Texto: Túlio Custódio / Edição de Imagem: Pedro Borges

Estou nessa de rever coisas que escrevi. De adicionar ou remodelar alguns pensamentos. Acho que a atividade de escrever artigos que, de uma maneira muitas vezes leve ou só de “sopetão”, divide e compartilha questões que fazem parte de inquietações ou vontades de troca diante de coisas que leio, penso, vejo, piro etc.

Bem, nessa esteira, revisito um texto que escrevi ano passado, à época do 13 de maio.

Bom, sabemos — ou devíamos saber — que o 13 de Maio é encarado criticamente pelo(s) protesto(s) negro(s) como uma data que não deve marcar o lugar histórico de construção de memória do negro — lugar esse que seria do coadjuvante “libertado do peso da escravidão pelo bem-fazer boa vontade do branco, no caso, a princesa Izabel”. Um lugar passivo. Passivo que ignora a existência de resistência, de atividade e de protagonismo do negro construído sobre a sua própria visão e sentido de si — apesar da resistência imposta da sociedade escravocrata contra a humanidade do negro.

Dessa maneira, o(s) protesto(s) negro(s) historicamente conquistaram e colocaram no radar uma outra data, dia 20 de Novembro, que marca o lugar protagonista do negro contra sua situação de interação e opressão em sua vida e experiência fora de África.

Mas qual era a proposta do texto “jamais fomos modernos”?

Bom, primeiramente não se tratava de uma leitura latouriana (importante antropólogo francês, do qual gosto dos textos mas não tenho e nem pretendo ter domínio pleno para conseguir tergiversar seus conceitos em uma leitura do racismo brasileiro) sobre racismo no Brasil. O título faz sim alusão ao título do livro de Bruno Latour, mas de nenhuma maneira com intenção de ser uma sobreleitura do livro para o tema de questão racial. Não tenho condições nem qualidades intelectuais para tal empreitada.

Uma inspiração há, de certo. Acredito — ingenuamente ou de maneira pretensiosa, ou dois juntos — que a necessidade de refletir aspectos que levem à construção de identidades na modernidade crava, para mim, a importância de refletir nossa questão racial (nossa = todos!) dentro de uma esfera (conceitual e categorial) ampla. Ah: da modernidade!

Sim, pensar grande. Pensar ou tentar pensar de forma total, nas totalidades que compõem as esferas que nos acomete. Claro: pensar grande — e sem muitos instrumentos — pode levar a erros. Sim. Mas também pode levar a olhar questões para além das armadilhas conceituais geradas dentro de um campo— principalmente quando tomadas no calor dos debates que temos hoje (e isso é absolutamente interessante!).

Portanto, qual era a proposta? Nenhuma em específico. Destilar um olhar para pensar 13 de maio ou qualquer data que retrate/remeta/vincule a situação do negro no Brasil que considere perspectivas amplas de identidades de nós e sobre nós talvez seja ou poderia ser o que mais me conduz a querer “misturar com outras áreas”.

Missa campal celebrada em ação de graças pela Abolição da Escravatura no Brasil, 1888. São Cristóvão, Rio de Janeiro.

 

Para além do ponto que trataremos abaixo, vale pensar nessa data: diante da tal “libertação”, o quanto estamos nos apropriando do mundo (em seus aparatos conceituais, reflexivos e críticos) e criando para colocar nossas questões? Por que estudar questões raciais é estudar (leia-se: visto como) estudar “o negro no canto do negro e só para negro”? Por que refletir por exemplo sobre uma intelectual negra não é refletir sobre pensamento social brasileiro, e não só “pensamento crítico de ativistas”?

O que quero dizer é que o lugar de denominações e classificações parte do sistema de existências e liberdades das mônadas (indivíduos) estabelecidas na modernidade. Pode ser pensado nesses movimentos a partir de como apropriamos nossas reflexões, ideias, agentes e onde os inserimos. Isso é: o que o Falar e Pensar sobre nós tem a ver com as correntes e áreas de conhecimento tidas como amplas e universais (sabemos da falha dessa noção) — mas que, a nós, é destinada parte menor, apendicular e quase “perfumática” (neologismo que diz mais sobre o cheiro do que a performance em si) do que estamos falando? Um engano. Um problema.

