A industria mundial de cosméticos expõe uma das faces do racismo global a partir da busca pelo clareamento de peles negras e a venda de produtos nocivos para a saúde da população negra.

Texto / Iacy Correia
Imagem / Reprodução

Não são poucos os traumas deixados pela colonização européia no continente africano. As constantes violências deixaram marcas profundas nas populações e muitas delas persistem até hoje.

Recentemente, a discussão acerca da propaganda do hidratante “Natural Fairness” (Clareza Natural), lançada no último mês de outubro pela marca de cosméticos Nivea, traz à tona uma consequências mais severas da internalização dos efeitos do colonialismo nas sociedades africanas: o embranquecimento da pele.

O anúncio, com a ex-miss Nigéria Omowunmi Akinnifesi, adota o slogan de uma “pele visivelmente mais clara”. O comercial para TV que mostra a modelo ficando com a pele mais clara depois de usar o creme, foi duramente criticado em muitos países africanos, principalmente na Nigéria, em Gana, Camarões e Senegal.

Pouco conhecido no Brasil, esse processo de branqueamento é chamado de “Skin whitening”, “Skin Bleaching” ou “Bleaching”, e consiste no uso contínuo de produtos com princípio ativo em mercúrio e hidroquinona química com a finalidade destruir os melanócitos, células responsáveis pela produção de melanina, para obter tons mais próximos da pele branca.

É um problema social de homens, mas principalmente, mulheres em todo o mundo. Em África, o bleaching afeta, principalmente, as jovens mulheres negras e, especialmente, as de tom de pele mais escura, devido à exclusão afetiva e social, à autodepreciação e ao colorismo causados pelo racismo.

Essa percepção de que “quanto mais branco, mais bonito” é um trauma em consequência das ideologias eugenistas, com relações sociais e econômicos baseadas na inferioridade racial no continente africano e nas diásporas.

Nesse contexto, as teorias eugenistas despertavam nos negros de pele escura o sentimento de inferioridade e autodepreciação, em relação ao brancos e aos negros de pele clara. Já para os negros de pele clara, essas teoria os encorajava a desenvolver um sentimento de superioridade em relação aos negros de pele escura e inferioridade aos brancos, já que tinham a cor da pele mais próxima do colonizador.

Nina Jablonski, a professora de antropologia na Universidade Estadual da Pensilvânia, nos Estados Unidos, em entrevista para site YouBeauty, em março de 2014, fala sobre a legislação do status social pela cor da pele e as consequências do colorismo durante a escravidão: "Se você fosse um 'preto' ou um 'bantu' e você tivesse uma pele clara, você poderia se passar como um 'colorido' e ser concebido um pouco mais de privilégios e a capacidade de se mover um pouco mais livremente. Ou, se você fosse uma pessoa "colorida" de pele clara, você pode passar como 'branco' e não tem restrições” .

(Foto: Marlon James/Revista MarieClaire

A pele branca era sempre superior no ideal social, já que as características brancas europeias denotavam como beleza e pureza, enquanto os africanos eram caracterizados como demoníacos, feios e selvagens.

Yaba Blay, uma das principais pesquisadoras americanas em cultura e identidade negra ao redor do mundo e referência no estudo da prática do bleaching e supremacia branca na sociedades africanas, autora do livro “(1)ne Drop: Shifting the Lens on Race, de 2014, e do artigo a Yellow Fever: Skin Bleaching and the Politics of Skin Color in Ghana, em entrevista para site TakePart, em janeiro de 2015, alerta sobre a importância em contextualizar o papel do colorismo imposto pela supremacia branca nas relações sociais: "Quando você não contextualiza o colorismo dentro da supremacia branca, você culpabiliza as mulheres negras. "….”A supremacia branca é insidiosa. Se você não reconhece todos os pontos de entrada e todas as formas em que se remixa para nos atacar, sempre estaremos no fim de um ataque".

O “ataque” que a Dr. Blay se refere é dos sistemas raciais, que se manifestam por meio de sistemas de castas, discriminação e acesso desigual à mobilidade social e econômica com base na cor da pele ao redor do mundo. Ela também atenta para o fato de que o skin bleaching é uma prática para a tentativa de inclusão social: "Para [pessoas que embranquecem a pele], a brancura equivale a tudo: beleza, poder e valor. Mais uma vez, é assim que funciona a supremacia branca. Todas essas cores próximas à brancura colhem alguns dos benefícios". E continua: "Eles estão tentando chegar perto o suficiente para colher os benefícios”.

