Maria José Menezes, conhecida dentro do movimento negro de maneira carinhosa como Zezé, é uma das grandes referências para as mulheres negras na luta por direitos contra o racismo e o machismo

Texto: Pedro Borges
Imagens: Pedro Borges

Maria José Menezes, nascida em 1962, na cidade de Alagoinhas-BA, que fica a 80 km de Salvador, é ativista do movimento negro e se define como não pacifista e socialista. Influenciada por Lélia Gonzalez, Conceição Evaristo e os Panteras Negras, Zezé luta por uma sociedade justa e igual a todos.“É a sociedade dos sonhos, sem nenhum tipo de opressão”, conta.

É da pequena Alagoinhas, localizada no interior da Bahia, município marcado em trechos do século XIX e XX como rota de comercialização de produtos alimentícios, que a família Menezes construiu parte significativa de sua trajetória.

Os descendentes de Sotero Menezes, bisavô de Zezé, têm até hoje um núcleo de agricultores, que cultivam mandioca e vendem os seus derivados, como a farinha. Próxima da mãe, Maria do Carmo Menezes, e rodeada pelas três irmãs, pelos primos, demais familiares e colegas do bairro, Maria José conviveu até os 6 anos de idade com mulheres e homens negros.

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A casa, com um grande quintal ao fundo, era o espaço ideal para a menina correr, cair, e brincar com as irmãs, os primos e os colegas da rua. Para ir à escola, a professora, que morava quase em frente à casa de Maria José, reunia todos os meninos e as meninas das proximidades para fazerem juntos o trajeto entre o colégio e a rua.

São essas recordações fortes e repletas de carinho que motivam a ativista a lutar pela comunidade negra e ter a certeza de que os seus compromissos com seu povo não são apenas políticos, mas também afetivos.

“Eu sou apaixonada pelo povo negro. Eu sempre falo isso. Eu fiquei pensando isso há um tempo atrás, da militância e do ativismo político, mas mais do que isso, do amor que eu tenho pelo meu povo. É uma característica. Eu fui criada por essas pessoas, o carinho, o afeto da minha mãe, avó, daquelas mulheres, dos meus primos. Os meus primos me chamavam de Maria Bonita, era muito engraçado isso”, relata Zezé.

O carinho que recebeu de todos aqueles que estavam no seu entorno, fundamental para o seu desenvolvimento durante a infância, se tornou uma espécie de combustível na luta pelo bem da comunidade negra. “Isso você carrega para o resto da vida. É esse amor que eu tenho pelo meu povo, e essa vontade que eu tenho que cada vez que eu vejo um preto ou uma preta, eu me vejo. E eu quero muito que o nosso povo se fortaleça”.

São Paulo e o contato com o mundo branco

Em 1970, as vidas da menina e da família se alteraram de maneira significativa. Na busca por trabalho e melhores condições, os Menezes se mudam para o Jardim Miriam, na Zona Sul de São Paulo, onde têm uma casa até hoje.

A drástica mudança de Alagoinhas para São Paulo fez Zezé deixar de ser uma criança de quintal, que corria e brincava, para se tornar uma menina de sala e televisão, fatores que podem restringir a criatividade de uma pessoa durante a infância.

O primeiro grande estranhamento de Maria José na capital paulista, porém, aconteceu fora de casa, no dia-a-dia, quando começou a ver muitas pessoas brancas.

Zeze Corpo 1Maria Menezes, à esquerda, e Jupiara Castro, à direita, durante cerimônia em homenagem à luta de ambas pela comunidade negra. A cerimônia foi realizada no dia 13 de Julho, na sede do Núcleo de Consciência Negra, na Universidade de São Paulo (USP) (FOTO: Pedro Borges/Alma Preta).

“Eles eram os diferentes para mim. Eu não tinha o costume de ver aquelas crianças brancas. Isso tem uma marca até hoje. Quando eu volto para a Bahia, eu me sinto numa zona de conforto. São Paulo para mim é o lugar em que eu trabalho, tenho minha casa, família, esposo, mas não é tão confortável quanto lá”, relata Zezé. Maria José é casada com Admilson Malaquias, pequeno empresário, a quem ela se refere com muito afeto.

Esse choque ganhou maior dimensão quando Maria José iniciou os estudos em uma grande escola, com crianças cujos pais ela e nem a família conheciam. A sala, composta por uma maioria de alunos brancos, fez a menina sentir o tratamento diferenciado dado às meninas e aos meninos negros.

“Eu sempre falo que a escola é a porta de entrada do racismo na vida das crianças negras, e hoje pensando, relembrando, você tem de fato um apagamento, um silenciamento dessas crianças. Elas não se sentem à vontade, mas não conseguem explicar, e também não reclamam”, descreve Zezé.

