No Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Afro-latinoamericana e Caribenha, o Alma Preta relembra a história de quatro mulheres negras importantes no passado e no presente da história brasileira e latino-americana. Conheça Tereza de Benguela, Aqualtune, Luiza Bairros e Victoria Santa Cruz.

Texto / Pedro Borges e Vinicius Martins
Imagens / Alma Preta

No ano de 1992, na cidade de Santo Domingo, República Dominicana, instituiu-se 25 de Julho como o dia da Mulher Afro-latinoamericana e caribenha. A data visa dar destaque à resistência das mulheres negras em toda a América Latina e à luta contra o racismo e o machismo.

O Brasil só adotou a data no calendário oficial da nação em 2 de Junho de 2014, o que sagrou o país como o último a celebrar o dia de maneira oficial. A lei 12.987, proposta de autoria da ex-senadora Serys Slhessarenko, escolheu por homenagear o 25 de Julho com o nome da líder quilombola do Mato Grosso, e transformar a data em Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra.

O dia se constitui como um marco importante de resgate e valorização das identidades e das histórias de dezenas de mulheres negras do Brasil e da América Latina. Para celebrar o dia 25 de julho, o Alma Preta selecionou quatro histórias de mulheres negras notáveis, símbolos de luta e resistência. Conheça as líderes quilombolas Tereza de Benguela, homenageada no dia de hoje, e Aqualtune, a ativista Luiza Bairros e a poeta e estilista peruana Victoria Santa Cruz.

Tereza de Benguela, a liderança negra brasileira

A história não sabe se Tereza de Benguela nasceu no continente Africano ou no Brasil, muito menos a data em que ela veio ao mundo. O que se tem conhecimento é que Tereza viveu durante o século XVIII no Vale do Guaporé, no Mato Grosso, e foi a maior liderança do Quilombo do Quariterê, hoje município de Vila Bela da Santíssima Trindade, há 548 km da capital do estado, Cuiabá.

Tereza coordenou o maior quilombo do Mato Grosso, que resistiu às ações de bandeirantes de 1730 a 1795, quando o espaço foi atacado e destruído, a mando da capitania regional. As decisões tinham a participação do seu companheiro, José Piolho, assassinado por soldados do Estado.

O quilombo, território de difícil acesso, foi o ambiente perfeito para Tereza coordenar um forte aparato de defesa e articular um parlamento para decidir em grupo as ações da comunidade, que vivia do cultivo de algodão, milho, feijão, mandioca, banana, e da venda dos excedentes produzidos.

“Governava esse quilombo a modo de parlamento, tendo para o conselho uma casa destinada, para a qual, em dias assinalados de todas as semanas, entravam os deputados, sendo o de maior autoridade, tido por conselheiro, José Piolho (…). Isso faziam, tanto que eram chamados pela rainha, que era a que presidia e que naquele negral Senado se assentava, e se executavam à risca, sem apelação nem agravo” (Anal de Vila Bela do ano de 1770).

O Quilombo do Quariterê abrigava mais de 100 pessoas, com destacada presença de negros e indígenas. Todos conviviam juntos sob a coordenação da Rainha Tereza, como ficou conhecida em alguns registros históricos.

Outro ponto nebuloso de sua trajetória é a morte da líder quilombola. Uma versão diz que ela se suicidou depois de ser capturada por bandeirantes a mando da capitania do Mato Grosso, por volta de 1770, e outra afirma que Tereza foi assassinada e teve a cabeça exposta no centro do Quilombo.

O que se tem conhecimento é que alguns quilombolas conseguiram fugir depois do ataque dos bandeirantes e restituir o espaço, que foi novamente vítima de ação da capitania do Mato Grosso em 1777 e dizimado de maneira definitiva em 1795.

Mesmo sem a Rainha Tereza e o Quilombo do Quariterê, a história é muito presente no imaginário da região, onde a oralidade garante a permanência do mito de Tereza de Benguela. Entre os relatos, alguns moradores da Vila Bela da Santíssima Trindade contam que ela navegava com barcos imponentes pelos rios do pantanal.

Ela também foi eternizada nos versos da escola de samba Unidos do Viradouro, com o enredo da agremiação de 1994, cujo título é “Tereza de Benguela – Uma Rainha Negra no Pantanal”.

Aqualtune, a luz de Palmares

 

A história de Aqualtune é singular na memória afro-brasileira. Sua vida começa no continente africano, no Congo, no século XVI. Era princesa, filha do rei Mani-Kongo, respeitada por seu papel nas terras congolesas.

Veio ao Brasil após ver seu pai e seu reino derrotados na Batalha da Ambuíla, contra as forças angolanas e portuguesas pelo controle do território de Dembos, que separava Angola e Congo.

Historiadores afirmam que durante os confrontos, Aqualtune liderou 10 mil pessoas durante uma invasão contra seu reino. Entretanto, a resistência não foi capaz de frear os angolanos e os interesses portugueses.

Ao fim da guerra, seu pai foi decapitado e ela foi capturada por forças portuguesas. Foi vendida à senhores de escravos brasileiros junto de seus compatriotas.

