Revistas nas fronteiras, abordagens na rua e olhares atravessados em restaurantes são algumas das constantes na vida do viajante negro. Conheça o relato de Guilherme Soares, jornalista e viajante, sobre as experiências de ser negro e conhecer outras partes do mundo.

Texto / Guilherme Soares Dias
Imagem / Acervo pessoal

Viajar está na moda. Alguns especialistas dizem até que o turismo se tornou a maior indústria do mundo. Desde abril de 2016, quando decidi largar meu trabalho como jornalista, o apartamento em que morava em São Paulo, família e amigos, e saí viajando pelo mundo, percebo que a quantidade de pessoas fazendo o mesmo é muito grande. Dezenas de viajantes têm um blog, um Instagram e/ou Facebook cheio de seguidores que acompanham a viagem.

Algumas mulheres relatam as dificuldades de estarem sozinhas na estrada. Mas não conheço viajantes negros que façam o mesmo. Aliás, uma coisa é fato: nesse tempo todo cruzei com poucos viajantes negros, que estivessem em grandes jornadas. E senti na pele que ser um negro viajante tem desafios que os brancos nem imaginam. Além disso, percebi que sinto mais na pele o que é ser negro quando viajo, do que quando estava no meu antigo cotidiano em São Paulo (nem de longe isso significa que não exista racismo na cidade, mas em lugares novos me sinto mais suscetível a ele).

Faixa para textos BAP
Durante a primeira parte da minha viagem, que durou nove meses, fui abordado por policiais nas ruas de Veneza e Jerusalém. Na cidade italiana, os policiais que me viram em um dos canais queriam conferir o meu passaporte, saber quando cheguei, onde estava hospedado e anotaram meu nome numa ficha. Quando perguntei porque me abordavam, disseram ser um procedimento comum. A cena me deixou bem triste. Chorei depois do episódio pelo preconceito que nos tolhe a possibilidade de andar tranquilamente pela rua.

Em Jerusalém, estava com um amigo polonês e voltávamos para o hotel, quando dois policiais armados com metralhadoras perguntaram: “where are you from?”. Gelei. O meu amigo respondeu “Da Polônia e do Brasil”. Eles repetiram a pergunta se dirigindo a mim, deixando evidente que eu era o “suspeito”. E repeti: “Do Brasil e da Polônia”.

Em diferentes fronteiras por onde passei, também fui revistado e bastante questionado. Viajei do Brasil para o Chile por terra, cruzando pelo norte da Argentina. Foram sete dias e três revistas. Quando cheguei em San Pedro encontrei um outro viajante que tinha passado três meses viajando a Argentina por terra. Falei das revistas nos ônibus. “Ah, mas eles só revistam quem tem cara de 'malandro'”, disse ele, branco, filho de médicos. Eu disse: “sim, fui revistado três vezes em uma semana”. Ele mudou de assunto.

Toda vez que ia de um país a outro (e foram 23 até agora) temia pelos processos que iria passar. Nem gosto de futebol, mas comprei até uma camiseta da seleção brasileira para passar pelas fronteiras. Para mim, apesar dos pesares, os brasileiros têm simpatia nas migrações. Além disso, sempre me preocupo em ter a barba feita. Quanto maior, mais sou identificado como árabe e passo por revistas. Na Austrália, fui escolhido “aleatoriamente” para um teste anti-bomba. Essas experiências foram marcantes na viagem. Percebi o quanto minha presença era 'diferente' em alguns lugares. Em alguns restaurantes mais turísticos, só brancos em volta. Nem sempre tinha prioridade ao ser atendido. Em outras, recebia olhares desconfiados.

Na Rússia, eu era o único negro circulando pelas ruas. Uma amiga brasileira de ascendência oriental, que viajou comigo pelo país, leu em uma revista distribuída no trem, que leva do aeroporto ao metrô, que turistas negros, árabes ou orientais devem evitar falar a língua original em voz alta nas ruas de Moscou. Isso marcou nossa experiência por lá. Estávamos nos reencontrando depois de um tempo longe e, apesar da animação, tínhamos receio de falar alto na rua. Eu demorei para me sentir à vontade no país.

Ser diferente também chamou atenção de outra forma. Foi na Itália que meu nariz, mais largo e africano, foi considerado sexy pela primeira vez na vida, numa paquera na escada do metrô. Logo eu, que venho de uma família que sempre considerou nosso nariz feio e que cheguei a pensar em fazer uma plástica na adolescência. Foi interessante perceber que ele poderia chamar atenção de outra forma em outro canto do mundo.

Número reduzido

Uma das faces mais terríveis do racismo é colocar nós negros nas estatísticas ruins, maior número de desempregados, nos presídios, em situação de rua, entre outros, e nos tirar das estatísticas positivas, como pessoas com graduação, em cargos de chefia e até mesmo fazendo turismo. Encontrei muitos brasileiros pelo meu caminho, mas, como comentei antes, poucos eram negros. De todos os viajantes que cruzaram meu caminho lembro de uma brasileira negra, que comprou tour comigo em San Pedro de Atacama, Chile. A outra negra que encontrei foi no Marrocos, onde uma das minhas companheiras de tour ao Saara era uma etíope, que nasceu na Escócia e mora nos Estados Unidos. Nós dois comumente éramos confundidos com locais. E foi só. Em nove meses, 23 países*.

Fui percebendo o quanto era peculiar ser um negro viajando. No Facebook, encontrei um grupo chamado “Wanderers of colour (formerly travellers of colour)”, que reúne cerca de 1 mil pessoas de “cor”, negros e árabes de todo mundo que relatam experiências como viajantes. “Sabemos que nossas experiências ao viajar como pessoas de cor podem ser muito diferentes das nossas contrapartes brancas, especialmente em países menos tolerantes ou diversos”, diz a descrição. Em um dos relatos, uma viajante conta que turistas de um barco em Amsterdã ficaram fotografando-a, enquanto caminhava pela rua. Outro grupo, o “viajantes negros”, foi criado no último 17 de abril, agrega pouco mais de 100 pessoas e pretende ser um “espaço criado para que o negro seja visto como parte das pessoas que estão viajando a lazer e não apenas a serviço”.