Qual é a real inclusão, portanto, dessas vozes, cabeças e conceitos no espaço de disputa para construção das identidades da modernidade? Quem somos nós nessa ordem toda? Somos modernos (incluídos nessa dinâmica do criar as categorias de base para construção do pensamento sobre esses tempos, Eras e parâmetros de tempos, Eras e histórias)?

A versão de 2015 do meu texto “jamais somos modernos” falava do que está fora (fora aí na pretensa situação do interlocutor que fala e pensa sobre o contexto, mas não necessariamente é quem está ali vítima explícita e direta daquilo que se fala, mesmo que, de muitos modos, está muito próximo àquela situação falada) sobre a realidade do negro como distante dos ideias modernos que perfazem a igualdade, a liberdade e a fraternidade. No entanto, também precisamos tratar do “que está dentro”. Dentro do quê? Da base do pensamento que constrói essas identidades.

No tete-a-tete das discussões de militância, observo como muitos conceitos que “ganharam as ruas” nos últimos tempos são interessantes enquanto “ganhar vida para além dos livros e teses”. Porém, ficam e param na própria militância. Nascem ali e ficam ali, como uma ave que compreende o poder de suas alças mas nunca alça voo para além de seu próprio quintal, e nem sobe à árvore para avistar, ao horizonte, as possibilidades de poder de alcance daquela ideia.

 

Os efeitos do 13 de Maio ainda são sentidos em todo o Brasil


Ou ainda são utilizados como jogo de palavras, como se no dizer-do-dito os conceitos não carregassem os sentidos que possuem — politicamente construídos — e pudessem, dessa maneira, ser esvaziados como uma palavra qualquer, morta no vocabulário da inserção semântica e ideológica de grupos e povos, morta na consideração do valor (conhecido e atribuído) que tem para os grupos e povos que a designaram. Não pode ser assim!

É apenas na inclusão plena de conceitos, reflexões, lugares e classificações criadas no seio de o(s) protesto(s) negro(s) de modo amplo e irrestrito é que poderemos, talvez, tangibilizar o que está dentro. Tem muito a se pensar sobre isso. Amplitudes, totalidades e referenciais do pensamento. Próximas empreitadas…

O que dizer em 2016?

Continuamos não modernos. Seja na inclusão dos elementos da modernidade em nossas vidas, na liberdade, igualdade e fraternidade. Seja no nosso pensamento para mundo, nas ideias e conceitos que concebemos — frutos da luta, reflexão e vivência (não necessariamente nesta mesma ordem).

Uma reflexão de Malcolm X ajude a assentar melhor o que quero dizer sobre (reproduzida com adaptações e tradução livre):

Se você não pode fazer por você o que o homem branco pode fazer por ele, não diga que você é livre. Dizem que vivemos em uma [sic]democracia (…) Se democracia significa liberdade, por que não somos livres? Se democracia significa justiça, por que não temos justiça? Se democracia significa igualdade, por que não temos igualdade?

Enfim. Nessa modernidade… Seguimos amarrados, emparedados. Para fora e para dentro.


Bom, vamos ao texto anterior, publicado há um ano (Maio/2015) no HuffingtonPost Brasil, e, relendo, continua pertinente.

Texto publicado no portal Huffpost Brasil em 13 de maio de 2015.

13 de maio. Data tida como histórica da Abolição da escravatura. Abolição de quem?
Sabemos o legado que @s negr@s ainda carregam. Sabemos as desigualdades que ainda perpetuam quando separamos em números (e histórias) o Brasil dos brancos e o Brasil dos negros. Lacuna abissais que transformam o Brasil (país do futuro) em duas realidades completamente diferentes.

Sabemos que a representação d@s negr@s, seja em locais de poder, seja nas mídias, ou simplesmente na ficção e nas estórias, ainda é menor, pejorativa, abaixo da linha da dignidade e do respeito.

Sabemos que a luta contra o racismo anti-negroracismo que “é o arame farpado que dilacera a carne da dignidade do negro brasileiro” como dizia Abdias do Nascimentoainda é uma luta em processo que encontra mais revéses e obstáculos, do que aceitação e empatia.

