Organização do movimento negro já tem mais de 30 entidades assinando carta de apoio à greve geral de amanhã

Texto: Solon Neto
Ilustração: Alma Preta

Na semana da Greve Geral, organizada por movimentos sociais do Brasil inteiro e marcada para a sexta-feira, dia 28/04, dezenas de entidades do movimento negro formaram uma frente de apoio e publicaram uma carta-manifesto se posicionando ao lado dos grevistas.

Na carta, a Frente Alternativa Preta faz críticas contundentes à terceirização, às reformas trabalhistas e da previdência e também ao congelamento dos orçamento federal por 20 anos. Para o movimento, essas medidas são genocidas pois dão continuidade ao processo de morte da juventude negra e pobre brasileira, afetando diretamente os negros brasileiros, maioria nas periferias e nas classes despossuídas.

O Alma Preta conversou sobre esse apoio à greve com uma das principais articuladoras desse movimento, Beatriz Lourenço, jovem negra, paulistana e integrante da Frente Alternativa Preta.

Em nome da Frente e dos apoiadores, Beatriz fez questão de apontar que o movimento não é só apoiador da greve, mas também um articulador das ações e manifestações, posicionando-se como representante de uma das categorias mais afetadas pelas mudanças.

Entre as entidades organizadas da Frente Alternativa Preta, assinam a UNEGRO, o Coletivo de Negros da APEOESP, a Marcha das Mulheres Negras e o Núcleo de Consciência Negra da USP. No dia 28/04, essas entidades se reunirão em São Paulo para o ato

Por que as entidades apoiam a Greve Geral?

Acho importante pontuar aqui que nós estamos construindo a greve geral, e não apenas apoiando. Fazemos isso porque entendemos que em um processo de golpe, e por consequência de retirada de direitos, o povo negro é o mais atingido. Se nos períodos de democracia frágil, já eramos profundamento escanteados dos avanços do país, em um momento como esse as coisas se agravam muito.

Quando falamos especificamente nas reformas, sabemos que o povo negro também sofrerá as maiores consequências, considerando que já estamos nos empregos mais precarizados, sem registro em carteira, sem estabilidade. Somos a maioria dos trabalhadores terceirizados, e com o avanço da terceirização também estaremos mais expostos a esse tipo de trabalho. Mas principalmente o que é importante pontuar é que em um pais racista como o Brasil, todas as pautas passam pela questão racial, e não de forma genérica, mas profunda. A desigualdade no Brasil está necessariamente calcada na exploração do povo negro.

Quantas são as entidades que aderiram ao movimento até agora?

São mais de 30 entidades, e continuam chegando adesões.

Por que uma organização negra de apoio à greve foi organizada?

Entendemos que como seremos os maiores atingidos pelas reformas, precisamos estar nas ruas organizados  apontando o caráter racista do Governo Federal. Importante apontar, que ainda que de forma não organizada em Frente, estivemos na rua desde o início da luta contra o golpe.

Em outras manifestações em meio a esse conturbado momento político brasileiro, não houve uma intervenção ampla e organizada do movimento negro. Por que agora?

A vida e a luta do povo negro é dura e intensa, o que nunca nos falta são pautas. Lutamos ao mesmo tempo contra o genocídio, por cotas, contra o encarceramento, contra o golpe, enfim, lutamos o tempo todo. Agora foi o momento que conseguimos organizar nossa atuação a partir da Frente Alternativa Preta, mas já estávamos nas ruas antes. Vivemos um momento histórico, um momento em que a luta de classes explode. A nossa reação organizada é também consequência desse processo, e de sabermos da nossa responsabilidade com o nosso povo.

Como esse movimento está se organizando para tomar as  ruas?

Desde 2016 estamos construindo uma alternativa de Frente. A ideia é construir uma Frente Ampla do Movimento Negro, com todos os setores representativos da luta negra no nosso país. Acreditamos na necessidade de dividirmos a direção da reorganização da esquerda, porque temos legitimidade para tanto, já que somos a maioria nesse país, sempre estivemos nas ruas, e principalmente, não servimos apenas como objeto de discurso retórico.  Fazemos a crítica aos nossos camaradas da esquerda brasileira, que por vezes  desconsideram a questão racial em suas análises e atuações. Só será possível tomar as ruas e avançar na luta quando o povo negro se sentir verdadeiramente representado. Uma esquerda branca é incapaz de pensar caminhos para a transformação social brasileira. E é nessa linha que construímos a Frente Alternativa Preta. Nessa linha, apontamos também casos como o de Rafael Braga, como grande exemplo do racismo do estado brasileiro, e da imobilidade da esquerda branca diante das demandas do povo negro.

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