A pouca intimidade com os moradores da região fez a família evitar que Maria José saísse de casa. Ela recorda ter vivido pouco na rua, e lembra que começou a sair para fazer atividades em grupo para a escola a partir dos 15 anos de idade. A soma desses fatores, o estranhamento com as crianças da escola, a falta de proximidade com as famílias vizinhas, e o gosto pelos estudos, fez Maria José ficar em casa, sob os cuidados da avó, e estudar muito. Para ela, essa foi uma situação composta pelo desejo de aprender e a falta de opção de lazer no entorno.

Juventude

A adolescência de Maria José não foi diferente da de muitos jovens das periferias de São Paulo. Ela conciliou os estudos, que passaram a ocorrer no período noturno em uma escola técnica da região central da cidade, e o trabalho, que se iniciou com a tia Lucia, em uma drogaria, e seguiu para um escritório, quando começou a trabalhar com a carteira assinada, aos 15 anos de idade.

Essa rotina de trabalhar e estudar acompanhou a jovem até a universidade. A possibilidade de se dedicar aos estudos de maneira integral aconteceu somente na pós-graduação, quando conseguiu uma bolsa de mestrado.

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O curso de biologia, numa faculdade particular em Osasco, que hoje se chama Unifieo, foi concluído nessa mesma rotina. “Eu fiz bacharelado e licenciatura em Biologia à noite, mas tinha aula aos sábados. Eu saia da faculdade umas 22h30, 23h da noite na sexta-feira, e no sábado às 8h da manhã eu estava de volta. Então era uma carga horária muito pesada”.

Zezé recorda com orgulho que nunca teve uma reprovação. Terminou o colegial aos 17 anos de maneira exemplar, com boas notas, assim como fez durante a formação em Biologia. Ela relata que sempre se cobrou muito e que a família fazia o mesmo. “Eu não podia me dar o luxo de uma reprovação, de um atraso nos estudos. Foi todo esse período com pouco tempo para o lazer”, explica Zezé.

Na escola em que estudou, próxima à Avenida Paulista, ela lembra que só tinha uma outra aluna negra na turma, a amiga Glória. A falta de alunos negros em espaços de produção de conhecimento e com boa estrutura para o aprendizado é uma das faces do racismo para Zezé. Para ela, as escolas públicas das periferias, depois de um desmantelamento do governo do estado, dirigido há décadas pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), não oferecem aos jovens uma boa qualidade de ensino.

Nessa época, Maria José também recorda que aos sábados à tarde, quando estava em casa depois da faculdade, via muitas mulheres negras subirem as ruas das periferias. Essas mulheres trabalhavam durante toda a semana, aos sábados até o meio dia, e voltavam para a casa dos seus patrões no domingo à noite, para servir o café na segunda pela manhã. “Eu lembro do olhar cansado daquelas mulheres. Uma coisa muito doída”, conta.

Uma das lembranças que Maria José guarda com carinho daquele período é a amizade com os amigos Carlos e Lucia, moradores do Jardim Miriam, e que refletiam com ela sobre as questões raciais no país e os desafios da população negra: “O Carlão e a Lucia são muito bem informados. A gente discutia a história de África, o movimento rastafári, tudo o que acontecia na comunidade negra e fora dela. Foram nesses momentos que eu me encontrei e dei conta da violência em relação à população negra”.

A universidade e a luta política

Maria José começou a trabalhar na Universidade de São Paulo (USP) em 1990, quando foi aprovada para ser técnica de um laboratório de biologia. Depois de entrar na USP, logo se aproximou do movimento sindical da universidade, onde participou das greves e paralisações trabalhistas. Nessa época, ela era próxima do grupo de ativistas negros ligados ao Partido dos Trabalhadores (PT), que hoje compõem a Coordenação de Entidades Negras (CONEN).

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Zezé conta que na juventude daquele período existia uma empolgação muito grande com o processo de redemocratização do país e uma esperança no Partido dos Trabalhadores. O sonho era de construir uma sociedade justa, igualitária e superar o histórico das duas ditaduras brasileiras, a Militar e a de Getúlio Vargas.

Pouco antes de entrar na USP, o Núcleo de Consciência Negra havia sido fundado na universidade, em 1988. Zezé conta que só foi se aproximar do grupo em 1999, com o II Encontro Nacional de Entidades Negras, que aconteceu no Rio de Janeiro.

Ela se recorda de ver Petrônio Domingues e outros militantes apresentarem a proposta de cotas raciais durante uma plenária. A ideia, que logo encantou Zezé, foi rejeitada pelo movimento negro, por uma posição de diferentes grupos de esquerda. Nesse momento, ela se afasta desse grupo por achar um absurdo o movimento negro negar uma proposta de inclusão da comunidade negra no Brasil.

Em 2000, Zezé se aproxima de Jupiara Castro, uma das fundadoras do Núcleo de Consciência Negra da USP, durante uma vitoriosa greve para os trabalhadores e que durou mais de 2 meses.Ao lado de Jupiara Castro, Zezé se filia ao Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) e começa a fazer a discussão das cotas raciais dentro do partido.