Sabemos (e sentimos) que o racismoainda inspirado por Abdias do Nascimento e sua brilhante visão sobre questão racial no Brasilé um camaleão que sempre se ajusta para reproduzir e se adequar às novas formatações da sociedade. Isso significa, em última instância, que o protesto negro (na multiplicidade de suas frentes, iniciativas,muito sangue e suor) parece estar sempre correndo atrás do prejuízo: quando conseguimos cotas [recadinho: superem, ela existe, deu certo e vai continuar crescendo] nas federais, algumas estaduais (como aquela que é símbolo do que seria o “melhor da educação superior brasileira”) resistem.

Quando conseguimos entrar na universidade, parece que não é o melhor caminho “pois estamos alimentando a rivalidade racial”, ou “não estamos entrando por nosso próprio “””mérito”’’’(muitas aspas nesse termo que sempre me faz espirrar)mesmo diante de uma realidade na qual mercado exige diplomas. E quando temos um diploma de ensino superior, parece não ser suficiente, pois aí se exige língua estrangeira, e experiência de viagens internacionais.

Liberdade, Igualdade e Fraternidade foram os ideais da Revolução Francesa

Racismo muda conforme a música, e, não nos enganemos, também pauta o DJ.

Porém, o que gostaria de chamar atenção para dia 13 de maio é o valor simbólico da ideia de “libertação”. Ao se libertar (na luta e resistência) e ser libertado (juridicamente), @ negr@ sairia da condição de Coisa para entregar como Humano a plataforma da sociedade e ser Ser Humano livre e digno de direitos e deveres. Parece estranho mas sim: há apenas 128 anos nós negr@s temos estatuto social e jurídico de pessoas. Sim, não estou falando de poder votar, ou ter carteira de habilitação ou ter CPF. Estou falando de ser GENTE! Juridicamente, falandoe sim, isso conta muito em uma sociedade regulada por leis.

A libertação, ao conduzir @ negr@ para lugar de um ser pleno de direitos e deveres, deveria ter corroborado para ideia de que @ negr@ estaria plenamente inserid@ na modernidade, como indivíduo pleno fundamentado nos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. E o que temos?

Liberdade. Não temos. a partir do momento que uma sociedade carrega o legado de ter sua estrutura cultural, social, econômica e simbólica baseado em uma desigualdade estabelecida e legitimada pela herança escravocrata, não somos livres para seguir nosso lugar. A partir do momento em que representações externas a nós se impõem e determinam toda uma visão e imaginário social (mulher negra como objeto sexual ou força de trabalho e subserviência; homem negro como potencial perigo social, marginal e bandido, entre outros), não há liberdade. Quando fazemos a analogia do buffet de pratos do que a Liberdade representa para constituição do indivíduo moderno, a mesa do negro possui pratos que ele não pode se servir, seja porque não está “incluso no pacote”, seja porque “ah, negro não gosta disso”. Não há liberdade.

Igualdade. Certa vez escrevi sobre conceito de “igualidades”, que é uma etérea noção de que todos somos iguais, humanos, e a luta teria que ser pelo ser humano total e não por raça, gênero o que seja. Bem, a igualdade se esvai aí, no momento em que é negado ao indivíduo o exercício de sua denúncia e crítica sobre o estado ao qual está vivendo, as discriminações que está passando, e os processos de desigualdade estabelecidos baseados em uma naturalização negativa das diferenças que o compõem. O que significa? Não há igualdade quando pela cor da pele minha alguém decide se devo ou não ser parado pela polícia. Não há igualdade quando pela textura do meu cabelo sou chamado ou não de “cabelo ruim”. Não há igualdade quando minha pele negra é chamada de exótica, e a cor branca é chamada de “natural”. Não há igualdade quando se estabelece uma nota de corte (se baseando em outra noção etérea, a meritocracia) que privilegia uma parte do estrato social elitizado, e exclui maior contingente da sociedade, culpabilizando o mesmo por seu estado de degradação e marginalidade. Não há igualdade.

Fraternidade. Bom, esse, na minha visão é um problema que nenhum dos indivíduos modernos estão conseguindo atingir e trabalhar. Porque envolve empatia, conexão com outro. No atual mundo no qual as pessoas não conseguem exercer sua condição plena de indivíduos em especial porque se pautam apenas em noções limitadas do que seria liberdade e igualdade, a fraternidade se torna pedra de toque quase inalcancável (mas não impossível) para efetivação do indivíduo moderno. Fraternidade, nessas condições para negr@, não existe. Não há fraternidade quando setores da sociedade, dito progressistas, em nome da “igualidade” negam a voz de protesto d@ negr@, e tentam ditar qual é a pauta que el@s deveriam tratar. Não há fraternidade quando a voz d@ negr@ é silenciada em todos os espaços, e seu protagonismo é negado ou sequestrado em prol de interesses de reprodução do status quo. Não há fraternidade quando dizemos que @ negr@ se encontra na situação que está porque teve azar ou não se esforçou o suficiente. Não há fraternidade.

