Publicação é a mais antiga e tradicional composta por escritores e poetas afro-brasileiros. Para comemorar os 40 anos de existência dos Cadernos Negros, o Alma Preta preparou uma reportagem especial com a história e os personagens que compuseram essa trajetória.

Texto / Pedro Borges
Imagem / Acervo/Reprodução

O Quilombhoje faz o lançamento da 40° edição dos Cadernos Negros no dia 16 de Dezembro, das 17h30 às 21h30 na Academia Paulista de Letras, no Largo do Arouche. A atividade é mais um capítulo na história da publicação poética mais antiga e tradicional da comunidade negra.

A abertura da celebração tem início com o depoimento dos criadores dos Cadernos Negros, Hugo Ferreira e Cuti, e do leitor da série, Eraldo Marcondes. Na sequência, Zainne Lima, da Antologia Jovem Afro, coordena o debate “O que os Cadernos Negros representam?”, com o jornalista Oswaldo Faustino e Erica Malunguinho, Aparelha Luzia.

A cerimônia de lançamento conta com uma intervenção artística da Cia Teatral Os Crespos, e pockets show do rapper Panikinho e da cantora Bia Ferreira.
Durante o encontro, também haverá um diálogo com os escritores que compõem as páginas da edição de 40 anos dos Cadernos Negros.

A história escrita em negrito e em tinta preta

A publicação, já traduzida para o inglês, e presente na lista de leituras obrigatórias do vestibular da Universidade Federal da Bahia (UFBA) para as provas de 2012 e 2013, é a obra literária mais antiga e tradicional da comunidade negra.

O estudo “Um pouco de História de Cadernos Negros” criado pelo Quilombhoje e pela pesquisadora Aline Costa, feito em homenagem aos 30 anos da coletânea, é uma fonte rica sobre a história da publicação.

Na pesquisa, Aline descreve as barreiras enfrentadas e a trajetória de sucesso dos Cadernos Negros.
“Em um país como o Brasil, com o histórico de ausência de identidade, de servidão à cultura estrangeira, dificilmente uma manifestação como os Cadernos Negros sobreviveria. Mas sobreviveu”.

Os Cadernos Negros surgiram em 1977, criado por duas figuras, o escritor e poeta Cuti e o ativista e poeta Hugo Ferreira. A obra inaugural, feita de 52 páginas, foi a possibilidade, como conta Cuti, de enfrentar o apagamento da presença do negro enquanto sujeito da literatura brasileira.
“Nosso país não podia mais viver sem a nossa experiência de vida colocada em forma de literatura por duas razões: nós negros precisávamos estar representados e também o branco precisava ser visto de outra maneira”.

O lançamento da obra ocorreu no Festival Comunitário Negro Zumbi (FECONEZU), realizado na cidade de Araraquara, em 1978, que reuniu cerca de 2 mil pessoas. Alguns dias depois, novo lançamento, na Livraria Teixeira, na Rua Marcondes, mas agora para outro público, para a elite paulistana, e para figuras como Florestan Fernandes.

A primeira edição, com poesias de Celinha, Oswaldo de Camargo, Eduardo de Oliveira e Oliveira, foi feita pelo poeta Cuti, quem reuniu os escritos, orçou o valor da publicação com uma gráfica, e juntou o dinheiro com os escritores para pagar a impressão.

Era ele quem cotava o valor das gráficas e se esforçava para reunir os poetas também nas publicações seguintes. Sônia Fátima cuidava da parte financeira do grupo, Oswaldo de Camargo editava os textos, e Marinete, a Nete, ajudava na organização dos eventos de lançamento e na busca de novos leitores da obra.
A continuidade da publicação desde então também é resultado de uma estratégia criada por Cuti, a de colocar o lançamento da próxima coletânea já naquela que seria publicada. Para ele, era a forma das pessoas assumirem um compromisso, e uma garantia da continuidade dos Cadernos Negros.

Hugo Ferreira relata que a ideia dos Cadernos Negros era a de construir um coletivo de escritores e, por isso, era preciso dar espaço para quem tivesse o interesse de publicar. Naquele momento, não havia qualquer processo de seleção para se publicar nos Cadernos Negros.

A inspiração para o nome veio de uma fatalidade, ocorrida em 13 de Fevereiro de 1977, a morte de Carolina Maria de Jesus. O nome foi então uma homenagem à escritora, uma das principais da história brasileira.

“Ela escrevia em cadernos; a gente também escrevia as nossas poesias em cadernos, somos da geração anterior ao computador e muita gente não tinha máquina. Uma coisa muito simples se tornou uma coisa muito forte, os cadernos eram algo nosso”, explica Hugo Ferreira, o idealizador do nome.

Os encontros para a constituição dos Cadernos Negros ocorriam na casa de Cuti, no bairro do Bixiga. Era lá que os poetas se encontravam para discutir os textos que seriam publicados, bem como a obra de autores consagrados, caso de Solano Trindade e Lima Barreto, textos também publicados nas páginas dos Cadernos Negros.

Dessas conversas surge o Quilombhoje, grupo que tinha o objetivo de discutir a presença do negro na literatura brasileira e o grupo passa a organizar e colaborar para a construção dos Cadernos Negros.

Logo no início, surge o primeiro afastamento do grupo, de Hugo Ferreira. Ele acreditava no potencial político do Cadernos Negros, e queria popularizar e democratizar a poesia, como forma de apresentar novas ferramentas políticas para a comunidade negra.

“Eu recebi muitas críticas dizendo que meu texto era panfletário. Mas eu não sou escritor, sou militante”, conta.

No início dos anos 80, o Quilombhoje recebe novos integrantes, figuras importantes para a literatura negra e para a continuidade dos Cadernos Negros, como Esmeralda Ribeiro, Márcio Barbosa, Oubí, e Miriam Alves.

A entrada desses novos integrantes ressuscita a discussão sobre a política. Queria-se saber se o Quilombhoje seria um espaço de discussão literária, ou um grupo de divulgação e ação política.

Naquele momento, a proposta defendida pelos mais jovens sai-se vitoriosa, e integrantes mais antigos, como Oswaldo de Camargo, se afastam do grupo, o que deixa Cuti em uma situação delicada. Ele foi obrigado a decidir entre o alinhamento com os amigos de longa data, do início da publicação, ou a continuidade com os jovens, muito interessados pela divulgação da literatura.

Opta por seguir no grupo com os jovens.

“Foi bom porque a partir daí os Cadernos Negros evoluíram, pois o trabalho em equipe dá muito mais resultado”, conta Cuti.
Da década de 1980 para cá, uma série de mudanças ocorreram na composição dos Cadernos Negros.

Cuti, por problemas pessoais, se afasta do Quilombhoje em 1983, mas continua a publicar nos Cadernos Negros. Em 1999, novas saídas e a continuidade da presença de figuras como Esmeralda Ribeiro e Márcio Barbosa, as mais antigas a frente do grupo.

Vale destacar que as divergências políticas ao longo da história dos Cadernos Negros não foram suficientes para mudar a admiração e o carinho entre aqueles que construíram essa história.

“Oswaldo de Camargo é um grande amigo e suas opiniões são sempre enriquecedoras”, afirma Márcio Barbosa.

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