(Imagem: Reprodução)

As cantoras americanas Beyoncé, Rihanna, Nicki Minaj, Lil Kim, a nigeriana Dencia e a modelo queniana Vera Sidika são alguns dos casos mais famosos de bleaching. Enquanto nada foi comprovado nos casos das três primeiras, as três últimas alegam que somente após embranquecer suas peles conseguiram status e reconhecimento.

 Dencia inclusive clareou a pele com um produto de sua própria marca: o Whitenicious, lançado em 2014. A cantora causou polêmica ao dizer que “branco significa pureza”, ao defender o seu produto em um programa de TV na Inglaterra. E como resposta às críticas, ela declarou: “Podem dizer a bobagem que quiserem sobre a Beyoncé, Nicki Minaj ou Rihanna, mas sabem do que mais? Estão no topo, são campeãs, e todas clarearam a pele”.

Vera Sidika, modelo queniana considerada a “Kim Kardashian da África”, devido a similaridade do seu corpo com o da americana, anunciou, em 2014, que fez tratamento de branqueamento na pele no Reino Unido no valor equivalente a R$ 376 mil. Na época, ela recebeu duras críticas da mídia local e afirmou: “Fico surpresa com a hipocrisia com a qual os homens fingem que gostam das mulheres negras quando na verdade sempre vão atrás das brancas”. Sidika ainda rebateu às críticas dizendo: “Nunca criticaram a Rihanna e a Nicki Minaj (quando clarearam a pele), e a mim sim? O meu trabalho é a beleza”.

(Imagem: Reprodução)

 A rapper Lil Kim começou seu processo de embranquecimento e cirurgias plásticas em 2001 e em entrevista à MTV Americana, em outubro de 2003. Quando questionada sobre o porquê de suas alterações, ela respondeu: “Eu estou realmente cansada de estar só. (risos) É sempre muito difícil para uma mulher como eu (negra)”. Mas, essa não foi a primeira vez que Lil Kim falou sobre o tema, em entrevista de junho de 2000, para a revista americana NewsWeek, ela disse que sua relação com o pai foi um dos principais fatores para sua baixa autoestima e que isso se refletiu em seus relacionamentos: “Todos os homens da minha vida já haviam me dito que eu não era bonita o suficiente, até mesmo os homens que eu estava namorando. Eu reagia como 'Bem, por que está comigo, então?' e continuou: “Sempre foram homens me colocando para baixo como o meu pai. Até hoje, quando alguém diz que sou bonita, eu não posso ver. Não vejo e não importa o que digam."

Foi possível ver o ápice desse processo de transformação em abril de 2016, quando Lil Kim postou uma montagem de fotos em seu instagram. Ela tinha a intenção de mostrar a sua nova cor de cabelo, mas foi a cor da sua pele que realmente chamou a atenção de seus seguidores e da mídia americana e internacional. Isso porque ela estava realmente branca e totalmente irreconhecível, após diversos processos de branqueamento e cirurgias plásticas. As fotos também geraram revoltas nas redes sociais, e diversos seguidores a criticaram e a consideraram um péssimo exemplo para as jovens garotas negras americanas.

(Imagem: Reprodução)

O mercado de Bilhões de dólares

 O bleaching é um fenômeno global que movimenta bilhões de dólares. É um dos mercados de maior rentabilidade e crescimento do mundo.

De acordo com uma pesquisa feita pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 2011, os continentes africano e asiático são os maiores consumidores de produtos para o embranquecimento. No Mali 25% das mulheres relatam consumir cremes desses tipos de produtos da pele regularmente. No Senegal, o número é de 27% , na África do Sul de 35% e no Togo é de 59% .A Nigéria é o maior consumidor de toda África, com 77% de nigerianas consumindo regularmente.

Na Ásia, 40% das mulheres na China (Província de Taiwan e a região administrativa especial de Hong Kong), Malásia, Filipinas e República da Coréia consomem produtos para embranquecer a pele. Na Índia, esse mercado constitui em 61% de cosméticos.

(Foto: Christin Roby/Washigton Times)

A Global Industry Analysts, uma das principais referências mundias no estudo de mercado e tendências de produtos aponta que até 2024, o mercado global de produtos “Skin Lightening” deverá atingir a lucratividade de US$ 31,2 bilhões. Na África, esse mercado atingiu a estrondosa marca de US$ 10 bilhões, em 2015/2016. Já na Ásia, o potencial de crescimento é de US$ 5,7 bilhões até 2021.