Meu ponto sobre 13 de maio, portanto, é que ele não seja lembrado apenas como dia da Mentira, ou da falsa abolição. Mas também como dia da não-modernidade d@ negr@, ou o dia da negação-da-modernidade d@ negr@. Modernidade essa que, em seus princípios, é essencial para que efetivamente sejamos livres, iguais e fratern@s.

Por enquanto, desde 13 de maio de 1888, jamais fomos modern@s. Por enquanto.

Texto: Caio Faiad / Edição de Imagem: Pedro Borges

– Como eu sou estudante de Pedagogia vou dar uma aula pública! Vou fazer umas perguntas,
mas só as pessoas pretas respondem, ok? Vou perguntar: Existe negrofobia?
– Não!
– Como se chama isso?
– Racismo.

Essa intervenção da DJ de blackpower loiro que aconteceu na festa BATEKOOSP durante a Ocupação Preta da Funarte em São Paulo e é uma representação da nova configuração de educadores no Brasil.

Dias antes dessa importante festa do movimento negro brasileiro, li uma matéria sobre Ane Sarinara uma professora de Osasco, Grande São Paulo, que nas aulas de História pedia aos alunos que compusessem funks com o conteúdo ministrado por ela. Destaco o seguinte trecho da reportagem da Revista do Brasil “Estudou em escolas estaduais da região, onde anos depois voltou para lecionar, após cursar História em uma das primeiras turmas do ProUni. ‘Ultrapassei o limite de ‘você vai ser doméstica, ter filho aos 16 anos e seu máximo vai ser um marido traficante’, como me diziam quando eu tinha 14 anos’.”

Já a história de quem os escreve começa na favela do México 70 em São Vicente no litoral de São Paulo. Com muito esforço consegui uma vaga no CEFET-SP (hoje IFSP) na cidade de Cubatão. Estudar na escola federal foi um grande diferencial na minha formação, mas também houve um esforço sobrenatural. Em seguida, entrei em Química Ambiental no Ibilce-Unesp, segui o mestrado em Química Orgânica no IQ-Unicamp e, ao invés de, iniciar o doutorado, comecei Letras na FFLCH-USP. Hoje divido o meu tempo entre a segunda graduação e a docência em uma Instituição de Ensino Superior privada, onde leciono no curso de Licenciatura em Química na modalidade EAD em Santos.

Existem pontos de contato entre a minha trajetória de professor universitário, a da professora de História da Educação Básica de Osasco e a da DJ estudante de Pedagogia: somos reflexo de uma política nacional de educação que abrange ProUni, Reuni, expansão do FIES, Lei de Cotas e as Lei nº 10.639/2003, que inclui no currículo da educação básica a “História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil.” Mas também há os aspectos de vivência que nos unificam ainda mais: somos negros, não chegamos nos 30 anos, e pelo menos dois de nós três somos de origem periférica.
Representamos, assim, uma nova configuração de educadores: o “professor da quebrada”.

Em junho de 2016, durante as manifestações das mulheres pelo fim da cultura do estupro ficou lantente que, para uma parte da sociedade brasileira, movimentos que buscam igualdade de direitos, seja das mulheres, dos negros e dos LGBTIQ, tratam-se de movimentos esquerdistas. Isso ocorre porque a polarização da política brasileira foi acompanhada de um direcionamento das pautas progressistas para os partidos de esquerda e centro-esquerda e das pautas conservadoras para os partidos de direita e centro-direita.

A entrada do PT na presidência da República deu vazão, embora de forma insuficiente, para as pautas progressistas. As pautas do Movimento Negro como a defesa das cotas raciais no Ensino Superior como meio para promoção da equidade racial se tornaram agenda dos partidos de esquerda, e portanto os conservadores, alinhados aos partidos de direita, apontam essas pautas, de maneira equivocada, como uma ideologia marxista. O mesmo acontecerá com as pautas do Movimento Feminista e do Movimento LGBT, que para a direita brasileira se tornaram mecanismo de uma doutrinação marxista, doutrinação bolivariana, doutrinação ideológica.

