movimentos sociais. Sexualidade e gênero foram debatidas em mesas, oficinas, cursos e atividade culturais.

Texto e fotos / Vinicius Martins

Em abril de 2016, Luana Barbosa dos Reis foi agredida por policiais militares na frente de seu filho Luan durante uma tentativa de revista no Jardim Paiva II em Ribeirão Preto. Mulher negra e lésbica, a jovem pedia o direito de ser revistada por uma mulher e não por homens. Seu pedido gerou não apenas o constrangimento de ter que levantar sua blusa para provar que era mulher, mas uma série de agressões que a levaram a morte dias depois.

A história de Luana mobilizou e articulou dezenas de iniciativas ao redor do Estado de São Paulo, mesmo após um ano de sua morte. A II Semana de Sexualidade e Gênero “Luana Barbosa dos Reis” realizada na Unesp-Araraquara é uma delas. Entre os dias 15 e 19 de maio, o evento reuniu centenas de pessoas para debater as especificidades e os desafios em torno da sexualidade e das diversas identidades de gênero no Brasil.

A atividade envolveu diversos grupos organizados de discentes da Unesp-Araraquara, entre eles a Coletiva Be, o CAFF (Centro Acadêmico Florestan Fernandes), o CAMT (Centro Acadêmico Maurício Tragtenberg), o Coletivo Absogun e o DAWS (Diretório Acadêmico Waldemar Saffioti).



Foram oferecidas oficinas, minicursos, mesas redondas, rodas de debates, saraus, além de um ato na cidade de Araraquara. O viés interseccional permeou o debate geral, relacionado a outros temas como drogas, maternidade, etnias, classes, educação, mídia e trabalho.

“Uma das preocupações que nortearam a semana foi a questão da intersecção. Hoje em dia o movimento LGBT não pode ser pensado individualmente, ele deve ser pensado primeiramente entre todas as letras que compõem essa sigla, ao lado de todos os outros recortes sociais e nossa preocupação é sempre trazer essa visão para todos os debates do evento”, afirma Du Massari, integrante da organização do evento.

Vita Pereira, também integrante organização, pontua que esse debate deve ser feito dentro e fora da universidade. Para ela, a discussão deve ser permanente para avançar em soluções positivas.

“Devemos entender que nossos corpos transitam dentro da universidade e para além dela também. Todo lugar que estivermos nós devemos debater sobre a nossa existência, sobre nosso gênero e nossa sexualidade. Precisamos ir além da universidade, pois ela é um espaço excludente, é um espaço elitista, branco, cis-heteronormativo e devemos buscar outros tipos de saberes e construção”, afirma.



O início

No primeiro dia, a atividade de abertura “Por quê Luana?” teve mediação do Coletivo Absogun e contou com a participação da professora de história Ane Sarinara, da atriz Ariane Oliveira e da doutoranda em Ciências Sociais Tatiane Souza.

A mesa relembrou a história da jovem homenageada pelo evento, morta pela polícia militar. O debate buscou entender como as intersecções de raça, classe, sexualidade e gênero influenciaram sua vida e sua morte.

“A gente traz esse nome [da Luana] para ressignificar e trazer como memória, a gente vai lembrar desses corpos que são invisibilizados pela academia, pelas ruas e pelo Estado”, pontua Vita Pereira.

A proposta ampliou o espectro de visões possíveis acerca da realidade de pessoas que constituem grupos periféricos atravessados por diversos marcadores sociais, sobretudo a partir da ótica da sexualidade e do gênero.

“Falar de gênero não é doutrina. Falar de gênero é colocar os problemas reais da nossa sociedade. As pessoas não gostam de falar de gênero porque toca na ferida e isso incomoda, mostra o quanto a nossa sociedade é nociva e se autodestrói. Então [nesse contexto], se você não se enquadra em um padrão, você tem que ser exterminado”, afirma Ane Sarinara, professora de História.

O primeiro dia de atividade contou ainda com uma mesa de debates no período da noite. Sob a mediação do Prof. Dr. Jean Cristus Portella, a idealizadora do Bibliopreta e do Wikipreta, Sueli Feliziani, e o mestrando em Sociologia Rodrigo Melhado debateram diferentes olhares sobre "Feminilidades e Masculinidades" em nossa sociedade.

As discussões pautaram as noções tradicionais sobre o que é Feminino e Masculino e formas de produzir novas possibilidades para essa identidades. Dessa maneira, seria possível combater problemas estruturantes da sociedade como o machismo e a LGBTfobia. Para Sueli Feliziani, as masculinidades ainda carecem de uma autoreflexão mais profunda para avançar nesse debate.

“É muito mais fácil, muito mais confortável, discutir as feminilidades do que as masculinidades. As masculinidades ainda estão um pouco engessadas, porque não temos uma masculinidade que tem uma autocrítica interessante sobre si mesma”, reflete.