Em 2001, no Congresso de Trabalhadores da USP, as duas defenderam que uma das bandeiras de luta da entidade deveria ser as cotas raciais. A proposta foi negada, e o Congresso dos Trabalhadores só mudou seu posicionamento em 2015. “Embora o Núcleo tenha surgido aqui dentro da universidade, nós tivemos vários entraves e um deles foi não ter tido o apoio do sindicato”, conta Zezé.

Salvador e o Candomblé

Em 2003, Maria José começa a dar aula de Biologia no Núcleo de Consciência Negra, atividade que não tem prosseguimento em 2004, quando ela não consegue fazer Pós-Graduação na Universidade de São Paulo (USP).

Ela pede licença da posição de técnica de laboratório e vai para a Universidade Federal da Bahia (UFBA), pela Fiocruz, para viver, como ela mesmo define: “um dos melhores momentos da minha vida”.

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Um dos motivos da alegria em recordar aquele momento era a bolsa de estudos. Mesmo tendo uma série de obrigações, ela não tinha que trabalhar e estudar, podia focar apenas nos estudos. “Era um dos melhores laboratórios de pesquisa em Leishmania no Brasil. É uma pós-graduação dificílima, são 10 vagas por ano, que você tem que estudar um livro de patologia enorme, um livro de imunologia enorme, e aí você tem uma prova em inglês”.

Zezé conta com carinho das amizades que cultivou em Salvador, como as ativistas Denize Ribeiro, professora da Universidade Federal do Recôncavo Baiano, e Vilma Reis, Ouvidora Geral da Defensoria da Bahia.

A passagem em Salvador, que aconteceu de 2004 a 2006, foi marcada pela aproximação ao Candomblé. Mesmo que sempre tenha tido muito respeito à tradição, nunca tinha vivenciado de perto a religião de matriz africana. A sua vida muda quando sente a experiência religiosa da incorporação, quando disse ter tido um comportamento que não era seu, mas sim de um orixá.

“Isso foi muito marcante, porque traz uma outra dimensão da sua existência, da sua ligação com as pessoas, mas também o visível e o não visível e aí transforma toda visão filosófica da existência. Você sai desse contexto mais cartesiano e ai foi eu de fato consegui me aproximar realmente da experiência africana, do que é ser um africano na diáspora. Isso é muito legal”.

O convívio com a mãe Hilda Jitolu, matriarca do Ilê Aiyê, integrante da casa de candomblé a qual Maria José pertence até hoje, foi uma das experiências que mais a moldou enquanto sujeita. Ela lembra de morar no bairro da Liberdade, o mais negro de Salvador, e de passar as tardes, sempre que podia, na casa de mãe Hilda para ouvir suas histórias e pensamentos.

A estadia na capital baiana também foi muito boa do ponto de vista acadêmico. Maria José já havia sido co-autora de outras publicações científicas, mas, com o seu mestrado, teve a possibilidade de ser autora e coautora de um artigo, publicado em uma revista internacional.

Volta para São Paulo

A chegada em São Paulo se dá com uma dúvida: reassumir o cargo na universidade ou fazer doutorado? Aos 40 anos, Zezé diz que a competitividade da sua área e a idade a motivaram a reassumir o emprego.

Ela diz ter voltado muito fortalecida de Salvador, onde conviveu com outras mulheres negras, e decidida a se envolver de maneira direta com a pauta racial. Em 2009, começa a participar de maneira orgânica do Núcleo de Consciência Negra, rearticula a gestão e decide fortalecer, como estratégia de luta, o diálogo com outras entidades de dentro da universidade, como o movimento estudantil e dos trabalhadores, e de fora da USP, como a União de Núcleos de Educação Popular para Negrxs e Classe Trabalhadora (Uneafro).

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Os muitos atos e diálogos organizados começaram a gerar frutos positivos. Em 2012, o Congresso de Estudantes da USP tira como um dos eixos de luta o pedido de cotas raciais. Zezé destaca nesse processo a ação política dos estudantes negros, articulados por meio de grupos e coletivos, como a Ocupação Preta e a “Por que a USP não tem cotas?”, como fundamentais para a aprovação da pauta.

Na noite da terça-feira, 04 de julho, o Conselho Universitário da Universidade de São Paulo (USP) aprovou a adoção de cotas raciais.  A proposta aprovada passa a valer já para o próximo vestibular da USP, a ser realizado ainda este ano. Com crescimento gradativo, a reserva de vagas para escola pública será de 37% para 2018, 40% para 2019, 45% para 2020 e 50% a partir de 2021. Dentro dessa proposta, as cotas raciais devem respeitar a proporção populacional de raça no estado paulista, que hoje é de 37,2%.

Ela conta que o Núcleo de Consciência Negra foi uma figura importante na construção do projeto de cotas raciais na universidade há mais de 20 anos. Foi o Núcleo um dos responsáveis por propor a porcentagem de estudantes negros de acordo com a presença da comunidade negra em cada estado.

Apesar da vitória, resultado de uma luta de décadas, Maria José Menezes, a Zezé, continuará na luta pelos direitos e avanços pelo povo negro, grupo pelo qual ela é apaixonada.

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