Izalci (PSDB-DF) é um dos idealizadores do projeto Escola Sem Partido

Tendo isso em vista, o deputado Izalci (PSDB-DF) apresenta a PL nº 867/2015 que pretende incluir nas diretrizes educacionais “Programa Escola sem Partido” que apresenta princípios pedagógicos superados alinhados a diretrizes conservadoras. O Movimento Escola Sem Partido considera os estudantes passivos no processo de ensino-aprendizagem e ao usar palavras como “vulnerabilidade” e “incitar” extremiza a verticalização da relação aluno-professor e concebe o estudante como uma tábula-rasa que não fará uma análise sobre o conteúdo que está sendo ministrado pelo professor.

Ainda, em uma análise mais rigorosa, é possível observar que por meio do § 1º do Art. 3º, que a PL pretende atingir especialmente as escolas públicas, pois dá liberdade às escolas privadas e confessionais para adotarem as práticas pedagógicas que convier. O absurdo não para por aí, pois se de um lado a diz PL que garante o “pluralismo de ideias no ambiente acadêmico”, ela também abre margem no item 6 do Anexo “Deveres do professor” que o professor deve coibir a expressão extra-conteudista dos alunos em sala de aula.

Em tramitação no Senado Federal, a PLS nº 193/2016 de autoria do senador Magno Malta (PR-ES) que apresenta os mesmos pressupostos do “Programa Escola sem Partido”. Essa PLS também apresenta brecha para que a lei seja aplicada apenas para a Educação Pública. No entanto, ela apresenta um diferencial: é explícito no Art. 5º que uma das funções do professor será reprimir os alunos que se expressem de forma diferente daquilo que a PLS propõe. Em suma, tanto a PL nº 867/2015 quano a PLS nº 193/2016 propõem uma escola sem dinamicidade de ideias, sem diálogo, sem debate, isto é, uma escola ditatorial.

Senador Magno Malta é o responsável pela criação do projeto apresentado no Senado

Para Leandro Karnal, o Movimento Escola sem Partido é produto de uma massa de “direita delirante e absurdamente estúpida”, pois acredita que na escola exista uma doutrinação marxista e não entende que um movimento que pede o fim da ideologia é ideológico em si. No entanto, eu analiso esse movimento criado em 2004 como uma força contrária as mudanças sociais que começam a ser implementadas por meio de pautas progressistas incorporadas no Brasil pelos partidos de esquerda.

Nessa perspectiva, o movimento Escola sem Partido, então, trata-se de um projeto articulado que formula estratégias para barrar algumas das poucas formas de permeabilidade social. Os projetos de lei é uma forma de revalidar o racismo estrutural da sociedade brasileira daqueles que com muito luta conseguiram transpor os obstáculos durante os anos da Educação Básica. Os líderes desse movimento sabem que a transformação da sociedade por meio da educação é auto-catalítica (para usar o linguajar dos químicos): quanto mais negros, pobres e favelados se tornarem professores da quebrada, mais negros, pobres e favelados conseguirão sair do destino que a elite branca brasileira preparou para nós: o subemprego.

O professor da quebrada entende a importância de políticas de ampliação de acesso ao Ensino Superior, propõe debate e luta pela adoção das Cotas Raciais também nas Universidades Públicas Estaduais nos Estados que não aderiram, como o caso de São Paulo. O professor da quebrada se mobiliza para que Lei nº 10.639/2003 (alterada pela Lei nº 11.645/2008 para inserir a questão dos povos indígenas) seja aplicada em suas aulas, seja por meio da participação em movimentos sociais organizados, em práticas que valorizem a vivência dos estudantes periféricos,
ou, ainda, por meio de ampliação de conhecimento com uma nova graduação. O professor da quebrada concebe que a função do educador é a formação de cidadãos que entendam a configuração social do país e que compactuem não só com o fim do racismo, mas também com o do machismo e da LGBTfobia.