Rodrigo Melhado complementa e destaca a importância de debater as nuances de gênero no país: “essa mesa é muito importante para que continuemos avançando no diálogo entre as masculinidades e feminilidades e o que é o gênero, para que a gente consiga de fato ter uma sociedade mais igualitária e os índices de violência contra mulheres, homossexuais e transsexuais caiam de fato no Brasil”.



Terça-feira de trabalho

O segundo dia de atividades da II Semana de Sexualidade Gênero, abriu a série de minicursos e oficinas. Pela manhã, os temas de moradia e militância asiática trouxeram novas perspectivas relacionada à temática do evento.

O minicurso “Mulheres descendentes asiáticas no combate ao machismo”, coordenado pelas estudantes Gabriela Akemi Shimabuku e Marina Ueda Sai discutiram as peculiaridades das mulheres japonesas (e suas descendentes) na sociedade ocidental e como os estereótipos produzidos em cima desse grupo são prejudiciais para a formação de uma identidade plena.

Ao mesmo tempo, apenas a algumas salas de distância, acontecia o minicurso “A impossibilidade emocional de convivência LGBT x a necessidade político-social”, coordenado pelo idealizador do centro de acolhimento LGBT Casa1, Iran Giusti. A atividade discutiu as dificuldades enfrentadas por pessoas rejeitadas no núcleo familiar por conta de sua sexualidade ou identidade de gênero fora dos padrões oficiais. Também foram debatidas formas de acolhimento para esses grupos.

A programação da terça-feira seguiu seu curso no período da tarde. A roda de conversa sobre Maternidade reuniu mulheres do campus sob a orientação da mestre em Ciências Sociais Ana Carolina Fernandes e da socióloga Claudete Camargo.

O debate levantou ideias relacionadas às estruturas sociais que determinam uma maternidade compulsória para as mulheres e como isso agride o direito pleno ao próprio corpo. A ausência masculina no processo de gestação e cuidado dos filhos também foi um tema amplamente abordado durante os diálogos. Da mesma forma roda discutiu diferentes formas de maternidade a partir de outras sexulidades e identidades de gênero.

A noite, a mesa “Trabalho e Exclusão” reuniu dezenas de pessoas no Anfiteatro B da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp. A atividade trouxe diferentes perspectivas sobre a participação LGBT e feminina no acesso ao trabalho e em movimentos sociais. Debateram o tema Enedina de Andrade, Erika Hilton e Laís Izidoro.

Enedina e Laís abordaram questões ligadas ao campo, nas relações de acesso ao trabalho rural e na organização da luta social por terras.

Para Laís Izidoro os entraves no campo ainda estão ligados às disparidades de renda e falta de auxílio adequado: “a principal dificuldade para a igualdade de gênero no campo se dá no acesso à renda e na falta de políticas públicas que garantam uma autonomia financeira das mulheres para elas se desenvolverem economicamente e socialmente nos assentamentos rurais”.

Já Enedina de Andrade compreende que para conquistar a emancipação humana e de gênero é necessário partir de questões concretas como a terra e o fim da propriedade privada.

“Nós mulheres camponesas, militantes das organizações sociais, temos como bandeira permanente o combate de qualquer tipo de discriminação. O nosso processo de formação e debate vai nessa perspectiva. Pensar a formação e o debate de gênero nos movimentos sociais além de pautar e conseguir conseguir conquistas concretas para além do campo econômico”, discute a educadora e militante do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), Enedina de Andrade.

No contexto urbano, a militante trans Erika Hilton abordou aspectos ligados às dificuldades no acesso aos trabalhos formais para população transsexual. Sua análise mostra que a estrutura social excludente para essa parcela da população reserva a prostituição como único espaço válido de trabalho, sobretudo para as mulheres trans.

“Quando eu falo em mulheres transsexuais e travestis, há um problema ainda maior que não é só reconhecê-la enquanto cidadã puta, é dar o direito dela escolher não ser puta ou de ser puta e professora, ser puta com doutorado, formada em letras ou gerontologia. É dar escolhas, coisa que é roubada da mulher transsexual e da mulher travesti, quando ela é jogada e fica determinado que o único espaço possível para ela é a prostituição”, reflete Érika Hilton.



Visibilidade na quarta-feira

Os minicursos “O que é ser não-normativo no universo de substâncias psicoativas” e “Pajubá: a linguagem como resistência”, movimentaram a manhã de quarta-feira. Vita Pereira e Nêmara Vianna coordenaram as discussões sobre gênero e drogas, através da perspectiva interseccional e dos efeitos da guerra às drogras.

Marcus Garcia Sene e Victor Trajano exploraram a temática do Pajubá. Trata-se de uma linguagem popular baseada em palavras provenientes de línguas africanas ocidentais. Presente no candomblé e na umbanda, também é utilizada como código por travestis e por outros segmentos da comunidade LGBT.