Uma vez no Brasil, mais especificamente no Recife, foi vendida como escrava reprodutora para uma fazenda em Porto Calvo no Pernambuco, onde foi estuprada para dar origem a novos cativos de acordo com os interesses dos senhores de escravos.

No entanto, sua força se fez presente mais uma vez. Ao ouvir falar da resistência negra no Brasil, constituída em quilombos, Aqualtune não perdeu tempo e junto de outros escravos lutou pela liberdade e fugiu da fazenda em que estava aprisionada.

Mesmo no Brasil, a fama de Aqualtune entre a população negra era grande. Seu passado e sua realeza foram importantes para que em Palmares ela logo assumisse novamente uma posição de liderança. A partir das tradições de sua cultura, comandou o maior Quilombo da história brasileira.

Com o passar dos anos tornou-se mãe. Seu filho e herdeiro veio a ser conhecido como Ganga Zumba. Tempos depois tornou-se avó. E seu neto era nada mais nada menos que Zumbi do Palmares.

A data de sua morte e o fim de sua vida são incertos. Relatos apontam que aconteceu depois de anos como forte liderança da resistência negra local. Há quem diga que morreu durante uma emboscada paulista para destruir o Quilombo dos Palmares, durante um incêndio. Outras teorias afirmam que ela teria fugido e vivido seus últimos dias de vida em paz em outra comunidade.

Pouco lembrada pelos livros e pelas escolas do Brasil, Aqualtune foi uma figura importante para a resistência afro-brasileira no período colonial. Simbolizou liderança e luta diante do sistema escravocrata e fez questão de passar isso adiante, seja através de seus filhos ou de seus seguidores em Palmares.

Luiza Bairros, uma referência que fica

Luiza Helena Bairros nasceu na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, em 1953. Filha de uma dona de casa e um militar, a recordação da menina sobre a capital gaúcha da época era a de um município muito segregado, com clubes sociais destinados a brancos e outros, como forma de resistência, a negros.

Os pais, que muito valorizavam a educação e tinham como meta formar os filhos, fizeram tudo o que estava ao alcance para investir na educação de Luiza e seu irmão. Estudante de escola pública, a jovem graduou-se numa das primeiras turmas de Administração Pública e Empresas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Anos mais tarde, em 1979, Luiza mudou-se para Salvador, onde relatou, em entrevista para a Marie Claire, a felicidade de chegar à capital baiana. “Imagine uma pessoa negra, vivendo em uma sociedade como a gaúcha, que se defronta com a Bahia, de maioria negra. Uau! É muito forte. Salvador foi o lugar onde comecei a fazer minhas próprias escolhas. A cidade me ensinou a viver entre pessoas negras”.

Bairros seguiu os estudos e tornou-se mestre em ciências sociais pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), com o projeto “O Negro na Força de Trabalho na Bahia, entre os anos 1950 -1980”. A pesquisa, focada na discriminação racial no mercado de trabalho, aponta para as dificuldades do racismo conforme o negro ascende socialmente. Luiza também se especializou em Planejamento Regional pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

Em Salvador, a intelectual e ativista participou de maneira muito presente da vida política do município e se tornou um dos grandes nomes do Movimento Negro Unificado (MNU), a principal organização da comunidade negra da segunda metade do século XX. Ela compôs a entidade até o ano de 1994.

“Não se trata mais de ficarmos o tempo todo implorando, digamos assim, para que os setores levem em conta nossas questões, que abram espaços para que o negro possa participar. Essa fase efetivamente acabou. Daqui para a frente, vamos construir nossas próprias alternativas e, a partir dessas alternativas, criar para o povo negro como um todo no Brasil uma referência positiva”, disse Luiza Bairros em entrevista ao jornal do Movimento Negro Unificado (MNU).

Ela também compôs a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial do Estado da Bahia (SEPROMI) em 2008, na gestão do governador Jaques Wagner. Na região Nordeste, Luiza participou da pré-implementação do Programa de Combate ao Racismo Institucional para os estados da Bahia e Pernambuco.

Em 2010, ela foi convidada pela presidenta Dilma Rousseff a compor a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) e permaneceu no posto até 2014. Luzia se filiou ao Partido dos Trabalhadores (PT) em 2011.

Durante o governo federal, foi responsável direta pela criação do Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (SINAPIR), com a proposta de criar instâncias de denúncia de casos de discriminação e com o objetivo de implementar políticas públicas voltadas à comunidade negra.

A ativista também tem a sua trajetória reconhecida a nível internacional. Ela trabalhou nas Nações Unidas na formulação de programas de combate ao racismo entre os anos de 2001 e 2005, e foi fundamental na construção do Grupo Temático da ONU sobre Gênero, Raça e Etnia.

Bairros se formou doutora pela Universidade de Michigan, nos EUA, na área das ciências sociais, e foi uma das representantes brasileiras da Conferência de Durban, África do Sul, evento que ocorreu em 2001, e reuniu representantes de 173 países para discutir medidas contra o racismo, discriminação racial, xenofobia e outras intolerâncias.