Nesse contexto, o Movimento Escola Sem Partido deve ser visto também como uma forma de expressão política de uma direita conservadora articulada por meio de dispositivos legais para amordaçar essa nova geração de professores que possuem capacidade de fomentar e de instigar novas reflexões sobre a realidade social brasileira. Não é coincidência que esse Movimento volta a receber atenção midiática no momento em que o presidente interino monta o Ministério sem mulheres e sem negros. É preciso que fiquemos atentos a tramitação da PL nº 867/2015 e da PLS nº 193/2016, pois elas ameaçam avanços na Educação, pois visa minar as políticas antirracismo da educação brasileira fomentadas principalmente pelas Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008. Se for aprovada, certamente, representará um novo patamar de retrocesso para nossa sociedade.

Caio Ricardo Faiad da Silva é Bacharel em Química Ambiental – UNESP, Especialista em
Planejamento, Implementação e Gestão da Educação a Distância – UFF, Mestre em Química
Orgânica – UNICAMP, licenciando em Letras/Linguística – USP e docente de Química e Gestão
Ambiental – UNIMES.

Texto: Juarez Xavier / Foto: Scott Olson/Getty Images / Edição de Imagem: Pedro Borges

Os conflitos raciais nos Estados Unidos expõem a trinca de uma sociedade dividida em dois mundos: o branco –cercado de vantagens comparativas- e o negro –submisso às diversas formas de violências físicas e simbólicas. A brutalidade da polícia é a face derradeira dessa disparidade de condições, que se estende para todos os principais indicadores sociais.

As conquistas solidificadas nas lutas políticas pelos direitos civis foram sendo desmontadas por políticas de austeridade seletivas, pelas administrações republicanas conservadoras.

Nem mesma a eleição de um presidente negro, Barack Hussein Obama II (2009-2016), foi capaz de cessar e reverter esse processo. A base material dos conflitos é a profunda desigualdade social que separa brancos de negros. O racismo –ideia de uma suposta superioridade racial- é a base simbólica, convertida em força material, incorporado às relações sociais cotidianas.

Barack Obama é o primeiro presidente negro da história dos EUA. Foto: NICHOLAS KAMM/AFP/GettyImages

Os números evidenciam o tamanho dessa rachadura em cinco círculos que são os centros dessas desigualdades: renda entre os grupos sociais, situação da população carcerária, condições escolares, violência policial e direito à moradia.

Em 2014, a BBC produziu reportagem em que analisou os principias indicadores de cada um desses espaços sociais.

As pesquisas das instituições que serviram de fonte mantêm as linhas observadas antes, mas com curva ascendente.

É profunda a desigualdade de renda entre os brancos e os afro-americanos. Com base na variação entre 1983 e 2010, os brancos têm em média seis vezes mais patrimônio do que os negros e hispânicos [Urban Institute].

As prisões são os locais onde essas diferentes se materializam. Os negros do sexo masculino recebem penas maiores do que os brancos, nas mesmas situações [U.S. Sentencing Commission].

Os afro-americanos representam 12% da população nacional. Mas os negros representam 40% da população carcerária [Stanford University].

Nas escolas, os negros têm índices de suspensão e expulsão maiores dos que os brancos, numa proporção de 16% contra 5% [Office of Civil Rights – US Department of Education].

A situação atinge meninos e meninas. A diferença se amplia quando comparada as condições dos dois grupos no ensino superior: os brancos com mais de 25 anos têm mais chances de concluir a licenciatura do que os negros: 34% contra 21% [Pew Research Center].

A percepção do tratamento dispensado aos negros e hispânicos se encaixa a realidade. Setenta por cento dos negros e 37% dos brancos acreditam que as oportunidades concretas da sociedade são negativas para não brancos [Pew Research Center].

A crise imobiliária aprofundou a linha do “apartheid norte americano”. A população negra tem menos casa própria do que a população branca. Os brancos com casa própria somavam (2013) 73,4%. Os negros, 43,2%. Os hispânicos também estão abaixo da média nacional (65,2%), com 45,5% [United States Census Bureau].

As casas dos negros são menos valorizadas. A segregação residencial opera como fator de desvalorização dos imóveis das famílias negras. As hipotecas dessas famílias são de alto risco, mais vulneráveis à execução e à oscilação de preços [Brandeis University].

A arquiteta e urbanista brasileira Raquel Rolnik observou esse fenômeno, quando foi relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para o Direito à Moradia Adequada [2008-2014]. De acordo com os seus relatos, o peso da crise imobiliária de 2008 caiu sobre os ombros das populações negras e hispânicas, expulsas de suas moradias e bairros. Elas arcaram com o mico dos papéis pobres pulverizados pela queda dos preços nas bolsas de valores mundiais.