No período da tarde, o evento se aproximou de questões locais da cidade de Araraquara. A roda de conversa com os Centros de Referência da cidade de Araraquara reuniu representantes de órgãos públicos de combate ao racismo, ao machismo e à LGBTfobia.

Participaram do debate o Coordenador Executivo de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Luiz Fernando de Andrade, a Coordenadora Executiva de Políticas Públicas para Mulheres, Amanda Vizoná, e Filipe Brunelli, Assessora de Políticas LGBT do município de Araraquara.

Foram debatidas formas de alcançar a interdisciplinaridade na formulação de políticas públicas municipais capazes de combater a homofobia e as desigualdades raciais e de gênero.

Para fechar o terceiro dia de atividades, a mesa “Corpos Invisibilizados” refletiu sobre formas de repensar a sexualidade e gênero na estrutura social atual. A partir de temas como a assexualidade, a interssexualidade e a transsexualidade debateram-se maneiras de visibilizar pautas e necessidades no campo social.

Puxaram as discussões a militante intersexo Michelle Bittencourt, o estudante de filosofia Aruã Siqueira e a membra do Conselho Municipal de Políticas LGBT da cidade de São Paulo, Luiza Coppieters.

Luiza pontua que processo de mudança para visibilizar causas e pessoas que estão à margem no debate público é um movimento longo, mas importante: “é um processo histórico. Eu acredito que as coisas mudam e estão melhores do que antes. E isso é fruto das pessoas estarem se mostrando, ocupando espaços, a partir de organizações políticas como coletivos, centros acadêmicos, mas, fundamentalmente, pelo fato dessas pessoas estarem existindo no lugares de poder como a universidade”.

Ela também reflete que a produção e ação política não podem parar. É necessário estar em evidência para enfrentar a violência contra a existência de corpos que desafiam a ideia tradicional de normalidade.

“Quanto mais se falar e se produzir semanas, congressos, atividades políticas e manifestações, enfim, há uma diversidade de formas para nos mostrarmos. E isso se faz através do discurso, da prática e do enfrentamento que não está isento de receber violência. Nossa existência sempre foi marcada por ela, mas agora estamos enfrentando essa violência com mais pessoas que entendem que isso é inaceitável”, reflete.



A arte como expressão da quinta-feira

A quinta-feira trouxe um novo momento da semana de atividades. Um dia mais leve, que contou com o minicurso “Internet e Mídias Sociais” para entender como as plataformas digitais funcionam e de que modo influenciam a participação política nas redes. Guiaram as discussões a Cientista Social Lara Facioli, o doutorando em Sociologia da UFSCar Felipe Padilha e o mestrando em Sociologia pela UFSCar Rodrigo Melhado.

A tarde chuvosa inaugurou o período de atividades realizadas fora da Unesp-Araraquara. O teatro Wallace, localizado no centro da cidade, recebeu a oficina “Teatro do Oprimido”, realizada por Rafael Campos.

Através de uma série de exercícios, a atividade introduziu os participantes em variados aspectos do teatro do oprimido. Foram priorizados o fazer teatral, a partir de formas e técnicas que podem contribuir para os contextos pedagógicos, terapêuticos e de mobilização social.

O ponto alto do dia e da semana de atividades se materializou a noite. O Sarau da II Semana de Sexualidade e Gênero reuniu dezenas de pessoas no teatro Wallace. O ambiente foi inteiramente decorado para a ocasião, com mensagens políticas e referências das identidades LGBTs.

A celebração contou com o microfone aberto para poesias e a livre expressão do público presente. Performances, shows musicais e artísticos deram o tom da noite de integração de diversos públicos da universidade e da cidade de Araraquara.



Sexta-feira de encerramento

Depois da noite de confraternização, o evento volta aos debates nas salas da Unesp, na sexta-feira, último dia de atividades. Pela manhã, a sala 89 da universidade recebeu a Mesa “Direitos e Cárcere”.

A membra da Coletiva Be, Marina Pedersen,, e o mestrando em Direito pela Unesp-Franca, Victor Serra, trouxeram pontos de vista analíticos sobre a situação carcerária do Brasil e quais direitos têm mulheres e a população LGBT na situação de encarceramento em massa do país.

No segundo momento do dia, a tarde, a “Roda de conversa sobre questões de gênero, raça e saúde mental” trouxe a psicóloga Elânia Lima para discutir como o sofrimento mental perpassa diversos marcadores sociais e como um olhar manicomial pode silenciar essas demandas sociais.

Na sequência, o encerramento da II Semana de Sexualidade e Gênero foi dedicado a refletir a respeito da conjuntura política atual e estratégias de luta contra o machismo, LGBTfobia e o racismo. A atividade contou com a participação de docentes, discentes e membros da sociedade civil durante as discussões.

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