Guilherme Soares Corpo

Guilherme Soares, em viagem pela Rússia. (Foto: Guilherme Soares/Acervo pessoal)

Yemsrach Tekletsadik, engenheira ambiental que vive nos Estados Unidos, com quem encontrei no Marrocos, considera que sua experiência é diferente da de um viajante branco. “Algumas vezes melhor, outras pior. No Marrocos, eu me sentia tratada como se fosse da família, todos eram doces. Mas no Vietnam, eu vi pessoas tirando fotos minhas. Foi estranho. Eu acredito que eles não vêem muitas pessoas negras. Já em Bali, na Indonésia, um homem não acreditava que eu era negra. Ele achava que tinha que ser muito, muito escura para ser negra”, afirma. E ela complementou: “É muito interessante saber que você está escrevendo sobre isso, porque poucas pessoas negras viajam. Eu só encontrei você e, talvez, outras duas pessoas negras em sete meses de viagens".

A historiadora Amanda Silva, com quem encontrei no Atacama, lembra que por ser uma negra de pele clara o olhar em relação à sua negritude geralmente se restringe ao cabelo crespo. “Na Bolívia, por exemplo, muita gente me perguntou se eu gostava do meu cabelo, numa referência evidente de que aquilo não era bonito nos olhos de quem via. E aquela postura mesmo diante do 'exótico': posso pegar? Mas, em geral, por onde andei sempre fui muito bem recebida”, considera.

Nômade digital

Ao fim dos meus primeiros noves meses viajando, decidi que queria ser nômade digital e conseguir um trabalho que me mantivesse na estrada. Enquanto o desejo não se tornava realidade, vim para San Pedro de Atacama, no Chile. A cidade que mais recebe turistas do país, cheia de agências e hotéis, que agrega vários viajantes em busca de trabalho. Mas que tem suas próprias divisões sociais entre a classe trabalhadora.

É interessante perceber que entre os atendentes de agências e hotéis (a cara desses estabelecimentos, com boa remuneração por conta das comissões), todos são brancos. Os atacamenhos, índios da região, que têm pele mais escura, exercem funções como motorista de carro, atendentes de pequenos comércios e trabalhos mais braçais. Algumas pessoas que vivem na cidade se referem a eles como atacamonkeys. Apesar de juntarem as palavras atacamenho e macaco para se referir de maneira pejorativa às pessoas locais, ninguém acredita que isso é racista.

Os poucos negros que existem na cidade (dá pra contar nos dedos), a maior parte colombianos, trabalham como garçons, entregadores ou hunters – figura que fica na rua chamando turistas para comprar tours ou entrar em restaurantes. Os bolivianos, a maior parte trabalhando ilegalmente e/ou responsáveis por sustentar a família no país de origem, exercem funções de pedreiro, camareira, limpeza ou cozinha. Eles são explorados em jornadas superiores a 10 horas, recebem baixos salários e ameaças.

No meu caso, quando cheguei, só recebi oferta para ser hunter. Recusava a aceitar essa função justamente por ter viajado nos últimos meses e evitado o “assédio” desse profissional enquanto estava andando calmamente pelas ruas turísticas de diferentes lugares. Insisti e acabei trabalhando como atendente em uma agência que estava abrindo. O dono sempre sonhou em ter uma “brasileira com boa aparência” trabalhando nessa função. Achava que isso atrairia mais pessoas e que venderia mais. Existem pelo menos quatro agências que trabalham focadas no público brasileiro na cidade. Em todas elas, são meninas brancas que atendem aos turistas. Machismo e racismo explicam.

No meu cotidiano de viajante, esse racismo do dia a dia é muito mais presente e marcante do que quando vivi em São Paulo, morando no centro. Como não tenho a pele tão retinta, nas ruas da metrópole paulista eu era mais um. No máximo fui confundido como morador de rua. Mas na porção sul da América do Sul, onde sou um dos poucos negros, na Europa, onde a islamofobia é forte, ou em qualquer outra fronteira do mundo, preciso estar atento. Sei que a qualquer momento posso chamar atenção pelo “jeito errado” e ser colocado numa fria, simplesmente por existir: estar num aeroporto, entrando num restaurante, consumindo numa loja ou apenas circulando pela rua.

Talvez seja difícil para quem não é negro entender ou captar todas as subjetividades desse relato. Lembro-me que uma amiga visitou a Malásia, um país muçulmano, e se sentiu incomodada por circular numa cidade praiana de bermuda e receber vários olhares. Eu só me toquei que isso não era usual depois que ela falou. Eu também tinha visitado o local e não tinha percebido que isso ocorria.

Para além das dificuldades de superar as estatísticas, nós negros podemos e devemos sonhar em ser viajantes, nômades digitais, turistas e frequentadores de lugares que não foram reservados para nós, mas que também são nossos. Mesmo que a gente não seja apenas viajantes, e sim, viajantes negros – o que significa ter que problematizar determinadas questões – e com nossas presenças militarmos a ocupação de novos espaços até que não sejamos mais exceções. Afinal, viajar livremente é preciso – e é pra gente também.

*Publiquei um livro chamado “Dias pela Estrada” (editoramultifoco.com.br/loja/product/dias-pela-estrada/), que traz contos das viagens que eu fiz durante nove meses. Por lá, paisagens, amores e fluxos de pensamentos sobre viajar por nove meses.

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