Os governos conservadores que se sucederam desde a década de 1970 deram a sua contribuição para esse cenário de desigualdade, com a adoção de políticas neoliberais e seus impactos negativos para a população negra: Richard Milhous Nixon (1969-1974), Gerald Rudolph Ford, Jr (1974-1977), Ronald Wilson Reagan (1981-1989), George Herbert Walker Bush (1989-1993), George Walker Bush (2001-2009).

Para o pesquisador da Universidade do Texas (Austin) Joseph Straubhaar, a crise atual é resultado de acertos e erros na adoção das políticas dos direitos civis. Para ele, essas políticas tiveram êxitos na promoção do acesso ao direito de voto, à educação de qualidade e à mobilidade social. Mas, “todos nós subestimamos três questão importantes”: a durabilidade e a força do racismo, em espacial nos estados do Sul; a ligação do racismo óbvio com o racismo mais sutil de caráter econômico, que bloqueou o acesso ao crédito para a população negra na compra da casa própria e a reação –“blackash” -contra a perda de poder dos brancos, em especial homens das velhas gerações –“força motora por trás do ‘Tea Party’ [articulação conservadora] e da campanha de [Donald John] ‘Trump’”, pelo Partido Republicano.

É nesse cenário de desigualdade e ressentimento racista que atua a polícia norte-americana. Para Straubhaar, o aparelho repressivo policial se deslocou do bloco dos direitos civis, e passou a operar segundo o “ethos local”, onde se concentram os incidente e as mortes. “A situação piorou desde o ‘11 de setembro’ [ataque às torres gêmeas do World Trade Center, na cidade de Nova Iorque], com a militarização das polícias, o aumento do uso de armamentos pesados, a presença da SWAT [Special Weapons And Tactics] e manifestações paranoicas contra os imigrantes, islâmicos e negros”.

O problema da violência está no racismo institucional da polícia, diz o pesquisador da Texas A&M International UniversityStuart Davis. Para ele, a instituição policial se separou dos cidadãos. As ações de violência da corporação são investigadas pela própria polícia. “A parte da polícia [Assuntos Internos] investiga as ocorrências, enquanto os sindicatos [como a “Ordem Fraterna da Política”] defendem os oficiais”. Esse mecanismo, de acordo com Davis, forma um circuito de impunidade, com intimidações a políticos e jornalistas interessados nas investigações das violações de direitos.

As violências raciais nos Estados Unidos, com particular evidência nos estados do Sul [American South], região mais conservadora, são resultado de profundas desigualdades sociais, que separam brancos de afro-americanos e hispânicos, no acesso às oportunidades sociais.

O desmonte sistemático das conquistas políticas dos direitos civis aprofundaram, nas últimas décadas, as contradições econômicas, sociais, culturais e políticas, pano de fundo dos assassinatos consentidos de jovens negros e hispânicos.

“Eu sou a/o próxima/o?”

O foco das denunciam do movimento Black Lives Matter (BLM)– Vidas Negras Importam” –com forte apoio entre jovens e artistas, como a cantora Beyoncé Giselle Knowles-Carter – são as manobras dos grupos conservadores, com os republicanos à frente, para reduzir a força política das comunidades negras e hispânicas.

A Suprema Corte de Justiça dos Estados Unidos recusou, em abril deste ano, proposta de republicanos conservadores, para modificar as normas eleitorais, com a redução da representação dos circuitos com maior população negra e hispânica, para beneficiar os circuitos com maioria da população branca.

Os discursos racistas, xenófobos, homófobos e machistas de Trump –em sintonia com os discursos de intolerância de fundo nazifascistas em várias partes do mundo, inclusive no Brasil- alimentam os conflitos raciais nos Estados Unidos -nos dois lados da fronteira racial, como se viu nos últimos acontecimentos, em que o veterano Micah Xavier Johnson, 25, matou cinco oficiais.

É esse discurso de ódio que é o passaporte que alimenta as violências racistas de policiais incrustados no aparelho repressivo do estado, para quem as “as vidas negras não importam”, como denunciam os jovens negros, hispânicos e brancos do BLM.

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