A análise considera que os principais fatores para o crescimento desse mercado é a prevalência do colorismo e a penetração de produtos para o público masculino, além do aumento do uso de ingredientes para embranquecer a pele em desodorantes, sabonetes , marcas, hidratantes para o corpo. E as inovações tecnológicas continuam, incluindo a pesquisa de novos agentes químicos branqueadores como Hydroxyapatites, Licorice, Algae, Moringa ajudam expandir as oportunidades de crescimento do mercado.

(Imagem: Sia Kambou/AFP/Getty Images)

Das 100 empresas analisadas, 36 delas estão concentradas no continente europeu, sendo a França o país europeu com o maior número empresas (18), seguida pela Alemanha (5), Reino Unido (3) e Espanha (1) e resto da Europa (9). Na América do Norte, os Estados Unidos é o maior produtor (33), seguido pelo Canadá (1). Na Ásia, a maior concentração está no Japão (7), e o restantes das empresas (3) estão localizadas em diferentes pontos do continente. Entretanto, a maioria desses países são considerados poucos consumidores ou não consumidor e, em boa parte deles, a distribuição interna é proibida. Ou seja, o uso de mercúrio e hidroquinona química em cosméticos só é liberado apenas para produção e exportação, e não para importação.

Ocronose e a saúde negra

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o uso de mercúrio em cremes branqueadores pode causar descoloração, má cicatrização, redução da resistência às infecções cutâneas, ansiedade, depressão e danos severos aos nervos.

Em 2014 , a Universidade de Cape Town, na África do Sul, conduziu um estudo para investigar os ingredientes ativos nos países de origem dos mais populares produtos em Cape Town e foi constatado que dos 29 produtos testados, 80% continham hidroquinona, esteróides e mercúrio.

A professora Ncoza Dlova, chefe do departamento de dermatologia da Universidade de KwaZulu-Natal e responsável pelo estudo Ethinic skin and hair disorders in Kwazulu-Natal, em entrevista para o jornal City Press, em fevereiro de 2016 afirma: "Estes cremes causam desgaste irreversível para a pele, envelhecimento precoce, infecções cutâneas, acne induzida por esteróides, marcas escuras permanentes e câncer de pele. Infelizmente, os fabricantes e distribuidores não colocam essa informação nos pacotes.”

Um outro efeito muito conhecido é a Ocronose ou alcaptonúria, uma condição rara que resulta na deficiência completa da enzima ácido homogentísico oxidase (HGO), causando uma pele avermelhada, mancha na córnea, escurecimento e endurecimento de cartilagens, diminuição da função pulmonar, cartilagem intervertebral vulnerável a hérnias, endurecimento dos tendões e ligamentos , inflamação crônica e microfraturas nas articulações.

(Foto: Marlon James/MarieClaire)

Bill Duke, ator e produtor de “Dark Girls,” de 2011 e “Light Girls,” de 2015, dois dos principais documentários sobre a prática do bleaching nos Estados Unidos e no mundo, em entrevista para o Los Angeles Time, em 2015 afirma: “O que é irônico é que, enquanto as mulheres negras são a luz e escuridão nessa idiotice, as mulheres brancas estão em salões de bronzeamento duas vezes por semana, deixando seus cabelos enrolados, fazendo lifts nas bundas e com os lábios de Botox para ficarem mais étnicas”. E enfatiza: “ A dor não tem cor, mas há uma separação social. Isso não quer dizer que as mulheres negras de pele clara não tenham problemas ou questões, mas elas são julgadas antes de saber quem são. A coisa é um grupo pensa estar passando por mais dor do que o outro. O fato é que, quando você está sofrendo emocionalmente sobre sua vida, a cor da sua pele não importa. Até que nós nos curamos como um povo, em termos de resolver os conflitos de nossa cultura, nós não teremos força, foco, energia ou capacidade de combater o exterior que nos mata”, finaliza.

Sobre o Alma Preta

O Alma Preta é uma agência de jornalismo especializado na temática racial do Brasil. Em nosso conteúdo você encontra reportagens, coberturas, colunas, análises, produções audiovisuais, ilustrações e divulgação de eventos da comunidade afro-brasileira. Nosso objetivo é construir um novo formato de gestão de processos, pessoas e recursos através do jornalismo qualificado e independente.

Onde Estamos

Endereços e Contatos
18-80. Jd Nasralla - Cep: 17012-140
Bauru - São Paulo
contato(@)almapreta.com

Mais Lidos