A ativista, tida como um dos grandes nomes do movimento negro brasileiro, recebeu em 2011 a medalha Zumbi dos Palmares, homenagem dada pela Câmara Municipal de Salvador, o título de Cidadã Baiana (2013), concedido pela Assembleia Legislativa da Bahia, e o certificado Bertha Luz (2016), entregue pelo Senado Federal a pessoas com destaque na luta pelo direito das mulheres.

Quando questionada sobre “O que é o racismo”, por Fernando Pompeu, em entrevista publicada no Geledés, a intelectual deu a seguinte resposta. “Eu vejo o racismo como a ideologia em estado puro. É o que informa e o que possibilita desenvolver o preconceito e praticar a discriminação. É o que sustenta. O racismo engloba todas as relações, passa por dentro delas. É uma ideologia baseada na desumanização do outro, no extermínio do outro. O extermínio do outro só é possível porque há grupos que se supõem superiores. Não existe racismo de baixo para cima, pois ele sempre pressupõe a ideia de superioridade. Portanto, o Brasil é um país com um racismo bem desenvolvido. Tão desenvolvido que, durante muito tempo, sua existência pôde ser negada criando uma espécie de racismo invisível. A ponto de acusarem os que falam a palavra racismo de promotores de sua existência. Ou seja: deixa tudo como está, pois assim estamos todos confortáveis”.

Luiza faleceu em 12 de Julho de 2016, na cidade de Porto Alegre, vítima de câncer no pulmão, doença contra a qual lutava há três meses. Faleceu aos 63 anos e deixo um legado de mais de 40 anos de articulação e luta pelo movimento negro brasileiro.

Gritaram-me negra: a vida e a arte de Victoria Santa Cruz

Poeta, estilista, coreógrafa e folclorista. A peruana Victoria Eugenia Santa Cruz Gamarra é uma figura multitalentosa e histórica para toda a população negra da América. Nasceu em 1922 na província La Vitoria, em Lima, no Peru. Filha do dramaturgo e poeta Nicomedes Santa Cruz Aparicio e da bailarina marinera Victoria Gamarra.

A arte esteve sempre presente em seu dia-a-dia e ao longo de sua existência se constituiu como o principal canal para a auto expressão de sua identidade negra. Posicionou-se contra o racismo em uma sociedade que a pele negra também incomodava.

A chamaram de negra e ela gritou de volta compondo um dos poemas e expressões anti-racistas mais icônicos da história. Usou sua história de vida para falar das aflições de milhões que vivem no continente americano.

O trabalho de vitória Santa Cruz foi importante ao discutir as identidades negras nas sociedades latino-americana, sobretudo no Peru. Foi criadora do grupo teatral Cumanana, ao lado de seu irmão Nicomedes Santa Cruz, algo semelhante ao Teatro Experimental do Negro no Brasil.

O grupo era composto inteiramente por atores e atrizes negras do Peru. Sua intenção era valorizar e disseminar a cultura afro-peruana como forma de consolidar as identidades negras locais.

Estudou em Paris em 1961, na Universidade de Teatro das Nações e na Escola Superior de Estudos Coreográficos. Lá desenvolveu conceitos e ideias que a levaram a criar a companhia Teatro y Danzas Negras del Perú ao voltar da Europa.

O trabalho com a nova companhia rendeu apresentações como representante peruana nos Jogos Olímpicos de 1968, na Cidade do México. Excursionou pelo mundo difundindo a perspectiva cultural afro-peruana e afirmando a importância do combate ao racismo, ao preconceito e à discriminação racial.

Suas apresentações pelos Estados Unidos em 1969 lhe renderam convites para virar professora universitária. Lecionou na Universidade Carnegie Mellon, na Pensilvânia, sendo uma das poucas mulheres negras latino-americanas a alcançar o posto de docente vitalícia da instituição.

No Peru, também foi nomeada diretora do Centro de Arte Folclórica de Lima e dirigiu o Instituto Nacional de Cultura peruano entre os anos de 1973 e 1982. Tendo alcançado feitos notáveis tornou-se uma referência incontestável da cultura negra ocidental.

Victoria Santa Cruz é um dos maiores símbolos de resistência de nosso tempo. Morreu aos 91 anos de idade em 30 de agosto de 2014. Sempre atuante, deixou um legado capaz de atravessar gerações não apenas para cultura peruana, mas para toda a cultura negra das Américas.

 

Sobre o Alma Preta

O Alma Preta é uma agência de jornalismo especializado na temática racial do Brasil. Em nosso conteúdo você encontra reportagens, coberturas, colunas, análises, produções audiovisuais, ilustrações e divulgação de eventos da comunidade afro-brasileira. Nosso objetivo é construir um novo formato de gestão de processos, pessoas e recursos através do jornalismo qualificado e independente.

Onde Estamos

Endereços e Contatos
18-80. Jd Nasralla - Cep: 17012-140
Bauru - São Paulo
contato(@)almapreta.com

Mais Lidos